José Ferreira da Silva (Zézinho dos Óculos)
Nasceu na Marinha Grande em 14 de Janeiro de 1901 e faleceu em Fátima, no Lar das Irmãs Concepcionais, no dia 2 de Outubro de 1977. Foi sepultado na Marinha, como desejara. Seus pais, José Leonardo da Silva e Emília da Conceição Ferreira Gândara, eram também naturais da Marinha Grande. Ferreira da Silva viveu com sua mãe, enquanto esta foi viva. Depois instalou-se na Pensão Tomás, praticamente até morrer.
Viveu quase sempre na sua terra, não obstante ter passado algum tempo no Montijo e em Lisboa, onde cursou uma escola comercial. Cedo regressou, tendo sido funcionário dos Serviços Florestais, onde tanto superiores como colegas lhe dedicaram sempre uma amizade só digna de pessoas superiores.
Foi sempre como um autêntico poeta. Homem culto, bom e simples, modesto, desinteressado, com poucas ambições. Era principalmente um sonhador, ingénuo e idealista. Toda a sua vida foi dedicada aos versos, a cultura e ao teatro. Participou e colaborou em todas as revistas e peças teatrais levadas a cena na Marinha Grande, sendo realçar o drama em um acto Dever, a peça em três actos Olha para cima, representada pela União da Mocidade Baptista da Marinha Grande, a revista Cantigas e Cristais, de que foi autor juntamente com António Vasconcelos Ribeiro, e também as revistas Marinha à vista, Alô! Alô! aqui Marinha, Ó patego, olha o balão, para as quais fez praticamente todos os versos.
Em 1948 publicou um livro de poesia, que intitulou Versos sem Lei, apresentado pelo seu amigo e grande poeta Silva Tavares. A imprensa, não só a regional mas também a diária, teceu-lhe os maiores elogios. Escreveu o Diário Popular:

"A sua ignorância voluntária das algemas da forma corresponde de facto, o que nem sempre acontece, um espirito sensível, apaixonado e vibrante. Ferreira da Silva e poeta. Alguns poemas, como por exemplo "Egoísmo", "Paisagem campesina" e "Só", marcaram uma presença. Se a sua expressão não é ainda perfeita, o conteúdo das suas palavras interessa e provoca, por vezes, a indispensável comunhão entre o leitor e o autor".

Segundo O Século

"O livro Versos sem lei é a revelação de um poeta De entre os que, em Portugal, cultivam a chamada poesia moderna, poucos atingem a musicalidade e a eloquência com que este lírico nos transmite as suas emoções, as quais ora são simples e comovedores, como na "Sinfonia das Mães", ora vibrantes como no "Escravo" e no poema dedicado a Florbela Espanca."

Ferreira da Silva colaborou com os seus versos em muitos jornais e revistas, tanto na região como fora dela.
De todos os que escreveu, não podemos deixar passar despercebida a canção "A voz do tambor", que transcrevemos a seguir:

Mefisto era um pobre palhaço
Já velho e gasto e d'olhar já baço
Que o pão ganhava pelas ruas da cidade!
Mas tinha uma linda filha loura
Com rosto d'anjo e olhos de moura
Que era o enlevo da sua muita idade!

No alto do trapézio ela sorria
Ao povo que para vê-la acorria
As praças e ruas onde trabalhava.
O bom Mefisto, velho e alquebrado
Ao ver o povo tão entusiasmado

De ser seu pai, todo se orgulhava!
E no tambor tão velho como ele
De velho som e de uma velha pele
Ele rufava sempre com grande afã...
E o tambor velhinho, d' alegria
Rindo e gargalhando, lá respondia:
Rataplan!
Rataplan!
Rataplan!
Plan!
Plan!

Porém, a vida duma pobre artista
Desagradava a jovem trapezista
Que tinha mais altos sonhos de vaidade!
E numa certa noite ela abalou ,
O seu fiel povo assim deixou
Trocando-o p'lo melhor circo da cidade!


E como era jovem e formosa
De tão simples se tornou vaidosa
Conquistando a fama, às vezes muito vã!
E enquanto o pai a via trabalhar
no peito sentia o tambor rufar:
Rataplan!
Rataplan!
Rataplan!
Plan!
Plan!

Mas Deus condena a vaidade humana
Quando alguém de si tanto se ufana
Julgando superior sua personagem!
Há sempre um castigo, uma lição
P'ra nós vermos como tudo e vão
E nossa vida e qual sopro de aragem!

E numa noite de glória imensa
No meio da alegria! Luz intensa!
Ela caiu do alto onde subira!
E vindo pelo ar em turbilhão
Veio esmagar-se no duro chão
Deixando a vida frágil, de mentira

Agora, o velho pai, lá pede esmola
Nada o ampara, nada o consola
Esperando a morte, quase sua irmã
Enquanto a seu lado, o tambor chorando
Murmura baixinho, num soluço brando:
Rataplan!
Rataplan!
Rataplan!
Plan!
Plan!
 

Ferreira da Silva foi amigo pessoal de muitos artistas, dos quais destacamos Palmira Bastos, Vasco Santana e Tavares da
Silva.
Fez parte da delegação marinhense da Pró-Arte.



in: CIDADE DA MARINHA GRANDE SUBSÍDIOS PARA A SUA HISTÓRIA  - (João Rosa Azambuja)