Poesia
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Ilídio Pereira de Carvalho - Poesia Versos "A publicação póstuma de estes versos, restrita a 200 exemplares, demonstra uma saudosa homenagem ao seu Autor e neste fim piedosamente se inspira. ILÍDIO DE CARVALHO. (1868 - 1925) possuía, a par de clara e notável inteligência, distintos dotes de artista, revelados na música, de que era cultor insigne, e na poesia, de que aqui se juntam estes versos. Possa esta publicação ajudar a sentir mais próxima de todos os que o conheceram e estimaram aquele que ao valor artístico juntava os primores do carácter. " Ao LuarCanção cantada por José de Carvalho no Teatro da Nacional Fábrica de Vidros, no sarau promovido pela « Serenata Marinhense » Quando a voz da serenata Sôlta divinas canções, Por entre o luar da noite Que embriaga os corações... A alma sente-se presa, Como nos vergéis a flôr; A noite, o céu, as estrêlas, Tudo nos fala de amor! Beijos ardentes D'amor sem par, Astros cadentes Cruzando o ar... Canções singelas, Vivo luar, Noites tão belas Sempre hei-de amar!... Vai a guitarra gemendo Trilos suaves, cadentes; Vai o bardo repetindo As queixas d'alma, dolentes! «Ó fada dos meus encantos» - Diz à gentil namorada «Vem soltar essas madeixas À brisa da madrugada»! Beijos ardentes, etc. É a canção dos amores A canção mais delirante; A noite tem seus enleios Como um segrêdo constante! Trocam-se juras eternas, Juras d'amor ideal... A brisa guarda segrêdo E vai-se rindo afinal!... Beijos ardentes, etc. Depois a nuvem ligeira, Ocultando aos dois a lua, Ouve a meiga Julieta Dizer tremendo - sou tua -! Aqui, as cordas da lira Soluçando a medo um ai, Dizem à noite - silêncio - Dizem à nuvem - velai -! Beijos ardentes, etc. Entretanto o rouxinol Canta alegre na floresta; Enquanto bebe o orvalho A violeta modesta! A lira então emudece - Fica suspensa a balada: Os anjos digam o resto Que eu não lhes conto mais nada... Beijos ardentes, etc. 17-6-1897 Aos Heróis Desconhecidos No luzido cortejo, infindo e mangestoso, Passam, trajando luto, as mãis de Portugal; Seus filhos vão ali - um trofeu glorioso Que vai dormir na paz da grande catedral! Vão descansar enfim no derradeiro leito - Vítimas do dever que a Pátria consagrou - Não choram essas mãis; unem a urna ao peito Como o berço de amor em tempo que passou! Tôdas pressentem, sim, que a tumba veladora O próprio filho encerra e lho não deixa ver! Mas não choram as mãis; a Pátria essa é que chora Os filhos que por ela, heróicos, vão morrer! Uma das mãis, porém, talvez a mais vèlhinha, Julgando ver lá dentro o filho inda a sorrir, Deixou cair na tumba em que ela o adivinha Uma lágrima só - a glória do Porvir! Era feita de amor a lágrima caída Que se transforma em luz, em céus, em arrebóis!... Em louros triunfais duma vitória querida, Que a Pátria põe na fronte aos seus grandes heróis! E a Pátria viu chorar sôbre o trofeu glorioso Que dorme enfim na paz da grande catedral!... Depois morre o cortejo augusto e mangestoso E... choram de saudade as mãis de Portugal!... 