Gravidade Zero

José Fernando - Poesia

Gravidade Zero

".............
Nunca te esqueças
Não me conheces
Conheces aquilo que eu te mostro
.............."

Do teu adeus
Quando te afastares de mim, quero que me chames PUTA
Quero que rias dos meus jeitos estúpidos de andar
Mostra-me as palavras que desenhei no teu olhar tempestuoso
O meu tumulto sepulcral será em teus lábios
como nos filmes:
A morte será o meu silêncio
Não há nada mais que os ponteiros encontrem senão números...
Repetem-se sem darem conta
Eu não tenho mais esperança para me dar força a continuar...
Sem ti, esvaio-me em pontos amarelos
É a febre de quem sorri.
Não quero sorrir.
Muito menos rir.

O abutre olha para perceber que está empalhado
Não tarda o sol irradia certezas
Neste sítio morre-se de tédio
Não tenho o bastão da verdade
El sakur
Perdoa o que perdi
Perde o que perdoei
Canonizo-me em ti
Da vida que tive, guardo o rasto do infinito
E o sabor das mentiras que me fizeste engolir
A verdade custa sempre mais a assimilar
Duvida-se do feto que está por nascer,
mas ninguém duvida dos abortos que por aí andam

És a razão da minha perversidade
O meu ego desconjura-se em ti
Mas vai...

Leva as recordações boas, que não as quero,
Deixa-me sofrer sozinho
Quero que seja a coisa que te dê mais prazer
Quero morrer com o teu prazer

O sofá chama-me
Pede a companhia de mais um cigarro
Queimo mais umas poucas certezas
És tu que aí estás?
Pedi que saísses...
Tumor.
Não me ouves quando te chamo
Nem quando te mando embora
Tenho os passos contados
Não me obrigues a mover-me
Criatura nojenta de lama!
Pôr do Sol

procuro o silêncio. insaciável este desejo de querer o nada de sons. a caneta repousa porque precisa de descanso. eu não. procuro o cansaço em loucos movimentos descontrolados. as minhas ideias são como os pirilampos, ora brilhantes, ora totalmente apagadas, guardo o último cigarro para ti. sei que virás. não vou dizer que perdi o brilho dos teus olhos. salino, puro... cristalino. sei que o guardas para ti. algures esquecido num canto do olho. revela-se em mim um acetinado desejo de tocar a tua fibra animal. a pele atravessada pelos buracos de inveja. queria coser-te os lábios com o meu corpo. ser tua mordaça. que me saboreasses, e, que ao mesmo tempo, não te deixasse falar. porque te recupero em sentidos estranhos de vómito verde e pudor primaveril. cobre-te na inocência que te resta. os longos dias virão, vais ver. a inundação está a começar, todos nadam e afogam a cara em seiva retorcida em azul. sentem-se cansados e dizem desmaiar. o espelho arde dos dois lados. como uma faca de dois gumes que seguras em nervosismo. não sabes o que é o futuro. queres sabê-lo hoje até ao anoitecer. pegaste na arma. as tuas ideias apavoradas, ainda que absurdas, voaram ajudadas pela bala veloz que te violou o cérebro." fodi os cornos". ouviu-se uma bala antes do sol se pôr. dizem agora que desapareceste com o sol.
Mergulho na multidão...

mergulho na multidão de rostos desconhecidos
o tempo escasseia, dizes-me
a palavra morreu
e o despertador toca todas as manhãs para não me esquecer de te amar acordaste e lançaste-te ao mundo
de olhos fechados

deixaste-me a mim e à cama desfeitos
enquanto pensava se haveriam viagens sem retomo
já tu tinhas ido sem voltar

ao menos esta certeza
de que estás feliz algures
sabendo que sofro por te amar
Quando eu morrer

quando eu morrer
apunhalem-me
e venham com as mesmas frases tontas de sempre
culpar-me de tudo

que os que eu quero já tenham todos morrido
ou que venham comigo

nessa altura
podem-me apontar com o vosso dedo acusador
e dizer que fui eu
a resposta será:
sim, fui eu
fui eu que morri

calei-me
eu que nada dizia
e a lápide ausente
(porque vou para a vala comum...)
poderá ser imaginada
"aqui jaz quem viveu em marte"
e todos os cadáveres que dormem
só estão a adiar o inevitável
porque eu já estou comprometido
com o vazio
sabendo o que é amar
e junto do meu corpo
uma rosa definhará
como se dissesse que junto a mim
também tu podes viver
e tu és qualquer um
qualquer tu
mas enquanto não sabes quem és
continua a apunhalar-me
com a tua falta de jeito
quando eu morrer
De hoje em frente

