Sebastião Mota
Sebastião MotaPintar vidro é o que gosta de fazer

RESISTENTE a várias contigências ao longo da vida, tem vindo a ultrapassá-las com calma e um sorriso sempre pronto.

Nascido a 20 de Março, de 1944, no lugar do Engenho, Marinha Grande.
0 pai, era lapidário na fábrica Marquês de Pombal, (mais tarde Vicris e por fim Crisal).

Foi um dos fundadores do Sport Império Marinhense, em 1923, na sequência da criação do grupo de amigos, que praticavam futebol, que se denominavam, "Os Azelhas".

A mãe, que era doméstica, ao ficar viúva, viu-se obrigada a ir trabalhar para a fábrica do Marquês para sustentar o filho.

Porque não havia infantários, ou creches, com apenas 5 anos de idade, Sebastião. Mota, ia com a mãe, pelas 7h15m, a pé, para a fábrica onde passava o dia.

As sestas eram dormidas no caixote dos jornais, que serviam para embrulhar a obra quando apareciam os patrões escondia-se atrás das caixas para não ser visto, porque eles não queriam os miúdos per ali.

Aos 7 anos, entrou para a escola primária da Embra, que frequentou até á 4ª classe.

Com 11 nos, foi para o António Marques de Oliveira, (Antonio Macatrão), nas Cruzes, aprender pintar.

Ali, recebia 20$00 por semana, pouco tempo depois, mudou-se para a Angolana, onde passou a recebe, 12$00 por dia e já pintava à pistola e fazia frisos.

Antes de ir para a tropa, foi convidado para integrar a equipa de trabalho da Vicris, que se passou a chamar Crisal e teve mais de 70 lapidários.

Durante uma crise que se verificou na secção de pintura, passou para a lapidação, arte que aprendeu facilmente e executou cerca de 17 anos.

Na Guiné, passou cerca de dois anos, no serviço militar de 1966 a 1968.

Apesar de ter sido uma guerra passada na secretaria, admite ter sido bastante doloroso, ver amigos a, chegarem mortos, e feridos e muitas saudades da família.

No regresso, veio deparar-se com as lutas laborais.

Na Crisal, havia a obrigação de fazer duas horas de serão diárias, com o regime de trabalho a prémio que dava muito pouco para os trabalhadores.

Na sequência de uma greve geral decretada na Marinha Grande, a cidade, (na época vila), foi ocupada pela polícia de choque durante os dias 14, 15 e 16 de Março, de 1974.

Esta luta teve por consequência um aumento de 65$00 por dia, para todos os trabalhadores.

Sebastião Mota, foi ameaçado de despedimento, devido ao seu envolvimento em reuniões do sindicato, ameaça que não se concretizou porque se deu o 25 de Abril.

0 seu nome constava de uma lista para a direcção do sindicato que foi cortada pelo presidente da Câmara, à época Adriano Roldão, lista que foi aprovada por unanimidade, após o 25 de Abril.

No sindicato, trabalhou durante 4 anos, experiência que considera muito boa, apesar dos momentos de sacrifício.

Com a verticalização das empresas que integram a indústria vidreira, desde as areias de Rio Maior até à indústria óptica, viu-se em apuros por várias vezes, nas chamadas reuniões permanentes.

Detenções, que nunca eram explicadas e que chegaram a ser alvo de uma tentativa de linchamento em Oliveira de Azeméis, por parte de empresários.

Com amargura, recorda as condições indignas em que trabalhavam no Centro Vidreiro do Norte de Portugal, se por exemplo, houvesse uma falha de energia durante a semana, os trabalhadores eram obrigados a ir trabalhar, ao fim de semana.

Os oficiais vidreiros, quando atingiam uma determinada idade, iam sendo despromovidos até serem despedidos, quando deviam ser reformados.

Ali chegou a sofrer ameaças de tiro, mas desistir de defender os interesses dos trabalhadores, é que não passava pela ideia de ninguém.

Depois de tantas lutas, viu a crise chegar à Ivima, quando lá trabalhava com a esposa, ao que se viu obrigado a despedir-se passar pela Marividros onde não foi cumprido o acordado decidindo a partir daí, tentar a sua sorte por conta própria.

Agora, uns dias com muito trabalho e outros dias com muito pouco, vai aguardando a sua oportunidade de atingir a reforma.

Enquanto isso não suceder, continua a pintar que é o que realmente gosta de fazer.

A.C.

in: JORNAL DA MARINHA GRANDE
    (edição de 6 de Abril de 2000)