10-4-1921 Ciprestes e Rosas Para a récita em benefício das famílias dos náufragos da Vieira 29 de Dezembro de 1907 Sombra e luz - riso e pranto - céu e inferno ! A vida é feita assim: contraste eterno Dêste mundo falaz ! Junto da forca alveja o branco lírio; Ao lado do prazer vê-se o martírio; A guerra ao pé da paz ! Aqui um ninho, em que desponta a vida, Sorri da morte à sepulcral jazida: São dois berços também ! O rico vive onde vegeta o pobre; Rasteja o vil onde floresce o nobre; O mal ao pé do bem ! A aurora beija as solidões tão mudas !... A consciência inda pergunta a Judas Pelo doce Jesus... O velho beija uma gentil criança; A liberdade olha a prisão que cansa; A treva ao pé da luz ! Do amor ao tédio vai um passo apenas; A ventura e a dor com suas penas Caminham sempre a par... Crente e ateu só os separa a ideia: A vaga brame sôbre a fulva areia; A terra ao pé do mar !... Rugindo além, como um leão da Hircânia, Zomba êsse mar da temeosa insânia Do velho pescador: Volta o batel que em convulsões esmaga; Ficam viúvas na sinistra plaga... Orfãos ao pé da dor ! .................................................... Além a morte; aqui a festa rindo! São os extremos que se vão unindo, Como o homem a Deus: Os dons da caridade não têm conto... Colocam sempre em imortal confronto A terra ao pé dos céus ! 1921 Contraste A... Como o som de harpa dolente Que ao longe ecoa e fenece, Como o sol no ocidente Que no mar desaparece, Como um canto de àvezinha Que expira na solidão, Como fôlha que à tardinha Foi levada num tufão, Ou como um ai que morreu... Assim sou eu. Como a linda madrugada A raiar no oriente, Ou como estranha balada Que nos encanta, fremente, Como rosa que aparece Rainha do seu Jardim, Singela como um jasmim, Traz de amores o peito nu... Assim és tu. Eu sou treva - tu és luz; Eu sombra - tu o matiz; És aurora - eu ocidente; Vivo triste e tu contente .................................. Ai! Deus te faça feliz!... 22-9-901 Desfastios A Gervásio da Silva Neto Por mais que matute, Por mais que cogite, Não vem apetite Nem inspiração; Ao sol a pedi Pedi-a às estrêlas Às tímidas belas, Mas foi tudo em vão. Cantei desfastios, Dei tratos à bola, Cantei um carola Em místicos ais; Cantei a beata Em prece fingida, Dei voltas à vida, Cantei madrigais. Cantei o amor (É coisa mui velha) Mas já tive a telha Dum dia casar; Depois a pequena Virou-me o focinho... Jurei pelo vinho Não mais lá voltar. Fui ontem ao baile, Tirei os compadres; Que belas comadres Sairam ali! Dancei uma polca E o chegadinho, Com todo o carinho Cantei a Lili. À minha comadre Fiz uma poesia, E dei à folia Verso bem medido; Gastei mil bisnagas (Tal era o calor), E mesmo a primôr Toquei o corrido. Depois lá na cama Sonhei mil venturas, Pensando em loucuras Julgava-me um rei; Mas quando Morfeu Me largou os braços Foram-se os abraços E triste acordei. Com cara de tôlo E meio a dormir, Julgava inda ouvir Da festa os clamores; Depois serenando Fiquei derramado Por ter despertado Dum sonho d'amores. Pedi ao pai Jove Com tôda a ternura Mudasse esta agrura Em gôso real... Respondeu dizendo Em tom façanhudo:- Espera o entrudo, O bom Carnaval! 