Poesia
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| Os Enjeitados |
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Francisco Vicente Pereira Henriques - Poesia Os Enjeitados "Sei que sou um incultoSei que fui um operário Fui arma de quem destroi O meu livro vai mostrando Aquilo que ainda me dói" Adeus Mocidade Como vai distante a minha mocidade como me lembro dos tormentos que passei recordo bem e tenho saudade querendo chegar onde nunca cheguei. Galguei fronteiras num pulo suave eu tinha direito, queria ser feliz se fiz bem ou mal, só Deus é que sabe de fracas raízes, nasci sem raiz. Tudo tem seu fim com tristeza digo na luta da vida cumprindo um dever toda esta fúria foi o meu castigo agora vencido não quero saber. Cão Abandonado Andam p´ra aí cães a mais a mostrar ingratidão representando os sinais deste mundo em podridão. Em cada porta há um cão estrada fora tantos mais pergunto porque razão abandonas o teu cão se gostas dos animais? Porque é que se faz vadio o teu cão que é teu amigo conhece o teu assobio e aos pulos brinca contigo. Repara bem no teu cão e depois vê quem tu és bates-lhe até sem razão e ele vem lamber-te os pés. Emigrante Quem és tu meu vagabundo qual a raça e donde vens farrapo humano e imundo nem cara de gente tens prós trovadores da maldade por abandonares o teu País sem mendigares caridade tens direito a ser feliz. Ano após ano na esperança do teu pão se mais seguro deixando atrás a lembrança do sol que era tão escuro esse teu olhar frustrado sempre pobre e não culpado. Há quem te chame burguês e há quem não diga nada mas como ele és português e tens a cara lavada. Só que as veias dos teus braços estão marcados como tiras de correia marcando em teu corpo os traços dessa tão grande odisseia. Escravo e desterrado honesto e trabalhador todo o pão é mais sagrado quando é ganho com amor. Fortes correntes te amarram sem forças p'rás rebentar és escravo dos que sonharam que o pão nasce a trabalhar. Fora de Vista Usam a boina de lado um pincel em cada mão o cabelo desalinhado próprio da imaginação. Um quadro feito em tela nasce a pura ficção com óleo ou aguarela até pintado a carvão desenha-se cinderela que causa admiração. Não nasci p'ra criticar como não nasci pr'a monge só não consigo avistar aquilo que fica longe. Monumento ao Vidreiro Em tempos que já lá vão ainda mal tinha nascido tinha havido a revolução dum povo mais que vencido. Guardaram como glória a fome que deu em luta lá se vai contando a história dum povo que ninguém escuta. Pr'a relembrar o momento do dia da revolução ergueram um monumento com uma espingarda na mão. Homenagem ao vidreiro! eu mal posso acreditar ficou triste o cristaleiro que se honrou em trabalhar. Vidreiros e condenados com orgulho na nossa farda, não queremos ser honrados nos canos duma espingarda. Essa estátua que aí está não nos vem dignificar mostra a quem não é de cá o medo de aqui entrar. Queremos e temos direito e não queremos fazer guerra que se honrem com respeito os filhos da nossa terra. Não sei quem sou Apenas não sei quem sou nem sequer porque nasci se o passado me marcou que depressa envelheci. Por justo fui condenado misturei o bem com o mal hoje já estou cansado não sei quem sou afinal. Recordo que em menino a sorte me abandonou foi triste o meu destino depois que meu pai tombou. Fui criado ao deus-dará filho da noite e da lua fiz-me uma criança má porque fui filho da rua. Fui crescendo na amargura encontrei muitas barreiras sem carinho e sem ternura rastejei como as toupeiras. Mais tarde meu lar formei pobre triste e inocente no meu reino não fui rei fui escárnio de muita gente. Não fui feliz nem dei felicidade não fui capaz e agora já não sou trabalhei duro pr'a fugir à caridade tendo respeito por quem sempre mendigou. Fiz coisas arrepiantes tive mulher e amantes fui forte e tive coragem tudo coisas extravagantes que marcaram minha imagem. Vendi força dos meus braços pr'a deixar limpo meu nome pr'a fugir aos embaraços de ver os filhos com fome. E no fim quem me julgar e souber o meu passado tive honra em trabalhar mais amor não pude dar mas não me sinto culpado Ao pagar os meus pecados pela justiça de Deus aos que me foram amados pagarei também os seus. E quando a morte chegar a alma se evaporou e se ela se encarnar não queria ser o que sou. O Homem e o verbo tirar Tira do corpo o trabalho que mal pode aguentar tira pão da sua boca porque o não pode comprar