Manta de Retalhos

Amélia Cândida Lages da Silva e Cunha Coelho dos Santos - Poesia

Manta de Retalhos

"Manta de Retalhos, pedaços de vida cosidos, ligados com a linha efémera da minha memória."

 

Desilusão
    Ascendo suavemente até ao mar
    Ondeia a copa verde dos pinheiros.
    Uma brisa ligeira, perfumada,
    Meus sentidos alerta, carinhosa,
    E sinto-me ligeira, pressurosa
    Correndo alegremente para o mar!

    E já não sou quem sou, mas o que era
    Livre, contente, esperançosa,
    Perscrutando no Céu todo o porvir!
    Uma vida feliz, sempre a sorrir,
    Com pétalas de rosa perfumada
    E sem espinhos para me ferir...

    E a vida veio e trouxe tanta dor!
    Fui roseira singela toda em flor
    E hoje o que sou? Tronco perdido
    Sem razão para estar e p' ra viver
    E de mim própria, enfim, prisioneira.
    É a saudade a minha companheira!


    Marinha Grande, 18 de Setembro de 1991

E a dor Voltou

    Para fugir à dor
    Tendo escondido e pensamento
    Num agasalho de nuvem
    Levada pelo vento

    E embala-me então
    A brisa que perpassa
    No curso das ondas ondeantes
    No colo das gargantas
    De montanhas elevadas
    No Céu das estrelas
    Tão brilhantes!

    Mas o vento parou
    A nuvem rasgou
    E a dor... voltou!

            Junho de 1992

Manta de Retalhos

    Quais meninos brincalhões
    Saindo da Escola, risonhos,
    Com fatinhos aos rasgões
    - Como eram belos rasgados
    Os marotos dos teus olhos
    Que os meus vinham procurar
    Só para um pouco brincar
    Ao esconde-esconde travesso
    Que eu adorava encontrar!

    Mergulhada na leitura
    Dos meus grossos calhamaços
    Se a vista, às vezes, erguia
    Lá estavam, com ternura,
    A brincar como berlindes
    Os teus olhos encantados,
    Como se fossem abraços
    Que me desses, sem melindres
    Com ternura fugidia...

    E se os teus olhos sorriam
    Brincavam também os meus.
    Um «flirt» sem palavras
    Um jogo só de ser jovem
    De tu seres jovem e belo
    E jovem ser eu também...

    Um dia... foste-te embora
    E nunca mais encontrei
    Uns olhos tão brincalhões
    Como se fossem meninos
    De bibinhos, aos rasgões...
    - E nem o teu nome sei!


    Marinha Grande, 28 de Setembro de 1989

Marinha Grande

    Marinha sim, porque roubada ao mar
    Assente sobre dunas, protegidas
    Das sombras do pinhal, há muito erguidas
    E o vento, cantando, parece rezar!

    Amada dos poetas, que a sonhar
    Em copias de amor, tão bem sentidas
    Sabem que as chaminés, em ti erguidas
    Saúdam um povo sempre a trabalhar.

    Grande, jovem cidade em crescimento
    Dos teus operários e artistas, orgulhosa,
    Rainha és dos moldes e cristal

    A tua mocidade em movimento
    Ergue o pendão da Arte - e carinhosa
    Grita bem alto: aqui é Portugal!


    Fevereiro de 1989

Meu frágil barquinho

    Às minhas filhas

    Meu frágil barquinho
    Perdido no mar
    Sem ter timoneiro
    Nem rumo, nem leme...
    Olha que os baixios
    Te podem perder...
    Pegões e rochedos
    É o que te espera
    Meu pobre barquinho
    Perdido nos medos
    Das rochas tão altas
    E tão escarpadas!
    Rasgadas as velas,
    Perdidos os ramos,
    Que será de ti
    Meu frágil barquinho
    Perdido no mar?

    Ondas furiosas
    Bem encapeladas
    Te levam mais alto
    Perdido, à deriva,
    Sem um porto achar
    Para te abrigar
    E num grande salto
    Te vão desfazer
    Meu frágil barquinho
    Que eu fico a chorar!

    Foge e, de apressado,
    Vem buscar abrigo:
    Em terra ancorado
    Deus será contigo!


    Julho de 1989

Para ti, minha filhinha !