16-2-1890 Dueto das Praias Da revista « Coisas da minha Terra » Clotilde - (S. Pedro) Beatriz - (Vieira) Clotilde - Sou a praia em que a onda desmaia Retratando da Lua o fulgor... Beatriz - E eu a praia em que a onda se espraia Em carícias e beijos de amor. Clotilde - Meus penedos ressumbram saudade... Beatriz - Quanta há no poético Liz Ambas - Irmãs somos no berço, na idade; Somos jóias do mesmo país. Clotilde - Eu sou filha das ondas revoltas Que há mil anos me vêem beijar. Beatriz - E eu num leito d'areias tão soltas Sou espôsa dileta do mar. Clotilde - Da floresta o repouso me invade... Beatriz - Meu também é flóreo matiz Ambas - Irmãs somos no berço, na idade; Somos jóias do mesmo país. Clotilde - De granito os meus blocos são vida Que a natura opulenta me deu. Beatriz - Meus batéis são os blocos na lida. Em que eu venço, domino o que é teu. Clotilde - Somos pois cada uma metade Beatriz - Dêste canto de terra, feliz. Ambas - Irmãs somos no berço, na idade; Somos jóias do mesmo país. Flores São quatro flores somente... - Pequena oferta, não é ?... Pequena, sim, na essência Mas grandiosa na fé! Apenas lembrança vaga Dum amor que não tem fim... Com elas vai um anhelo: Nunca te esqueças de mim! Quando a morte, ave sinistra Me roubar na flor dos anos, Não chores, filha, medita No que são os desenganos! Beija as flores e repara No que te dizem então: - «Já não existe na terra «Quem tu amavas - já não! «Jaz numa campa sombria «Gelada, fria d'horror! «Seus lábios tristes, sem vida, «Não mais te dirão - amor -». Depois se as flores murcharem Ao sôpro do teu desdém Deixa-as morrer, coitaditas, Sem o amor de ninguém! Vai sepultá-las comigo No lugar ermo da morte... Esta vida é triste sonho... Vão igualar-me na sorte!... Vês então porque eu dizia: Pequena oferta não é?... Bem pequena na essência Mas grandiosa na fé!... 15-3-1893 Heróis À Briosa « Corporação dos Bombeiros Voluntários das Caldas da Raínha » por ocasião da visita da « Serenata Marinhense » em 10 de Junho de 1900 Nem pertencem só à história A vida e feitos de herói; Lembra-os a nossa memória, Como trofeus de victória... Que o tempo nunca destrói !... Se é herói preclaro, ingente, O que mata irmãos na guerra... Aquele que salva a gente, Que nos rouba à morte ardente, Que nome tem sôbre a terra ?... É como estrêla caída, Que as almas enche de fé; Não mata a hoste vencida, Mas dá-nos luz, dá-nos vida... É mais herói, pois não é ?!... Tem na auréola diamantes Que mil guerreiros não têm: São feitos de cambiantes, De doces beijos amantes, E de sorrisos de mãi !... Cerca-lhe a fronte elevada De bênçãos ou arrebol... Assim como a madrugada Doura a altiva cumiada Com feixes de luz do sol !... Vão-lhe o peito constelando, Ganhas na luta, as medalhas; Nunca irmãos assassinando, - Diz um vate venerando - Mas a rasgar as mortalhas !... .............................. Briosos moços! - àvante ! Heróis d'alma e coração ! Um povo humilde e distante Vos dirige neste instante A mais leal saudação !... Luz Poesia escrita expressamente para ser recitada por João Afonso de Barros, no sarau da «Serenata Marinhense», 8 de Janeiro de 1899, em benefício de duas famílias pobres Ao longo dessa estrada a que se chama a Vida, Onde se dão a mão herói e parricida, E onde medra o vicio ao lado da virtude... Dois homens de trabalho outrora caminhavam Em prol dum ideal - os filhos que adoravam, Como o cantor adora os sons do alaúde!... E foram caminhando; às vezes entre espinhos, Temendo que o condor lhes assaltasse os ninhos, O seu constante sonho e glória no porvir! Uma noite, a desdita, ao longo dessa estrada Em frente lhes surgiu, como uma alma penada À beira dum sepulcro, infamemente a rir!... Visão sinistra e má, a hórrida doença, A fonte da miséria, a mãi dessa descrença Que o pobre atira em pranto à face do Eterno... Como fantasma atroz, com seus gigânteos