Jaime de Jesus Pinto
Jaime de Jesus PintoVeio de Resende, distrito de Viseu, para a Marinha Grande há cerca de 30 anos, inicialmente para a FEIS, tendo depois mudado para outras empresas até se instalar como coveiro no cemitério Municipal da Marinha Grande.
Chama-se, Jaime de Jesus Pinto, nasceu a 17 de Novembro, de 1957, na freguesia de Resende, tem três irmãos e uma irmã, é filho de agricultores.

Os pais além de trabalharem a terra, dedicavam-se, a vender peixe de porta em porta pela aldeia, para isso era necessário que todas as noites, cerca das 2 ou 3 da manhã e por vezes mais tarde, esperassem a peixeira que os fornecia.

O nosso llustre ainda tem na memória o leilão que acontecia quando se encontravam duas vendedoras na rua e que obrigava a uma baixa nos preços.

Completou a 4ª classe na  sua terra natal, numa escola toda em pedra da qual fala com grande carinho.

Cedo saiu da aldeia com vistas a melhorar o seu estilo de vida, quando tinha apenas 11 anos de idade, foi para o Porto para trabalhar como marçano, trabalhava por conta de uma mercearia e andava de porta em porta a atender clientes que já eram habituais, diários, semanais ou mensais, para saber o que necessitavam.

Quando fazia uma zona deixava o livro das encomendas na loja e deslocava-se para outra zona para de seguida. proceder às entregas dos primeiros pedidos.

Muitas vezes tinha de ir a casa de uma cliente só por uma caixa de fósforos.

Desempenhou esta tarefa durante perto de um ano, depois deslocou-se para a capital, Lisboa, onde esteve durante cerca de 3 meses na construção civil.

Decidiu-se a seguir pela Marinha Grande, onde criou raízes, sentindo-se, "orgulhoso de cá estar".

Sente um grande reconhecimento pelo chefe Loureiro, dos Bombeiros Voluntários da Marinha Grande, pelo apoio que lhe deu ao chegar, na entrada, na FEIS e na Corporação que passou a integrar de imediato como voluntário, onde pretende manter-se durante muito tempo.

Pouco depois de cá estar passou para a Crisal que lhe dava mais $50 (cinquenta centavos) por dia e depois para o Santos Barosa, onde esteve cerca de 3 anos a fazer telha. Ali tinha um prémio de $20 (dois tostões) por cada telha a mais, do que as 300.

Bastante feliz ficou, quando um ano depois de cá estar convenceu os pais a virem para junto de si. O pai foi trabalhar no Afonso Cardeira, nas travessas do comboio, mas depois do incêndio que  se verificou na empresa, foi para a Câmara Municipal de Pombal.

Em 1978 o Jaime foi convidado para integrar os quadros da Câmara, nas obras das estradas, mudando-se depois para coveiro, onde se mantém, à cerca de 20 anos.

A profissão de, coveiro já lhe era familiar, porque os tios executavam a tarefa na sua aldeia e o nosso Ilustre ajudava a levar o estandarte da igreja, que acompanhava o funeral.

Nesse serviço os miúdos que seguravam os pendões recebiam $50 e o do estandarte arrecadava 1$50.

Enterrar pessoas e fazer autópsias não lhe faz qualquer impressão, mas reconhece que "nem todas as pessoas conseguem fazer aquilo".

Admite que muitas vezes, é mais difícil falar do serviço do que propriamente fazê-lo.

O que mais lhe custa nas autópsias é quando se trata de crianças, porque lhe vem à ideia que "aquele ser nem sequer conheceu a vida".

Quando se trata de pessoas que conhece, então "tem de se manter frio e tenta não pensar nisso".

No entanto, impressiona-se mais com os feridos que tem de socorrer nos acidentes, que se estão a queixar e a gemer e é necessário muito cuidado para não os prejudicar com alguma distracção.

Para ele o trajecto do quartel até ao local do acidente "é muito aflitivo" porque nunca sabe o que vai encontrar.

Casado com uma marinhense, teve 6 filhos e já tem 7 netos, tendo sido avô com apenas 35 anos.

Pretende manter a sua actividade até à reforma.

A.C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
    (edição de 16 de Dezembro de 1999)