José Manuel Roque de Jesus (Líbano)

José Manuel Roque de Jesus (Líbano)A 11 de Fevereiro de 193 1, nasce no lugar do Engenho na Marinha Grande, José Manuel Roque de Jesus (Líbano), filho de pais marinhenses. É o segundo filho de uma prole de quatro. Faz a instrução primária e a seguir o curso secundário de pintor de vidros na Escola Industrial da Marinha Grande.

Cedo começa a trabalhar, primeiro como aprendiz de serralheiro, depois empregado da Caixa de Previdência Vidreira e após o falecimento de seu pai ingressa na Fábrica Stephens, onde o então administrador dessa fábrica, o Eng.º Calazans Duarte, lhe cede o lugar de seu pai, lapidário.

Mercê da sua grande habilidade para o desenho em breve se adapta à sua nova e difícil profissão, ao mesmo tempo que lhe começa a despertar a curiosidade, com tudo o que se relacionava com métodos de decoração sobre o vidro. A pouco a pouco atingia um grau de conhecimentos sobre todos os processos de decorar o cristal, de tal modo que aos 25 anos já era excelente executante de todos eles, desde desenhador, criador de modelos, lapidário, gravador a ácido, à roda, pintor e foscador.

Para desenvolvimento dos seus conhecimento de desenho, frequentou em Lisboa durante algum tempo e em aulas nocturnas, a Sociedade Nacional de Belas Artes e também o «atelier» do escultor Lagoa Henriques, ao mesmo tempo que ia adquirindo os mais diversos livros de tudo quanto se relacionava com as belas-artes e com a indústria vidreira.

Dez anos depois de entrar para a fábrica Stephens é convidado por outra empresa, onde vai auferir melhor salário (Fábrica Angolana de Vidros e Cristais) na qual vai produzir grandes e inúmeros trabalhos de gravura a ácido e lapidação em modelos concebidos pela sua fértil imaginação. Pouco tempo esteve nesta fábrica, pois que esta passado ano e meio é encerrada pelos industriais vidreiros da Marinha Grande que a compram ao seu proprietário única e simplesmente para a fecharem.

Em 1957 casa e vai para o Porto, onde vai exercer a sua actividade em colaboração com uma casa comercial e onde se mantém cerca de seis anos. Por essa altura é assediado por vários empresários, não só portugueses como estrangeiros, mas é à Marinha Grande que volta novamente, para ingressar de novo na fábrica Stephens, com a função primordial de executar a gravura à roda, em virtude de ter falecido o grande gravador dessa fábrica, Justino de Magalhães.

E a sua actividade artística não pára e até à sua saída forçada em 1975, Libano cria e executa os mais belos trabalhos de gravação, quer à roda ou a ácido de que a indústria vidreira portuguesa se pode orgulhar.

Na compoteira Toledo, modelo da sua autoria, são executados retratos por gravura a ácido das maiores e mais ilustres figuras mundiais de todos os tempos, desde pintores, escultores, cientistas, escritores, estadistas, etc. que jamais algum artista gravou.

Na sua ânsia de fazer mais e melhor, desenvolve técnicas de execução, que lhe vão facilitar a perfeição dos seus trabalhos.

Em 1971 leva a efeito uma exposição de trabalhos seus em cristal e de pintura, que foi a primeira mostra em todos os tempos feita por um marinhense e que resultou num sucesso extraordinário, não só pela novidade que era para a Marinha Grande, dada a afluência de numerosos visitantes, mas também da aquisição por este de todos os seus trabalhos.

Traumatizado pela ingratidão de que foi alvo após o 25 de Abril de 1974 pelos seus colegas de trabalho, desgostoso, retira-se da fábrica Stephens e cedo se vê reformado duma indústria a quem ainda tinha muito que dar.

Porém não deixa nunca de executar trabalhos maravilhosos para os quais é solicitado por particulares conhecedores do elevado nível artístico a que se guindou.

az várias exposições individuais e entra em algumas colectivas, tendo também vários convites para expor no estrangeiro, com especial relevo em Paris, mas nunca a tentação de expor fora do país o seduziu.

Tem inúmeros trabalhos no estrangeiro e em Portugal, quer na posse de particulares, quer em colecções de admiradores dos seus trabalhos.

São dignas de nota as colecções limitadas dos cálices REIS DE PORTUGAL e VIA-SACRA e presentemente uma colecção de seis compoteiras com os retratos dos PRESIDENTES DA REPÚBLICA PORTUGUESA.

A par da sua actividade de decorador vidreiro, dedica-se à pintura de quadros a óleo, aguarela e desenho. As fotografias que fazem parte deste livro, representam uma ínfima parcela dos seus trabalhos, sendo apenas uma pequena parte daqueles que executou depois da sua saída da fábrica Stephens, quase todos no estrangeiro, em particulares e em coleccionadores nacionais.

De todas as suas obras feitas antes da sua saída da fábrica Stephens, não há qualquer reprodução fotográfica, a não ser de uma ou outra em esporádico aparecimento de qualquer revista que regista o facto.

Gravou à roda vários desenhos do seu professor e amigo Alberto Nery Capucho feitos prepositadamente para esse fim dos quais se destaca «Toilette», gravado numa jarra em cristal «double» rubi modelo Torpedo.

É este o retrato biográfico do autor deste pequeno livro, que se supõe ser inédito na indústria vidreira portuguesa, desejando o autor que ele sirva não só para propagandear o vidro e a Marinha Grande, mas também para estimular aqueles que podem vir a aparecer na difícil mas maravilhosa arte de decorar o cristal.
«O cristal está para Libano, como a tela está para o pintor».

 

Do livro: “50 anos de arte sobre cristal”
Por José Manuel Roque de Jesus - Libano