braços Aos dois logo desvia os alentados passos, Mudando-lhes a alma em pavoroso inferno!... Vencidos nesta luta os tristes viandantes, Desfeito êsse ideal que tanto amavam d'antes, Qual astro guiador ou refulgente sol... Fechou-lhes a ventura as suas portas d'ouro!... Fugiu-lhes na desgraça a chave dum tesouro, Como ao nauta perdido a luz do seu farol... Restava-lhes morrer... quando outra luz sidéria, Que às vezes ilumina os antros da miséria Desceu um dia ao lar da pálida orfandade! Luz que jàmais se apaga à voz dos furacões! Onde brilha ela agora? - em vossos corações! Sabeis como se chama? - a Santa Caridade. Num Leque Correm as ondas frementes, Beijando a praia contentes E lá se vão para o mar; Depois outra e outra vaga Alizam também a plaga E lá se vão sepultar... Comparo o mar ao destino: - Ora é lago cristalino, Ora ruge em vagalhões!- Só a virtude, senhora, É a barca vencedora Que lhe resiste aos baldões!... 20-9-1894 Num Retrato do Autor Eu tenho mêdo, criança - E nunca fui timorato - De que, vendo o meu retrato De mim te fuja a lembrança. Faz-me ciúmes a sorte Da feliz fotografia; Não a queiras; olha o porte Da figura tão esguia... Êsses lábios não têm vida, A luneta é colossal; Uma bôca desmedida, Um nariz fenomenal. Também nunca ri nem chora, Não sente mágoas nem dor... - Olha, beija-a de hora a hora Que por mim te diz amor!... 3-5-1891 O Pobre A A.C. Eu sou o pobre a quem a negra sorte Repulsa, e nega a caridosa mão; Perdido, cego, já sem luz, sem norte, Mendigo agora da desgraça o pão! É pão d'esmola tão amargo e duro Como êsse lenho onde morreu Jesus; Esmola ao pobre no seu antro escuro; Esmola ao pobre que não vê a luz! Meu Deus, que gêlo que me enerva a alma! Que noite eterna! sem luar, sem fim! Nem inda a morte que esta dor acalma Se lembra ao menos que padeço assim! Deixai, ó almas generosas, nobres, Pequena esmola que achareis nos céus; Quem neste mundo socorreu os pobres Ficai sabendo que emprestou a Deus! 2-9-1894 Recuerdo Ó pálida Visão etérea, vaporosa, Que em noites d'amargor ao pobre inda sorris! Astro que refulgiste em céu tão côr de rosa, Meiga filha do mar - Deus te faça feliz!... Não queiras versos meus: são ais de sofrimento, Tíbios aromas são de emurchecida flor; Mágoa que se traduz num único lamento: Ninguém pode esquecer o seu primeiro amor. 11-8-1901 Sonetilho Ao meu José Augusto A minha velhice inflora O meu netinho a bulir; Se chora, minha alma chora, Sorri quando o vê sorrir No leito, repouse embora, Parece um anjo a dormir; Quando acorda é como a aurora No seu levante a subir. Se fala, tudo é poesia; Se brinca, nasce a alegria Que tudo em redor bem diz; De vê-lo o avô não se cansa; Nem jamais lhe morre a esperança De que êle seja feliz! 4-11-1924 Um Beijo Só!... Quero-te mais do que à vida; Quero-te mais do que aos meus E, se não fôsse pecado, Querer-te-ia mais que a Deus. (Canc.) Disseste-me um dia rindo, Olhando assim distraída: - Amo-te muito, acredita, Quero-te mais do que à vida! Eu respondi, entretanto, Fitando os olhos nos teus: - Ó vida da minha vida, Quero-te mais do que aos meus! E hoje pedi-te um beijo, Um beijo de amor jurado, Disseste que tinhas mêdo, E se não fôsse pecado... Pecámos num beijo só... Mas depois jurei ao céus Que se pecasse mais vezes Querer-te-ia mais que a Deus! 1896
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