Quando um Mentiroso fala Verdade

Francisco Vicente Pereira Henriques - Poesia

Quando um Mentiroso fala Verdade

"Histórias verdadeiras"

O Penteadinho
    Ao grande Penteadinho
    Por usar risco de lado
    E ser tão afinadinho
    Assim ficou alcunhado

    Quando entrava no baile
    Com um ar muito emproado
    Até as velhas de xaile
    Ficavam de boca ao lado

    Era mau quando havia
    Uma dança americana
    O Penteadinho fugia
    Aquele grande sacana

    Deixava as moças na roda
    Porque dinheiro não havia
    Queria mostrar ser da moda
    E era de mais a mania

    Vaidoso e engatatão
    Não era mel nem abelha
    Tão esperto esse vacão
    Até casou com uma velha

    E era um gajo porreiro
    Em tempos que já lá vão
    Foi sempre pantomineiro
    E agora ainda é cagão

    Por fora tudo é brilhante
    Por dentro ninguém conhece
    Não se vê tudo num instante
    Passa o tempo e não esquece.

O Fogo no Pátio do Barroca

    Há cinquenta e tantos anos
    Foi grande um fogo medonho
    Causou tantos tantos danos
    Que às vezes com ele sonho

    Matou porcos e cavalos
    Até ao parque dos burros
    E ninguém pôde salvá-los
    Magoou os mais casmurros

    Por arder um património
    Nada foi feito em troca
    Porque fogo é o demónio
    Mata o Pátio do Barroca

    O lugar foi destroçado
    Nem parques na estrada
    Nem lugar para pôr gado
    Tanta besta abandalhada

    Marinha Grande sofrendo
    E não sei porque razão
    Aos poucos desfalecendo
    Com os coices que lhe dão

    Nada se vê quando escuro
    Que até nos faz confusão
    Façam a estátua dum burro
    Sem espingarda na mão
    Que o burro pode ser burro
    Mas por zurrar tem razão.

Lamento

    O tempo me maltratou
    E negro foi meu destino
    Nada fui e nada sou
    Apenas sou pequenino

    Não quero mudar o mundo
    Quem sou eu para o dizer
    Se cal em poço sem fundo
    Nada mais há para fazer

    Fui digno filho da rua
    À procura dum carinho
    Nem a luz vinda da lua
    Iluminou meu caminho

    Nem a candeia de azeite
    Nem conforto da fogueira
    Nem um leito em que me deite
    Nem alguém à minha beira

    Agora velho e cansado
    Mas carente de amizade
    Estou louco e desvairado
    De amigos tenho saudade

    Se foi luta a minha luta
    Revolta fica em meu peito
    Ser honesto não resulta
    Mas também não é defeito
    Se o sofrer é pagar multa
    Estou pago não satisfeito

Aquele Garoto

    Aquele garoto que um dia vi nascer
    Foi minha alegria, foi minha vaidade
    Gosto tanto dele e ao vê-lo crescer
    Meu coração sofre sonhando verdade

    Para ele eu sou um velho rabugento
    Meus conselhos não quer mais ouvir
    Que nunca saiba o que é o sofrimento
    Filho da verdade não ter que mentir

    Para mim era orgulho que ele fosse alguém
    Era capaz de dar tudo para ele ser feliz
    Mas ninguém adivinha o amanhã que lá vem
    E sei que não vai ser aquilo que eu quis

    Pouco lhe dei fiz tudo para o ajudar
    Fraco valor ao que a vida me ensinou
    Fim dum sonho não vale a pena sonhar
    Talvez orgulho de quem é pai e avô

    Que o teu futuro te traga honradez
    Já que cultura para ti não é razão
    Caminho que à distancia tu não vês
    Que a minha voz é a voz do coração

Respeita este teu Povo

    Ao falares do emigrante
    Falaste dum certo jeito
    Esse expressar arrogante
    Não é digno de respeito

    Quando Portugal se fez
    Quando Portugal nasceu
    Terra e mar o português
    Perdeu o medo e venceu

    Quem és tu para julgar
    Quem nesta terra sofreu
    Quem teve honra de lutar
    P'lo pão sagrado que deu

    Dormiu em camas sem folhos
    Sem franjas e sem carinhos
    Com as lágrimas nos olhos
    Descobrindo outros caminhos

    Quando vires um emigrante
    Pergunta qual o segredo
    Se é mosquito ou elefante
    Que nem do mundo tem medo

    Já cansados e vencidos
    Por nunca fugir à luta
    Não podemos dar ouvidos
    A certos filhos da p...