tiraram seu nome honrado porque não pode pagar. Todos miram todos miram as coisas do seu lugar mas porque é que os que tiram não pensam no verbo dar? É verdade que dar dói e até passou de moda enquanto a gente se mói ficando de cabeça à roda. O governo dá à gente imposto atrás de imposto eu não posso estar contente é bem triste o meu desgosto. Os patrões é só tirar pagam mal e porcamente alguns nem querem pagar como é triste a nossa vida dá vontade de chorar. Temos de voltar atrás aos tempos de Eva e Adão já comeram a maça o caroço está na mão. Já não vejo, estou vencido e ainda tão moço na carne já fui comido só me resta pele e osso. Arrepia faz gritar mudem lá a matemática p'ra algo mais inventar rasguem a vossa gramática rasguem o verbo tirar se não sabem outro verbo cedam o vosso lugar. Operário Tu que és um operário és um vazio, um nada que bebes água do rio que rompes a madrugada. Tu fazes da terra pão e a beijas todos os dias num amor numa ilusão dás-lhes todo o coração és herói e não sabias. Olhai as mãos calejadas de bater a terra amiga que destruíram enxadas sem acusarem fadiga. Repara homem honrado que ninguém fala de ti como falam os doutores dos atletas e cantores até de nobres senhores. Operário desgraçado que ceifas o verde prado como só tu sabes fazer tu que lhes dás de comer és um ser abandonado. E quando a morte se abeira e por ela fores vencido junto á tua cabeceira nem um ai nem um gemido mais um operário que parte sem sequer ser conhecido. Levas contigo as mágoas mãos cruzadas em teu peito entalado em quatro tábuas que a nada mais tens direito. A história aqui evocada de quem não teve alegrias foi luta de gente honrada herói de todos os dias. Pergunto-me, quem somos ? Sou trapo sou rato sou lixo artigo barato vaidade capricho sou ave sou bicho sou resto sou tudo não presto. Sou um papagaio que sobe ao vento sou monte roliço já sujo e nojento sou ira e por isso me faltou o tempo. Deixei tanto mal ficando pr'a trás não és bem igual mas és bom rapaz. Cavei minha terra guardei meu rebanho fiz a minha guerra amigos não tenho. Para ser quem sou pobre e infeliz ninguém me mandou fui só o que quis. Apontas-me o dedo mostrando o caminho eu não tenho medo de ficar sozinho. Não te prendo nem te maço nem sequer faço banzés quis dar-te o meu abraço e tu mandaste-me os pés vou vivendo no meu espaço mesmo ao rumor das marés. Nem sequer és importante e até nem mais do que eu a vida é só um instante é triste o que mais sofreu nunca ninguém é brilhante se nada lhe aconteceu. Não sou rico nem sou pobre não sou princípio nem fim não sou burguês não sou nobre sem ser nada sou assim. Não sou o que queres que seja nem sou o que queria ser sou nada não tenho inveja do que tu querias parecer. És tudo eu não sou nada não podemos ser iguais se um dia cair na estrada tu amanhã também cais podes subir muito alto enquanto eu fico por baixo podes ir longe num salto que eu não serei teu capacho. Todo o mal que semeares fica na terra a crescer andes lá por onde andares é cá que tens que sofrer. Raiva Desde que me conheci senti que era um enjeitado não importa o que sofri nem se alguém me pôs de lado. Porque será que eu nasci ruim e filho de um mau feitio vejo que ninguém gosta de mim fazem-me coisas, que de raiva me arrepio. Fizeram nascer em mim uma revolta dos maus tratos que levei p'la vida fora sou um cão raivoso que anda à solta até que chegue um dia a minha hora. Andei de rua em rua vagueando talvez como um pedinte a mendigar lutei, sofri e fui sonhando deixando ficar ódio em meu olhar. Não fui capaz fazer alguém gostar de mim fui desprezado, humilhado, um parasita peguei no fio da meada sem ter fim e a juventude nem sequer me acredita. Já não importa relembrar o meu passado nem no fundo do túnel encontrar a luz já nada brilha está tudo apagado porque cada um de nós carrega a sua cruz. Um abraço à minha Terra Querida Marinha Grande terra pacata e amena foi o iodo do mar que te fez assim serena. Ó minha Marinha Grande a quem o País condena oxalá este teu povo não te deixe ser pequena. Não há versos que te cantem que alcancem tua nobreza és linda e és muito grande és grande e bem Portuguesa. Amo-te tanto ó minha terra pão amargo em ti traguei fui luta e fui quimera e foi aqui que sonhei Repara Marinha Grande tu que me vieste mendigar foi amargo o meu sofrer no berço que me deitaste deixa-me agora morrer.
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