ontem choveu
hoje, restam umas poucas lágrimas
por chorar
em tudo calamos as palavras
há séculos renascidas do fogo
os nossos rostos desfocam a mesma verdade
e não os olhamos
não temos essa força
teremos primeiro de nos unir
assim
sim, nomeei-te
com a fragilidade do meu corpo
doente e dorido
sorriste, e ao adormecer,
apagaste a luz com as tuas
palavras de gelo:
"Adeus.
Até amanhã..."

nunca soube
se existiria
um amanhã.
Ti

Um odor a estearina.

Uma ténue luz.

O quase-silêncio.

Uma vaga lembrança de ti.

A tua carta.

Sentimentos complacentes e que me aprazem.

No cinzeiro, os mortos nadam em cinzas. Em vidas cinzentas.

Por esta hora, já deves estar a tomar banho em dúvidas. Não duvides. A água é molhada. Muito. Nunca duvides.

A dúvida leva ao conhecimento. Mas a única coisa que podes conhecer agora é o tamanho da tua ignorância. Como se isso se medisse... Por isso... Não duvides!

Prende-te a um olhar meu num dia de verão... Verás como é refrescante sermos recordados por alguém. À minha frente, tudo se empilha num caos desprovido de senso. Mas isso não me interessa.

Preocupo-me mais com o que deixei para trás. E, naquele dia, ficaste para trás, Sempre que nos despedimos. Por isso é que não nos despedimos. Olhamo-nos e partimos. Às vezes, ficamos. Mas olhamo-nos na mesma...

Sinto uma tristeza enorme quando se apaga a luz... Deixo de te ver, Imagino-te, Porém, a imaginação implica a distância do imaginado.

Tens um sorriso de néon, de esmalte, de jazz... De algo incomum. Não devia ser teu. Deves tê-lo roubado a alguém. Adoras roubar sorrisos. Mesmo quando não me apetece sorrir, sorrio ao pé de ti. Porque tu me obrigas a isso. Tu, tens um sorriso de céu rasgado.

O sorriso é mais forte que as palavras. É das poucas vezes que os lábios mexem sem sorri. 86 com cor e brilho. Sorri, É melhor. Não duvides!

Lembro-me de me teres tocado. Para ser sincero, é ele que me lembra. O teu suave toque. Ainda hoje o guardo. Se calhar, já te esqueceste. Nunca te lembras onde tocas por acidente.

Vibro contigo como uma corda numa harpa desafinada: nem sempre no mesmo tom, mas sempre perto e com tendência a encurtar a distância.

Entendo os teus desentendimentos. Entendo as tuas dúvidas. Mas não duvides! Ficas insegura e pensativa. A pensar no impensável.

Eu quero que penses em mim. Pelo menos, metade do que eu penso em ti. Seria fabuloso.

Nunca quis ser um herói. Prefiro ser o vilão. O herói ganha sempre, o Vilão tem várias mortes. Destino incógnito. O que é o destino? Não tenho essa palavra no dicionário. Muitas apodreceram. Outras, perderam uso. Maior parte, tirei-as. As outras, deste-mas tu. E essas, não perdem uso ou sentido.

Permanecem.

Tenho saudade.

Definição: saudade é quando não te tenho.

Vejo-te feliz. Não sei com quem estás, ou onde estás. Mas chega-me. Desde que estejas feliz... Feliz por ti. Andava a ler um livro. Com poeira e palavras caducadas.

Já me fartei dos livros. Estão cheios de erros. Prefiro escrever as palavras que não li. São mais bonitas. São mais minhas. O meu corpo abana-se ao vento na memória do que sei. Sou ferida e cicatriz...

Não chores a chuva que está por vir... As nuvens encarregam-se disso.

Liberta-te do medo. És mais forte do que ele. Senão, eu teria medo ao pé de ti.

Acendo mais um cigarro. Dizes-me para mandar o fumo noutra direcção. Apago o cigarro. Pedes-me o isqueiro e acendes cigarros, uni atrás do outro...

Questiono-me, Estou duvidoso.

Duvidas?

Dizes-me tu...

"Não duvides!"