Sombra Fugidia

Amélia Cândida Lages da Silva e Cunha Coelho dos Santos - Poesia

Sombra Fugidia

" Era de sol o dia em que nasci.
Fui promessa de amor concretizada
Fui esperança de luz, logo apagada,
Que amor de Pai eu nunca conheci...
"

 

Sombra Fugidia

    Era de sol o dia em que nasci.
    Fui promessa de amor concretizada
    Fui esperança de luz, logo apagada,
    Que amor de Pai eu nunca conheci...

    E foi tempo feliz o que vivi
    Quando chegou p'ra mim a alvorada
    E nos meus dedos a lua prateada
    Encheu de luz as rosas que colhi.

    Cheirava-me o vermelho a malvasia
    E tinha o verde o gosto a maresia
    Em minha primavera toda em flor.

    Veio o cinzento e soube a cinza fria
    E transformou-se em Sombra Fugidia
    Minha vida amassada toda em dor!

    Marinha Grande, 17 de Maio de 1988


Inquietação


    Hoje, ontem, amanhã, eternamente
    A mesma luta, o mesmo sofrimento
    Nesta vida que é dor e que é tormento
    Nesta ânsia dolorosa e permanente...

    E sempre o coração tão descontente
    E sempre inquieta a alma num lamento...
    Ai! por que pus tão alto o pensamento?
    Por que sonhei assim tão loucamente?

    Sentindo tanta dor dentro de mim
    Num soluçar pungente e torturado
    Eu queixo-me baixinho do meu mal:

    A Deus, meu Deus, por que fizeste assim
    0 coração do Homem tão ousado
    Tão cheio de ambições e de Ideal?

    Coimbra, Junho de 1940


Sol Poente

    Quando o Sol se esconde lá no mar
    Por entre as ondas brancas, palpitantes
    Que nos lembram as velas soluçantes
    Das naus que se foram sem voltar,

    Parece que a nossa alma está a chorar
    E o murmúrio das vagas ondulantes
    É como as notas quentes e vibrantes
    Dum triste violino a soluçar...

    E pergunta-se então, devagarinho,
    A causa deste mal, desta ansiedade
    Que nos perfuma a alma de tristeza,

    Responde uma voz mui de mansinho:
    - Eu sou esse teu mal, sou a Saudade
    Sou a alma da gente portuguesa!


    Coimbra, Junho de 1940


Ciúme


    Quisera ser a luz que te alumia
    E ser o sol bendito que te aquece
    Pudera eu ser a calma que apetece
    Teu corpo já cansado, ao fim do dia!

    Quisera ser a fonte doce e fria
    Para matar-te a sede que enlouquece
    E os raios de luar que te entristece
    Fossem meus tristes olhos, sem magia...

    Ser o pão que tu comes a sorrir
    E esses livros que estudas com amor
    E as flores que tu colhes no jardim!

    Ser o ar que respiras sem sentir
    Ser sombra e luz, ser riso e ser calor.
    E seres então, Amor, só, só p'ra mim!

    Coimbra, 11 de Abril de 1942


Insónia


    É noite escura, é noite sem luar.
    Lá fora o vento passa a soluçar
    Em notas frias, loucas e plangentes ...
    - É noite escura, é noite sem luar ...

    0 céu é uma treva, é um abismo
    Livro de folhas negras em que cismo
    Presa minh'alma triste num anseio ...
    - 0 céu é uma treva, é um abismo ...

    E agora é o silêncio, a escuridão.
    Eu sinto apenas bater-me o coração
    Num ritmo de vida delirante...
    - E tudo o mais, silêncio, escuridão...

    Um pouco ao longe as horas caiem lentas
    Como que atordoadas, sonolentas,
    No relógio da velha catedral...
    - Um pouco ao longe, as horas caiem lentas...
    Que noite longa, que noite sem ter fim!

    Coimbra, Maio de 1942


Mulher


    Prendem-me o teu olhar tão magoado
    Onde passam a chorar visões perdidas
    Dessas horas de dor nunca esquecidas
    Que eu não sofri contigo, no passado...

    Prendem-me a tua voz de torturado
    Quando tu me contaste as duras feridas
    Todas elas tão grandes, tão sentidas
    Com que a vida te tinha já marcado!

    Prendem-me a tua alma, o teu sorrir
    0 teu ar de menino já cansado
    E o teu coração inda a dormir...

    Prendem-me a tua dor, o teu olhar
    E do bébé que eu era, descuidado,
    Nasceu uma mulher p'ra te adorar!