    E há já quinze dias que partiste...
    E vi o teu sorriso sofredor!
    O que encontraste tu, minha querida?
    A paz, o bem, a ternura, o amor?

    Deixaste-nos no peito esta saudade
    E baixinho a cortina dos meus olhos
    Peço que, deixando a Eternidade,
    Tu voltes para nós, fugindo a escolhos...

    E procuro-te assim por todo o lado...
    E sobre a tua campa, tão gelada,
    O meu coração sangra, retalhado,
    Numa saudade profunda, amargurada!

    A minha Fé não pode vacilar!
    Tenho que crer com todo o meu vigor,
    Que dia a dia vou a caminhar
    Ao encontro de Deus, que é todo amor,
    E a ti também vou abraçar!


    Novembro de 1991

Quando «ela» vier

    Oh! não será talvez nessa casinha
    Que eu sonhei, debruçada sobre o mar
    Ouvindo-lh'o contínuo murmurar
    Numa voz furiosa, ora mansinha...

    Nem perto da gaivota, bem vizinha,
    Sobre um penedo, altiva, a recordar
    Seu lindo, repetido esvoaçar
    Longe de tudo o que nos espezinha!

    Nem no nosso jardim, a reflorir,
    Quando de olhos nos olhos a sorrir
    Tudo me mostras, contente, sem esforço...

    Mas há-de ser talvez, a ver dormir
    Os dois velhinhos, prontos a partir,
    De mão na mão, como é costume nosso!


    Fevereiro de 1989

Sinal dos Tempos


    Oh! tanto que eu queria
    Que ao partir
    Pudesse imaginar e ver surgir
    Uma nova manhã
    De luz, amor, de paz e alegria!

    Mas no meu peito, a gritar,
    Ouço só o carrilhão da dor
    Chorando um «De Profundis»
    Por esses que aos milhares
    Despedaçados, esqueléticos, sem forma
    A Têvê nos mostra em cada dia
    Num panorama que nos arrepia
    Nos tortura, esmaga e faz chorar!

    E a vista que se espraia pelo mundo
    A procura do Belo, da Quimera
    Encontra só a horrível primavera
    Das flores de sangue, juncando toda a terra!

    A alma, em ferida, doi e estremece
    Nem um momento só encontra a paz...
    «Oh! vem Senhor Jesus
    Porque anoitece»...
    No mundo que criaste, por amor
    Só Dor,
    Só luto,
    Só loucura
    Encontra o homem
    E em tanta desventura
    Nem mesmo sabe, já,
    Nem consegue perceber
    Se medo tem da morte
    Ou de viver!


    Marinha Grande, Fevereiro de 1989

Sonho Imperfeito


    À varanda da saudade
    É que eu te vi passar
    Fogo que não me aqueceu
    Por que me há-de lembrar?
    Porque tu foste p'ra mim
    O livro que eu nunca li
    O meu barquinho de sonho
    Nunca posto a navegar...
    Um sorriso que eu sorri,
    O olhar que em ti perdi
    Um sonho por acabar,
    O beijo que te não dei,
    A dor que de ti escondi
    Porque orgulhosa fiquei
    Quando te vi a chorar,
    Mesmo sabendo que o choro
    Nunca é de acreditar...
    Talvez porque fui a flor
    Que tu nunca desfolhaste,
    Os lábios que não beijaste...
    Um breve sonho perdido
    Lá nas brumas do passado!

    Oh! meu fogo apagado
    Não te quero mais lembrar...


    12 de Julho de 1989

Um beijo só


    Soube-me a roxo
    E teve o perfume de violeta
    A música, talvez já esquecida,
    Mas ainda hoje tão apetecida
    «You must remember this»...

    Um beijo, um beijo só,
    Foi o que tu me deste
    Com carinho, com ternura
    E amizade
    Na minha face, então, toda rosada,
    Talvez envergonhada,
    Talvez ansiosa e triste
    E algo amargurada...

    Nada mais me deste
    Ou eu te dei
    E nada mais quiseste...
    E só guardei
    Este sabor a roxo,
    A perfume de violeta,
    Que hoje aparece na paleta
    Da saudade que agora recordei.


    Marinha Grande, 27 de Setembro de 1988