Terra / Templo

Álvaro da Silva André - Poesia

Terra / Templo

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Para aqueles que já não vivem
( já não vivem ? ),
a minha homenagem póstuma.
Para os que já foram ou ainda
são orantes no Grande Templo da Terra."
A morte do Poeta

     No dia em que o Poeta deixou de cantar
    O tempo fugiu
    A História diluiu-se
    Como um meteoro
    Que riscou o céu
    E desapareceu
    O brilho das coisas ofuscou-se
    Foi-se o dedo implacável das razões
    Ficou a obrigação de ser igual
    Teve de ver-se a camisa do rei nu
    O outro lado das coisas
    Não mais se viu
    Os carneiros de Panúrgio desfilaram
    Estúpidos triunfantes alinhados
    No dia em que o Poeta morreu

Amor

    Ama-se ao longe
    Apesar dos homens
    Apesar do tempo

    Corre-se
    Chora-se
    Sofre-se
    Sonha-se

    E através de longos caminhos
    Depois das trevas
    Ama-se
    Vai-se a noite
    Já amanhece
    Terminado o pesadelo
    Ama-se
    Vive-se Amor
    Apesar da guerra

    Não se vive senão de Amor
    Apesar da morte

 

 Angústia


    Enorme angústia esta
    De ser livre e não poder
    Cansado de tanta luta
    De cada vez que exerço
    O meu querer

    Um peso bruto
    Quase um sarcasmo
    Contra os limites
    Do meu ser

    Mesmo até este poema
    Vazando queixas
    Me sai avesso
    Tanto me custa a escrever

    Afinal a minha angústia
    Não é de eu ser livre
    De poder ou não poder
    É antes não ter certezas
    Dos limites de ser livre
    De fazer ou não fazer

Depressa, Mestre !

Bem aventurados os que não viram e acreditaram
Disse o Profeta
Foram séculos de vida de cada um
Tantos sorriram
Troçaram
E os Pobres do Reino Prometido
Uma Esperança no peito acalentando
Esperaram
A planura dos caminhos recusaram
Escorrendo sangue e lágrimas
Pelo deserto da incerteza caminharam
Buscando no longe da Morte
Uma entrada estreita iluminada
Que ao Oásis da Verdade os conduzisse
E aí o Profeta lhes dissesse
Entrai amigos
Na Mansão desde sempre preparada

 

Longe do perto

    Perto
    Ou longe de mim
    Não sei
    Só sei que não mais vi
    Ânsias que dei

    Dão-me sorrisos
    E frases
    E gestos
    Que fabriquei

    Sentimentos que exprimi
    Ilusões que acalentei
    Desses todos fugiram
    Não sei para onde
    Nem como
    Nem porquê
    Só sei que os não recebi

    Falei
    Sorri
    Fechou-me meu sorriso
    Foram-se minhas palavras
    Não fiz que alguém me escutasse
    Não fiz que alguém me sentisse

    Fiquei-me ao longe
    Na esperança
    Que me ouçam
    Que me sintam
    Que me entendam
    Que me não mintam

    Esperança de gestos
    De palavras
    De atitudes
    Isto cansa
    E cansa!...

    Vou fugir daqui
    Fugir à esperança
    Buscar outro concreto
    Num longe
    Muito longe
    Que se diz perto
 O bombo furado

    Ia ser um grande baile
    Com festa de caridade
    Estava a sede engalanada
    As gentes num alvoroço
    Era quente e trovoada

    Nem lembro já bem a data
    Era pequeno isso sei
    Era domingo estival
    Em festanço de aldeola
    Daqueles que os pobres fazem
    Bailaricando esquecidos
    Deixando no areal
    Tantos dias tantos anos
    De sofrimentos vividos

    Lá em casa havia músicos
    Meu pai era o maioral
    Os instrumentos ficaram
    Guardadinhos lá no quarto
    Furtados à filharada
    Nascida daquele casal

    Não sei bem como aquilo foi
    Descobrimos o tesouro
    Afanados rebuscámos
    A porta do arsenal

