Poesia
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| Rimas ao Vento |
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Arnaldo Fonseca - Poesia Rimas ao Vento""..................... Tantas vezes alheio à forma, ou à métrica, o ritmo dos seus versos está sempre presente. ....................." 18 de Janeiro de 1934 Recuar no tempo quarenta e um anos Escrever um poema com alma e coração Esquecer, recordando tempos de desenganos Que todos desejamos para sempre se vão Era noite na terra, os homens oprimidos Ó povo da minha terra fostes vós os escolhidos Para levantar bem alto o facho da esperança Foi longa a noite que esse dia antecedeu Mas na manhã gloriosa um novo Sol nasceu 18 de Janeiro meu punhado de heróis Honrais a vossa terra Eram dez, foram cem, muitos, mil Foi na Marinha Grande que começou a nascer O vinte cinco de Abril Foi nessa noite gloriosa, que a história há-de contar Que se não deve esquecer, foi nessa manhã de luta Que os operários da Marinha Começaram a mostrar sem luta Nunca se podem vencer os que nos querem matar Se eu soubesse escrever o que sinto cá dentro Eu faria um poema que lançaria ao vento Para levar por toda a terra, o nome dos heróis Mas para quê nomes? O que interessa foi a obra, o princípio, o arranque E aqueles que depois lhe seguirão os passos Não são menos heróis Não se levou avante o que era desejado Não se atingiu o fim por erros imprevistos Mas foi caminho aberto, mas foi caminho andado E aqueles que ficaram tombados no caminho Hão-de ser recordados com orgulho e carinho Cabe também lembrar o muito que se deve Pois tudo o que se diz, pois tudo o que se escreve É pouco muito pouco para dizer afinal Que às Mulheres da minha terra, que às Mulheres do meu País Se deve Portugal, Mães, Esposas, Filhas e Noivas Quantas afrontas quantas, foi duro o seu caminho Conhecem bem as grades das prisões conhecem bem os nomes dos ladrões Que os mataram, espezinharam e ficaram sorrindo Até nascer o Sol que há pouco nasceu, naquela madrugada Que há muitos anos por muitos foi sonhada E que em Abril para nós amanheceu Marinha do cristal, artistas de valor No campo do trabalho e no campo da luta Vamos mostrar ao mundo que o que estava em disputa Era a Paz, o trabalho e o Pão repartido por todos em igual Gritando Povo unido jamais será vencido Vencerá PORTUGAL 1975 Convite Vem Vieira Bom velho respeitado Vem ver o teu S. Pedro Vem cantá-lo Mas vem pela noite de mansinho E se puderes, vem de olhos fechados Mas não tenhas medo, Porque o que os homens fizeram Ao teu querido S. Pedro Um dia hão-de pagá-lo. Vem Vieira Olha a tua varanda Nãso tens o teu casino Que esteve ali ao lado. Não tens o Camarção, do silêncio De camarneiras todo semeado, Não tens a camioneta do Vilela, Junto à fonte Mas tens apartamentos de cimento armado E tens defronte o Mar Aquele que tanto amor Ao poeta inspirou, Esse os homens não podem secar Nem sequer desviar Quando ele as paredes da tua trancada casa Vem beijar. Vem Vieira Vem pegar-me ao colo como fizeste um dia Tempos que não voltam mais Porque os homens não querem nada do passado As janelas da tua varanda São mais belas com taipais. Pensei melhor... não venhas Vieira Não voltes mais. 1986-02-19 Deficiente sem D Vivo contente e feliz Se a minha vida é tão bela Só eu a tornei assim Lutei muito, tive sorte Galguei as escadas da vida Fugi muitas vezes à morte Quando ela vinha para mim. Tropecei, voltei para trás Encetei novo caminho Sempre com os olhos no além Eu muito agradeço à vida Por vencer esta corrida E ir terminá-la em bem A vida grande charada Feita de várias facetas Foi dura e