Sou como Sou

    Este humano que sofreu
    Não Importa se tem nome
    Mas há tantos como eu
    Que sabem o que é ter fome

    Não digam mal da gente
    Com frases feitas à toa
    Sem procurarem semente
    Que seja pobre mas boa

    Ser grande ou ser pequeno
    Tudo pensa que é perfeito
    Vimos no sangue o veneno
    Morre o amor sem respeito

    Podem-me até criticar
    E chamar alma mordaz
    Nunca me Irei desviar
    Dos coices que tu me dás

    A massa com que fui feito
    Deu-me razão nas revoltas
    Talvez tu dum outro jeito
    Já viste o diabo às soltas

    Quem és tu p'ra me julgar
    Sendo apenas Inocência
    Se vens para criticar
    Põe a mão na consciência

Vidreiros

    NÓS NEM SABEMOS


    Em tempos que já lá vão
    Eu quero aqui retractar
    Foi de amor a profissão
    Tudo o que irei contar

    Comecei com nove anos
    Infeliz pobre e faminto
    Senti fúria de tiranos
    De fome apertei o cinto

    Cal nas mãos de ciganos
    É a verdade não minto
    Agarrei a minha arte
    Com força e dedicação

    Ergui o meu estandarte
    Com honra para ter pão
    Fui modesto mas à parte
    Honrei a minha Nação

    Levei as minhas raízes
    Com esperança de vencer
    Mas ficaram cicatrizes
    Que não consigo esconder

    Os anos vão-se esfumando
    Seguindo rumo dos ventos
    Boqueabertos e pasmando
    O mundo nos seus inventos
    Muitos de nós já chorando
    Mas ninguém ouve lamentos

    Estes versos que escrevi
    Marcam um sofrer imenso
    Deves guardar para ti
    Esta verdade em que penso

    As lindas vestes vidreiras
    Já não há tristes morreram
    Moldes carvão das videiras
    Que as crianças conheceram
    E lembram mãos traiçoeiras
    Que em seus rostos bateram

    E o cristal em estilhaços
    Em nossas mãos desmoronou
    Desfez-se em mil pedaços
    O porquê ninguém contou

A Marinha também tem


    Marinha cidade amiga
    Alguém te anda a embrulhar
    Diz aos que encheste a barriga
    Que a mama vai-se acabar

    Aos que te deixaram chagas
    Deixa morder e não mordas
    Estão matando vacas magras
    E a seguir matam as gordas

    Quando esta Marinha acorda
    Já não há mais preguiçosos
    Metem-se o bons numa borda
    E aceitam-se os mentirosos

    É o mundo em que vivemos
    De tão grandes confusões
    O que fazer não sabemos
    Onde há tantos aldrabões

    Vamos andar todos tesos
    E agora os espertalhões
    Mandaram policias presos
    Ficando à solta os ladrões

Meditação


    No meu canto meditando
    No resto que está p'ra vir
    Sinto o meu corpo oscilando
    Até que venha a cair
    Tudo tem razão de ser
    Misturo sorte e azar
    Vai deixar de amanhecer
    A escuridão vai chegar
    A vida é gota de água
    Que em mar revolto caiu
    É como o sabor da mágoa
    Que nos dói e ninguém viu
    É chegado um novo dia
    Que seja assim assim seja
    Talvez ninguém tenha inveja
    Deste mortal que sofria
    Chegando ao fim ele sabe
    O que outrora não sabia