    Coimbra, 8 de Maio de 1942


Intimidade


    Apaga a luz, amor, e de mansinho
    Vem escutar comigo a sinfonia
    Que o vento faz lá fora, em correria,
    Talvez ébrio de dor, o pobrezinho...

    E ouve a chuva agora, pianinho,
    Caindo lá do céu, em harmonia
    E o vento que redobra e rodopia
    Sem se cansar ao longo do caminho!

    Já alta vai a noite, mas não finda
    0 vento lá por fora nos compassos
    Duma canção de amor e de agonia...

    Escuta, meu amor, escuta ainda
    E toma-me, sorrindo, nos teus braços
    Que eu sinto-me sem ti, tão pequenina...

    Coimbra, 21 de Janeiro de 1943


Pobre


    Tens pouco para dar... és pobrezinho
    Canta-me a tua voz suavemente
    Quando eu digo que quero loucamente
    À luz que é teu olhar, em meu caminho.

    És pobre tu, amor? ó meu tontinho
    Pois não vês, que em teus olhos, docemente,
    Anda a cor do mar que prende a gente
    Num sonho perturbado, de carinho?

    Oh! nunca mais digas, meu amor,
    Que te fez pobre Deus Nosso Senhor
    Que nada p'ra me dar tu tens ainda

    Porque há tanta riqueza em teu olhar
    Que às vezes eu até fico a cismar
    Onde buscara Deus coisa tão linda!

    Coimbra, 7 de Abril de 1943


Tempestade....


    Vento, mais vento ainda!...
    Todo o vento do Passado e do Presente
    E ainda mais vento e vento
    Capaz de arrepiar
    Lá muito alto o Sol omnipotente...

    Oh! Vento, muito vento
    Que arranque do seu tronco
    As folhas tenras e inda p'ra nascer!
    E que derrube a choupana
    E cause luto e dor
    E que encapele os mares
    E traga a morte negra
    E morram aos milhares
    E morra o mundo inteiro!

    Oh! vento, vento, se tu foras capaz,
    Darrancar-me do peito esta minh'alma
    Mais dura que um penedo
    Mais negra
    - muito mais!
    - que a morte negra

    Oh! Vento, se tu a transportasses
    Pelo infinito etéreo em que és Rei
    E a batesses! Batesses e arrojasses
    Para o nado do pó de que ela veio!
    E não ser eu a folha que tu levas!
    E não ser eu a onda que encapelas!

    Oh! Vento, vento, te quero e te bendigo
    Que eu vento sou também!
    Passo e desfaço, arranco e dou a morte!
    Repara em mim... não vês ó meu amigo, eu sou
    Apenas um remendo
    E mais outro remendo
    E dum e doutras e doutro que passou!
    Eu não sou eu, nem tenho a harmonia
    Dum todo único, dum ser que se completa...

    Eu... notas perdidas, sem ritmo nem som
    Escritas logo em fá e logo noutro tom!
    Eu... pedaços dum ser e doutro ser;
    Um vestido com mangas encarnadas
    0 corpo azul e não sei se negra a saia...

    Eu... sou tudo e não sou nada...
    A alma é lá do Céu
    0 corpo é terra... e bem mal amassada!
    Oh! Vento, vento e quem me dera Não ser nada!


    Coimbra, Biblioteca da Faculdade 14 de Junho de 1943

 

Maternidade


    0 meu menino nasceu
    E eu sofri
    Mas esqueci
    A dor
    E sorri
    Àquela vida em flor!
    Cresceu já o meu menino
    E sofreu
    E padeceu
    Sem que eu pudesse sequer
    Abrandar a sua dor!
    E foi então, Senhor,
    Que eu entendi:

    "Darás à luz com tortura
    Serás Mãe pela amargura"


    Marinha Grande, 1956


Passado-Futuro


    Ao meu neto Miguel


    Abrindo os teus bracinhos e sorrindo
    Deste os primeiros passos para os braços
    Dessa Mãe que te adora e em sofrimento
    Te há dado à luz da vida. ó meu menino de ouro já crescendo!
    Flor à luz aberta - meu tesouro!
    Sem tormento
    Sejam sempre teus passos Vida fora!
    Que seja rasto de luz
    Em cada hora
    Caminho que ao Céu conduz
    Aqui e agora! ó meu menino, tormento,
    Luz e esperança
    Dessa outra linda criança que sorrindo
    Um dia p'ró meus braços veio vindo
    E hoje... é já teu Pai, ó Miguelito!

    Marinha Grande, 15 de Fevereiro de 1988