Arminda Fonseca Simões
Arminda Fonseca SimõesCantar é tão necessário como o ar que respira

DESDE muito nova, que a nossa Ilustre aproveita todos os momentos para cantar, no entanto o seu reconhecimento público foi mais marcante, há perto de 27 anos, quando decidiu mudar-se com a família para a Marinha Grande.
0 seu gosto pelo palco, foi alimentado com participações de toda a família, em diversas actividades de índole cultural, realizadas pela colectividade da Amieirinha, onde se instalou ao chegar à M.ª Grande.

Ali, Arminda Simões, cantava e representava, o que lhe valeu o convite para participar num teatro de revista na colectividade de Picassinos, em que com os seus três filhos mais velhos sobressaiu.

A partir daquele teatro, os convites começaram a surgir e até aos dias de hoje, nunca mais pararam, "obrigando-a" a cantar durante todo o ano, em colectividades, casas de fado, restaurantes típicos, festas diversas e animação turística.

Em Fevereiro e Março passados, efectuou uma digressão à Alemanha, França, Bélgica e Luxemburgo, onde cantou e encantou, muitos portugueses, emigrados, naqueles países, que demonstram uma forte emoção, saudade do país e a receberam com muito carinho.

Do seu repertório, fazem parte temas do cancioneiro do fado, que se adaptam a ambientes diversos.

Natural de Lorvão, concelho de Penacova, distrito de Coimbra, Arminda Fonseca Simões, nasceu a 18 de Dezembro de 1939, foi a segunda de cinco irmãs.

Ainda a última irmã não tinha nascido, foi o pai para o Brasil e as notícias foram escasseando, até cessarem por completo.

Quase cinquenta anos depois, uma das irmãs, em visita a familiares e amigos, foi encontrá-lo com uma nova família de mais cinco filhos, no outro lado do Atlântico.

A mãe, que Arminda considera, que foi uma "super-mulher", aguentou todas as dificuldades da época para educar as cinco filhas e contrariamente a muitas outras crianças, todas completaram a 4ª classe.

Em casa, de forma artesanal, a mãe, fazia palitos para os dentes, com madeira de salgueiro e choupo.

A madeira era cortada em gomos, de forma a caberem no forno da broa e depois de bem secos, eram rachados para fazer os palitos, bem finos.

Esta arte, ainda hoje é executada pelas mulheres mais idosas como forma de ocupar o tempo.

Completa a 4ª classe, a nossa Ilustre, que com as irmãs, ajudava a mãe na feitura dos palitos, foi trabalhar na oficina de embalagem dos mesmos palitos.

Ali, era a animadora do trabalho, todos gostavam de a ouvir cantar e pediam-lhe para o fazer, para ajudar a passar o tempo.

Desde muito nova, tem grande facilidade em aprender as letras das canções e mantinha o "repertório". actualizado, comas músicas que iam saindo.

0 rigor, imposto pela sociedade da época, criava muitas proibições, no entanto, sempre que podia, a Arminda cantava e não havia Carnaval que passasse em branco, sem as suas cantorias no grupo de mascarados, em que era a porta-voz.

Durante algum tempo cantou no grupo "Simões Unidos", que animava os bailaricos da Associação Recreativa Lorvanense e da Casa da Música local.

Como o que queria era cantar, nunca deu grande importância às politiquices, que se viviam entre as duas colectividades.

Casou aos 18 anos e o nascimento dos dois filhos mais velhos, obrigou-a a ficar em casa onde continuou a fazer palitos, para ajudar o orçamento familiar. A falta de conhecimentos, que hoje admite, proporcionou-lhe oito filhos, de cujos nascimentos não se arrepende e sem ser "mãe galinha", mantém um receio constante de que algo de mal lhes aconteça.

0 marido, chegou a emigrar para França, no entanto, a decisão de mudar para a Mª Grande, foi tomada quando os filhos chegaram à idade de trabalhar.

Uma vez que ainda não é reformada, sobrevive com as gratificações, que recebe por algumas actuações, já que outras são de beneficência, para as quais está sempre disponível.

 Por conta própria, publicou duas cassetes e ainda mantém a secreta esperança, de um dia gravar um CD.

Cantar, é o seu "cano de escape" e é tão necessário como o ar que respira.

Nos dias, em que se sente mais deprimida, sente que algum poder sobrenatural a ajuda a cantar, quanto mais triste está melhor canta e quem a ouve, não nota o seu estado de espírito.

Sente que o público, ainda gosta de a ouvir e quando sentir que está mal, retirar-se-à por conta própria.
0 seu maior desejo, é que "Deus encarne nas pessoas, uma maneira de ser mais humana".

A.C.  

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
    (edição de 23 de Julho de 2000)