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| Ilhas de Bruma / Bartolomeu Marinheiro |
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Afonso Lopes Vieira - Poesia Ilhas de Bruma / Bartolomeu Marinheiro Ilhas de Bruma SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMASChora no ritmo do meu sangue, o Mar. Na praia, de bruços, fico sonhando, fico-me escutando o que em mim sonha e lembra e chora alguém; e oiço nesta alma minha um longínquo rumor de ladainha, e soluços, de além... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar. São meus Avós rezando, que andaram navegando e que se foram, olhando todos os céus; são eles que em mim choram seu fundo e longo adeus, e rezam na ânsia crua dos naufrágios; choram de longe em mim, e eu oiço-os bem, choram ao longe em mim sinas, presságios, de além, de além... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar. Naufraguei cem vezes já... Uma, foi na nau S. Bento, e vi morrer, no trágico tormento, Dona Leonor de Sá: vi-a nua, na praia áspera e feia, com os olhos implorando – olhos de esposa e mãe - e vi-a, seus cabelos desatando, cavar a sua cova e enterrar-se na areia. – E sozinho me fui pela praia além... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar. Escuto em mim, – oiço a grita da rude gente aflita: – Senhor Deus, misericórdia! – Virgem Mãe, misericórdia! Doidos de fome e de terror varados, gritamos nossos pecados, e sai de cada boca rouca e louca a confissão! – Senhor Deus, misericórdia! – Misericórdia, Virgem Mãe! e o vento geme no bulcão sem astros; anoitecemos sem leme, amanhecemos sem mastros! E o mar e o céu, sem fim, além... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar. Ah! Deus por certo conhece minha voz que se ergue, branca e sozinha, – flor de angústia a subir aos céus varados p'la dor da ladainha! Transido, o clamor da prece do mesmo sangue nos veio Deus conhece os meus olhos alongados; onde o mar e o céu deixaram um pouco de vago anseio nesse mistério longo do seu halo... Rezam em mim os outros que rezaram, e choraram também; há um pranto português, e eu sei chorá-lo com lágrimas de além... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar. Ó meu amor, repara nos meus olhos, na sua mágoa clara! Ainda é de além o meu olhar de amor e o meu beijo também. Se sou triste, é de outrora a minha pena, de longe a minha dor e a minha ansiedade. Vês como te amo, vês? Meu sangue é português, minha pele é morena, minha graça a Saudade, meus olhos longos de escutar sem fim o além, em mim... Chora no ritmo do meu sangue, o Mar Ilhas de Bruma Bartolomeu MarinheiroEra uma vez um capitão português chamado Bartolomeu que venceu um gigante enorme e antigo. Bartolomeu, em menino pequenino, ia para o pé do mar... e ficava a olhar o mar... E Bartolomeu cismava... Ó que lindo, ó que lindo, o mar, e a sua voz profunda e bela! Uma nuvem no céu, era uma caravela que novos céus andava descobrindo... Ó que lindo, os navios, que vão suspensos entre a água e o céu, com velas brancas e mastros esguios, e com bandeiras de todas as cores! Bartolomeu cismava porque ouvia tudo o que o mar contava e lhe dizia. Bartolomeu Marinheiro
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