Zulmira da Conceição Gomes Roldão
Nasceu a 11 de Janeiro, de 1916, na Marinha Grande, Zulmira da Conceição Gomes Roldão, foi uma das primeiras raparigas a praticar ciclismo.

Filha de um oficial na Santos Barosa e de uma doméstica, admite ter sido censurada e criticada na época por ser uma "maria rapaz", mas nunca se preocupou com as más línguas.
Fez a 4ª classe na escola da Ordem, que se situava frente ao local onde está agora a colectividade.

Antes, andou de casa em casa para ter aulas com professores oficiais era casa particulares. Lembra-se que só havia caminhos de lama e silvas.

Quando terminou a 4ª classe foi para casa ajudar os pais que tinham muitas terras de amanho e precisavam de ajuda, produziam comida para todo o ano.

A Zulmira, era o braço direito do pai que dizia, "não tive um filho mas tenho uma filha que o substitui", tinha mais três irmãs, mas era ela que punha paus nos feijões, cavava e semeava.

A mãe, matou sempre a fome a quem pedia, "foi muito boa para toda a gente", a nossa Ilustre não esquece o dia em que "o sono", um pedinte que havia por aí foi lá a casa pedir, muito sujo e cheio de bichos.

A Zulmira foi chamada para lavar o homem e logo com água sabão e um rodilho, tratou de o lavar da cintura para cima; o resto lavou-se ele.

Toda a sua roupa foi queimada, deram-lhe roupa lavada e comida, tendo "o sono" ficado todo satisfeito.

A sua paixão pela bicicleta surgiu quando viu uma família que morava na Estação, os "Depois", parece-lhe que seriam franceses, em que a rapariga da casa tinha uma bicicleta, que fascinava a Zulmira ainda muito jovem.

Quando essa família se foi embora da Marinha Grande o seu pai comprou-lhes a bicicleta para as suas filhas, mas afinal só a Zulmira e a irmã mais nova gostavam de andar de bicicleta.

A bicicleta era mais alta do que as de agora, mas "andava-se bem", diz a nossa Ilustre com saudade. Com uma saia-calção que lhe tapava os joelhos, por causa das censuras, a Zulmira lá fazia os seu treinos na estrada para S. Pedro, quando havia apenas dois carros de mulas para transportar as pessoas para S. Pedro.

Participou em várias provas na Nazaré e na Figueira da Foz e venceu a primeira prova realizada pelo Atlético Marinhense, no seu campo, onde participaram mais duas raparigas.

Desenvolveu um treino intenso, com uma bicicleta já de mudanças e tudo, para participar na prova que estava marcada para o campo do Benfica, mas uma enorme chuvada inundou o recinto e impediu a sua realização, a partir daí nunca mais participou em provas.

Tinha 19 anos quando ela própria executou uns calções, em cetim, por cima do joelho que vestia com a camisola do Atlético.

Quando tinha 13 anos, andava a cavar vinha, o sr. Alípio Morais convidou-a para ir trabalhar para a sua fábrica, a nossa Ilustre aceitou e esteve lá durante 13 anos.

Na época as raparigas só saiam de casa se fosse com alguém da confiança do pai, e ela saia com o rapaz que veio a ser seu cunhado, e também com o jovem que veio a ser seu marido.

Recorda com um brilho nos olhos um carnaval em que o pai não a queria deixar ir ao baile que havia na sede do Lisboa e Marinha, no centro da cidade.

Para a deixar ir colocou-lhe como condição andar de bicicleta pela Marinha, com uns óculos escuros, uns chifres de carneiro e um papel com os seguintes dizeres: "Atenção, rapazes não se casem para não receberem esta decepção".

Zulmira em pose com apenas 19 anos de idade.A nossa Ilustre não se fez rogada o que queria mesmo era ir ao baile e aceitou a proposta do pai, que se tornou numa grande brincadeira por todos os sítios onde passou.

Num outro carnaval, tinha 20 anos, como participava sempre nas brincadeiras dos rapazes, foi convidada para ser árbitro, num jogo de futebol entre os Marinhenses e os do Império, e ela lá foi, toda vestida de homem com bigode e tudo e depois vestiu-se de árbitro durante o jogo.

Casou com 28 anos, teve duas filhas, mas para pena sua "nenhuma delas seguiu as suas pisadas" e são muito meninas.

Nunca se importou de ser "maria rapaz", o que tem pena é de não poder andar na sua bicicleta.

A.C.

 

> in: "Jornal da MARINHA GRANDE"
         edição de 11/11/1999