    Fizemos dim dlom na viola
    Tocámos na pandeireta
    Assoprámos na trompete
    Enfim pintámos a manta
    Antecipámos a festa
    Nossa alegria era tanta
    Que não vimos a fraqueza
    Da pele do bombo guardado
    Encostadinho à parede
    Daquele quarto transformado
    Pela garotada em orquestra

    Aconteceu o desastre
    Uma cadeira mudou-se
    Com o pai fora e a mãe
    Ocupada noutras coisas
    A pele do bombo furou-se

    Veio o homem do carreto
    Toca lá a carregar
    Um uivo seco nos ares
    Desgraçaram minha vida
    Como arranjar este bombo ?
    Mesmo ao centro tem um corte
    Diz lá mulher diz irmão
    Está tudo preparado
    Estão os bilhetes vendidos
    Vamos para a festa sem bombo ?
    E os outros que pensarão ?

    Dos promotores da festa
    Como se o mundo acabasse
    Só palavras de censura

    Lá se foi o nosso encanto
    Só o tempo levaria
    Aquele dia de amargura
 Olá, Amigos

    É quando tomba a noite
    O vento assobia
    A chuva cai
    E as árvores se balançam
    Quando os meus já dormem
    A casa está em silêncio
    As trevas reinam na aldeia
    Cães ladram ao vento
    Quando um carro rasga as trevas
    As gentes se apressam a voltar
    Separam-se os amigos
    Estão cheias as casas nocturnas
    Quando a Natureza se esconde
    O Sol alumia outras terras
    A Lua se acende medrosa
    E nuvens correm no Céu
    Quando gritam máquinas
    Operários da noite bocejam
    Padeiros cozem o pão
    E nas guritas sofrem sentinelas
    No leito gemem amantes
    Crianças choram nas barracas
    No passeio oferecem-se mulheres
    E vagabundos queimam o tempo
    Quando a noite anuncia o dia
    O relógio não cessa de rodar
    Animais caçam outros animais
    E tremem aves à brisa fria

    Vou percorrendo os espaços
    Vou recordando amigos
    E lamento os pobres
    Choro o meu sofrimento
    Rezo os meus deuses
    Grito a minha revolta
    Canto a minha alegria

    Levanto um olá aos Homens
    Correndo com eles no tempo
    À busca da Felicidade

 

 Silêncio

        Quase tropeço nele
        Acendo o foco
        Saltitou
        Apago o foco
        Espero em silêncio

        Pinga o orvalho
        Ressume a terra
        Vida extenuante
        É tudo sombras
        Mergulho na escuridão

        Repesco o foco
        Procuro o monstro
        Espero mudança

        Imensamente parado
        Parecido com as pedras
        Escuro como a terra
        Esperando
        Esperando

        Calhau ou fantasma
        Baloiça o papo
        Quieto
        Calado
        Só

        Um sapo
 Peregrinos

    Vão as multidões ao Santuário
    Deixando nos caminhos sangue
    Vertido dor
    E cada lenço é um sudário

    Arrancadas à alma são as horas
    Deste duro peregrinar

    A esperança a brotar no coração
    É um grito ao homem que ficou
    Que no fundo
    Bem lá dentro de cada um
    Um só anseio impele à caminhada
    Encontrar em qualquer lado
    Para além da finitude
    A Paz que entre os homens
    Sempre vai sendo adiada
Suicídios

        Nitratos
        Explosivos
        Explosões

        Montanha esburacada
        Bloco granítico escaqueirado
        Ninho/casa pulverizada
        Aves/homens piando
        Só resta a vida

        Maldade mais inveja
        Mais ódio
        O espírito iluminando

        Um fuzil um canhão
        Cogumelo de fogo
        A Terra arde
        E uma multidão
        Morrendo

        O suicida escancara o riso alvar
        Medo e mais vingança
        Ofusca-me a luz dum sol escurecido
        Morre uma flor
        Uma criança

        Da orgia da morte nada resta
        Nitrato
        Explosivo
        Explosão
        Parte da História

        Macabra a festa