complicada E para ficar bem marcada Cheguei a andar de muletas Foi um desastre brutal Coitadinho do rapaz Agora fica arrumado Ainda teve muita sorte Esteve às portas da morte Esteve a sorte pelo seu lado Ficou deficiente Ficou coxo e não vê É assim que fala o povo O bom povo Português Deficiente sim, mas deficiente sem D. 1983-05-21 Desabafo Vou fugir não posso mais Quando saio ao meu portão Quando abro a minha janela Vou fugir não posso mais Pois já não vejo por ela Todo o esforço do meu País Tanto sofremos um dia Quando os malvados mandões Cortaram nosso quintal Tanto sofremos... não sei Pois neste mundo malvado Nem todos sofrem igual. Foi preciso acompanhar E com eles batalhar P'ra saber dar o valor Tanta noite sem dormir Tanta lágrima chorada Eu sei que não assististe Que não assististe a nada E só por essa razão Tua acção é perdoada 1982-04-25 Entre o Mar e a Terra Vem Entre o mar e a terra Ali fiquei sonhando Entre o mar e a terra A vida foi mais bela Entre a terra e o mar Ali fiquei pensando Entre a terra e o mar Abriu-se uma janela. Entre o mar e a terra Deste-me o meu amor Entre o mar e a terra Algo que mais nos une Entre a terra e o mar Senti o teu calor Entre a terra e o mar Nasceu grande ciúme 1983-04-30 Fiquei tão feliz Fiquei tão feliz por te ver passar Fiquei tão feliz por te ver ao longe E por te ver chegar Nunca pensei que possível fosse Nunca imaginei, que esperar fosse lindo, Pois quando esperando a hora desejada, Nos surge no caminho, a fada encantada Todo esse caminho nos fica sorrindo. Fiquei tão feliz por te ver passar, Fiquei tão contente com o teu olhar. Não tenho palavras por muito que eu queria Escrever no papel o que sinto cá dentro, Eu tento fazê-lo à minha maneira, E a minha caneta, minha companheira, Tenta-me ajudar, mas só sabe escrever Fiquei tão feliz por te ver passar Fiquei tão feliz por hoje te ver Fiquei tão contente com o teu olhar. 1986-07-25 Mãe Mãe palavra tão pequena Que tanto diz ao nosso coração Pequena em letras, mas grande, muito grande Esvoaça no ar como linda canção Tudo me deste Mãe, até a vida Sem ti eu não seria o que hoje sou E podes ficar certa Quando chegar a hora da partida Tu não vais partir Mãe Tu vais ficar... todos os dias Sempre no meu caminho, à minha cabeceira Como fazias, quando em pequenino Eu te queria sempre à minha beira Mãe do meu País, Mães do mundo inteiro Tu não tens preço Com todo o meu amor verdadeiro Eu te agradeço 1985-04-23 Marinha Marinha do cristal Rodeada de pinhal Para mim os teus vidreiros são Artistas de valor Que trabalham com amor Só para honrar a nação Marinha és um jardim Não há igual para mim Por isso tenho orgulho em te cantar Os teus verdes canteiros Semeados de pinheiros Que vão até beijar o mar Cantada por poetas Com frases tão discretas Que hão-de ficar gravadas afinal Na história tão sagrada A da pátria amada Marinha tu serás sempre imortal. 1948 Era um sucesso cantado por Humberto Graça Penedo da Saudade Que linda canção o mar está cantando Bela melodia, correndo no ar Parei um bocado e pus-me escutando E sobre o penedo que eu estava pisando Penedo de sonhos de histórias passadas Ali fiquei, e pus-me pensando e pus-me a sonhar Pensei na Rainha Isabel que aqui veio chorar As mágoas que o Rei D. Diniz tanto a fez sofrer Pensei em outras Rainhas que sem terem coroas Tanto aqui choraram... tanto aqui passaram Só para eu as ver. Penedo da Saudade de sonhos vividos De sonhos passados Abre-me os teus braços, deixa-me ficar E tu ó farol que estás a meu lado Vai-me iluminando para eu me guiar. 1984-01-07
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