António Gomes do Céu
Este poeta marinhense nasceu em Picassinos (Marinha Grande) em 21 de Junho de 1894. Era filho de Manuel Gomes do Céu e de Maria Joaquina.
Homem modesto, filho de gente humilde, Gomes do Céu, como a grande maioria dos marinhenses, cedo foi forçado a trabalhar para angariar o seu sustento, não tendo tido, por isso, a oportunidade de frequentar a escola na idade própria.
Autodidacta, aprendeu a ler e escrever, mas só em 22 de Maio de 1968, já com 74 anos de idade, fez o exame da 4a classe, no Hospital Militar Principal, em Lisboa.
A sua mocidade foi passada no trabalho, tendo tido várias actividades: lavrador, vidreiro e, por último, guarda florestal, profissão para a qual entrou em 25 de Outubro de 1920.
Sempre modesto, respeitador e de bom coração, Gomes do Céu foi um homem exemplar, que em cada marinhense tinha um amigo.
Talvez não tenha sido um grande poeta: nota-se facilmente a falta de ligação, a restrição de termos apropriados, pela sua grande dificuldade literária. "Mas no que tem de bom a sua poesia e simples, na dignidade de dar aos outros a sua história de um homem humilde que participou numa guerra" (palavras do poeta marinhense José Martins Saraiva, a propósito de Fui chamado para a guerra).
Deste livro destacamos, pela análise sincera, algumas sextilhas:

  Fui a pé pelo caminho,
  Mas como ia sozinho,
  Foi profunda a comoção!
  Minha noiva idolatrada
  E minha mãe adorada
  Levava no coração!

  Em Bustes fui alojado
  Num matadouro de gado.
  Mas quem é que lá dormia?
  Ninguém pode descansar!
  Vacas, bois, a barregar...
  Que maldita berraria!

  A conversação inglesa
  Foi motivo de surpresa...
  Não pude meter bedelho.
  Vi depois muito escocês,
  Com a saia de xadrez
  Curta, acima do joelho.

  Usavam cara rapada,
  Saia de risca encarnada,
  Grevas, metas, boas ligas,
  Coxa nua, muito clara,
  Que lavavam quando a cara,
  Pareciam-nos raparigas.

  Marchámos para as trincheiras.
  Mochila e cartucheiras
  Nunca foram tão pesadas.
  Com a roupa e o calçado,
  Rancho de reserva ao lado,
  Causam-nos grandes maçadas.

  Outro valente soldado,
  Que tinha um boche agarrado,
  Dizia aos nossos a rir:
  Afinal estes marotos
  São homens como os outros,
  Que não conseguem fugir.

  Mataram-se mutuamente,
  Sem haver previamente
  Entre eles qualquer razão.
  E deixaram, afinal,
  Na Alemanha e Portugal,
  Mulher e filhos sem pão.

  Atacados pelos gases,
  Muitos dos nossos rapazes
  Baixaram ao hospital.
  Por milagre do Senhor,
  Tinha o vento a meu favor:
  Escapei ao grande mal. .

  A três de Abril, regressei.
  A minha mãe abracei,
  Com puro amor filiar.
  Beijava-me ternamente
  E chorava de contente
  Por me ver em Portugal


Estes versos, que traduzem algumas passagens da aventura passada por Gomes do Céu desde que saiu da sua casa para uma Guerra que tão bem analisou, focam, em palavras simples, o que passaram milhares de portugueses, dos quais poucos ou nenhuns sabiam por que nela participavam.
Afonso Lopes Vieira escreveu no prefácio de Fui chamado para a guerra:

"Quando li este poema lembrei-me de que estas páginas descendem das relações da História Trágico - Marítima. Aí os cronistas, de cepa tão popular como a deste autor, contavam os seus naufrágios no mar - e o soldado conta-nos o seu naufrágio em terra... Composto através de longos anos por quem só pode pegar na pena depois de ter manejado outros mais rudes instrumentos de trabalho, este poema aparece já quando, para desgraça do Mundo, a última guerra fez esquecer aquela de que os versos nos falam. O que não envelheceu, porém, foi o puro, honrado, humano documento nacional escrito por quem, ignorando a literatura, nos dá uma coisa muito mais singular - e que se chama poesia."

Além do seu livro, Gomes do Céu publicou outros versos.
Faleceu em 10 de Setembro de 1969 e esta sepultado no talhão da Liga dos Combatentes do cemitério da Abegoaria, na Marinha Grande.

in: CIDADE DA MARINHA GRANDE SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA - (João Rosa Azambuja)