Joaquim de Oliveira Almeida
Começou nas cascas de noz por brincadeira e já lá vão 10 anos

JOAQUIM de Oliveira Almeida, nasceu no Marvão, a 10 de Janeiro de 1920.

Veio para a Mª Grande, quando tinha apenas dois meses, pelo que se considera marinhense.
Instalaram-se no Largo do Luzeirão, o pai, pintava casas e a mãe trabalhava a dias na limpeza e distribuía pão a pé, pela Mª Grande, por conta da padaria do António Augusto.

Com seis anos de idade, já tinha começado a trabalhar no Emílio Galo, mais tarde Angolana, levava acima e fechava o molde.

Quando tinha cerca de nove anos, houve uma grande paragem, de 11 meses, no Emílio Galo, para reparação de um forno e durante esse período trabalhou a fazer catraios, na Santos Barosa, na Ivima, Vicris e na FEIS.

Em pequeno, frequentou a escola por conta do sindicato, na casa onde está a loja do Cadime, mas fez apenas a 1ª classe, acabando os restantes anos até à 4ª nos adultos, na escola da Embra.

Chegou a 1º ajudante e reformou-se depois de vinte anos na antiga Manuel Pereira Roldão.

Depois de se reformar, foi para a loja da filha, que comercializava ferragens, na rua Marquês de Pombal, apenas para dar uma ajuda.

Ao princípio, sentiu dificuldades em saber os locais das peças, mas aprendeu com facilidade e mais tarde, depois do encerramento daquela loja, foi para uma outra casa do mesmo ramo, em Casal Galego.

Quando sofreu um enfarte, viu-se obrigado a abandonar esses serviços, que eram pesados e ficou, um pouco mais quieto.

Até que um dia, a neta apareceu com uma casca de noz com quatro bocados de feijão colados a fazerem de pés, para imitar uma tartaruga.

A peça, despertou-lhe o interesse e partir dali passou a idealizar as suas tartarugas e joaninhas.

Na casca da noz, colava um pedaço de papel, que cortava à medida e aplicava-lhe uns pés feitos de metades de feijão, mas viu-se obrigado a mudar a técnica, porque além de estragar o feijão lá de casa, os pés eram muito frágeis e partiam-se.

Passou a executá-los em borracha, que é maleável e permite pegar nas peças para pintar sem partir os pés. A concluir as tartarugas, a cabeça é um grão de bico.

As horas de dedicação obrigam a que surjam novas ideias e então agora já apresenta carrinhos de bébé, cestos com flores e joaninhas com alfinete para pôr ao peito, tudo tendo como base a casca de noz.

Não sabe de ninguém que faça o trabalho com esta matéria prima. Por vezes, é convidado para ir às escolas mostrar o seu trabalho, além disso, apenas mostra as suas obras na Feira de Artesanato e Gastronomia da Mª Grande e na exposição dos artesãos, que decorre em S. Pedro de Moel, durante a época balnear.

No canto da garagem, que lhe serve de "oficina", vai executando e armazenando o que vai fazendo para ter sempre algumas peças prontas.

Quem vê os trabalhos feitos em casca de noz, até pode pensar que o senhor Joaquim come algumas nozes, mas, chega a descascar cinco quilos de nozes e não come nem um bocadinho, garante.

Guarda o miolo e dá-o à filha para rechear bolos e a uma sobrinha que confecciona bolos para vender.

Por  ano, é capaz de comprar cerca de dez quilos de nozes, mas e necessário conhecê-las, porque em termos de sabor as nacionais são as melhores, mas as cascas são muito "sarrabulhentas" e dificultam-lhe o trabalho, diz.

A casca das espanholas e francesas é a melhor para trabalhar, por ser mais lisa.

Apesar de ser um trabalho miudinho, é muito dispendioso e ultimamente tem sido "muito cansativo".

Têm-lhe custado muito a cortar as cascas de noz, que corta com o serrote de cortar ferro, para fazer as asas dos cestinhos, mas reconhece que a força de vontade impulsiona-o.

Espera ter saúde para participar na FAG deste ano e não pensa parar com este trabalho porque com ele é que se distrai.

Os cestos da sorte são o seu mais recente artigo, no entanto tem vindo a aplicar-se também a nível de trabalhar com conchas e pedras.

A.C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
    (edição de 21 de Setembro de 2000)