A Grande Dúvida

José Fernando - Poesia

A Grande Dúvida

" para T
à memória de Al Berto
à mão de Cesariny"

1
    acordo sem poder
    quebrar a teia que me envolve
    talvez tu
    que a chuva me tirou

    um café por favor...

    é sempre assim
    o casulo rebenta
    antes de ver
    o vómito dos grãos de areia

    esqueceu-se do açúcar...

    um dedo acusa-te
    os outros
    acariciam-te
    pensa bem nisso
    quando a minha mão
    se aproximar da tua vida

    um copo de água...

    Deus deu-te
    um ponto de interrogação
    é bom que tenhas respostas
    quando ele sorrir
    é bom que
    tires os cotovelos de cima da mesa
    não cuspas no chão
    não mijes fora do penico

    já agora, a conta...

2

    sonhas demasiado
    para quem não sabe dormir

    debaixo das lentes
    dois vazios
    virados para o interior

    quiseras ser freira e não soubeste rezar
    azar, amigo
    a vida é feita de azares

    vê se aprendes a olhar
    para que de hoje em diante
    não partas mais a perna
    para que possas voar rasteiro

    faz o inventário da tua vida
    numera os minutos que deixaste passar
    beija o chão

    vais aprender a voar dá aos braços

3

    VERMELHO
    pára de dizer esses disparates
    vais aqui vais ali estás aqui estás ali acolá
    além
    não estás
    e pára já com isso

    AMARELO
    talvez
    seja um pouco assim
    ou muito assim
    talvez

    VERDE
    vais a fundo nessa insistência
    que só tu tens
    quando encostas o revólver ao joelho
    quando comes relva
    às vezes até dizes
    coitado
    vai,
    vai a fundo...

4

    agora que alugaste uma nuvem
    tens mais razões para sorrir,
    dizes tu
    eu não vejo a tua cara entre as pernas
    enquanto a outra apodrecia

    metamorfoseaste-te no sono
    numa morte antes de tempo

    abre a tampa
    cubos de gelo
    muitos cubos de gelo
    para refrescares as ideias
    de tampa aberta
    podes arejar o local
    onde já existiu um cérebro

    e esse donut em cima da cabeça?
    o que faz?
    e quem é esse gajo
    de barba roto quase nu?

    - este gajo diz que não te conhece
    e não sabe quem és tu...

5

    Olhei de repente
    como se o nada esperasse
    e o vazio entrou em mim
    entalado entre os meus ossos
    desconfortabilizou-me a alma
    não tem espaço firme
    a que se segure
    desertifiquei-me
    da beira de mim me olho e a mim pergunto
    COMO SER UMA DIVINDADE?
    Ser ditador
    - meu povo, hoje eu sou vosso e
    vós sois meus
    - eu vosso chefe, vós meus súbditos !
    Os analistas perseguem o caso
    o réu está calado
    a justiça não tem palavras
    é um gato tornado fera
    e amansado novamente
    na cabeça do juiz, para além
    de estrume para fertilizar as ideias
    e um amor - perfeito
    vou-me embora
    não sou de cá
    não quero ser
    adeus
    a Deus

6

        dá-me a tua mão
        para que eu possa ver
        mais manhãs
        já não te oiço sem ver o mar
        e nunca aprendi
        a amar a minha solidão
        nunca sem ti

        quando estávamos sós,
        gostava mais da solidão
        da nossa
        perdi as mãos nos teus cabelos
        rasguei os meus olhos de encontro aos teus
        e agora ando de joelhos
        em busca do teu perfume

        " Vim à procura de Deus, mas vou-me
        embora "

        abri a porta
        o último minuto
        antes de cair :
        Mas...

7

    fiz casa da solidão
    que me deste de beber
    a mim e ao meu coração
    vazio
    em sucessivas náuseas
    vomitei por fim a Verdade
    não tenho tempo
    não tenho tempo
    mas deixo o tempo no seu lugar

    tenho já 32 dentes
    32 anos 32 vidas
    não me queiras parar
    agora que aprendi o teu nome
    a soletrar liberdade
    a sentir saudade

    mergulhei na nuvem vermelha
    em teus olhos
    desvio os bichos que se opõem no caminho
    com um comando
    Joy Sensation Mega Arcade
    refresco no vento
    que me levará ao teu fogo
    em toros começado

8

    contemplo o abutre
    esse
    pénis de asas

    declaro que
    é de minha livre vontade
    aparecer
    desaparecer

    nesse sol tão teu
    que pouco me ilumina
    e
    já nem vejo
    as salsichas voadoras
    nem
    os cardos aquáticos

    só vejo as algas marítimas
    desde que abriste os olhos

    desde ontem
    decidiste pintar
    o mundo roxo
    e
    sabes que essa é a cor do deserto

9

    Era talvez ontem, não me lembro
    quando de vermelho vestiste as minhas
    cinzas
    respirávamos aço inox
    como crianças dentro de maçãs
    e éramos a semente do passado
    até que a chuva nos falou das feridas
    e que a água era já sangue

    trocámos a religião por rebuçados de
    mentol
    para morrermos de hálito fresco

10

    as passadas da minha existência
    repetem-se
    como escadas em caracol
    ansiando por chegar ao fundo
    neste quadro escheriano

    não há prazer mais profundo
    não há prazer mais para o fundo

    nem caminho de regresso
    para de onde venho

    tens um céu interior muito bonito
    mas ainda não sei mergulhar nele
    e a tua indecisão em Ser...
    não és carne nem peixe
    hás-de ser sempre
    a minha sereia

11

sou um pequeno quadrado
prateado
na fila d'atendimentos
tirei o ticket
e espero
sou um surreal
irreal
anti - social
ilógico
analógico
insensível
invisível
STOP

olho-me
sou o mais pequeno quadrado do mundo
não há espaço em mim
para mais um quark, sequer
guardo as bananas nos bolsos
e sou um homem sincero
não me vêem
grito quando quero falar
e silencio-me com a voz não me ouvem
receitaram-me uma morte
pelo meu dia de anos
chamo-me Fred Mercúrio
e sou apenas um pequeno quadrado
12

sento-me nos escombros de
mais uma manhã azul
recheada de questões
tão vazia de respostas
ainda hoje não sei se existes
mesmo assim, chamo-te
como se tivesse a certeza
nesta minha frieza de olhares
e em incalculáveis solidões

morosamente recordo
de como sabiam salgadas as tuas lágrimas
quase cruéis

e eu só
com as minhas palavras
nada tinha nexo
dúvidas imensas

para mim
tão pequeno

agarrei-me a um momento
junto a uma memória tua
ansiava pelo dia
em que viesses com o teu sorriso
preso nos lábios
e que então eu pudesse
finalmente
deixar a confusão que habita este lugar
e
por fim
sossegar...