Só porque...

José Fernando - Poesia

Só porque...

".............
José Fernando
.............."

Retrato na solidão
um canto de um quarto
um corpo já desabitado
a custo,
move-se
apenas a mão sugere o movimento
deixou os olhos nos outros
deixou a voz no papel
deixou a mão cometer o suicídio
ainda hoje acreditam
que é um homem feliz

os dias fotocopiam-se sem interesse

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noite cerrada

meus punhos fecham-se em nervos
parkinson ou fúria
é o som
é o som do silêncio que me enlouquece
é o vazio que me transtorna
alumia-me o caminho
com uma palavra tua
terna e concisa
que só diga o que diz
que o seu sinónimo
não seja mais
que ela própria

ouves-me agora?
carregado em dores e brisas ocas e melancólicas?
ouves-me agora
que meus lábios tocam teu lóbulo
e beijam a ternura
da tua pele?
ouves-me agora
que não te limito ao vulgo ser
e entrei em teu interior?

e tu
ouves-me agora?

......................................
19-Nov-97

ontem adormeci contigo. hoje contigo acordei. os dias tornam-se plenos de ritmo e melodia contigo a brilhar nos meus olhos... quando me olhas e me vês. quando me fazes existir. dormi com a tua imagem. imaginando-a.

O Mestre cantou-me.

"( ... )sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade."

A voz estava demasiado distante e irreal. Era a dele. A voz. Aquela que eu segurava no seu corpo, agora datado de urna das muitas mortes que teve.

Mas, depois de tudo...

Quando o silêncio por fim veio e deu descanso ao corpo torturado pelas tristes palavras na vida... Quando a caneta que lhe cravava o coração por fim conseguiu levar a sua tinta a tantos outros corações...

O Mestre cantou-me.

por este rio de palavras

onde nos perdemos

jorramos

por vezes

pelos poros dos nossos corpos angustiados

toda a razão do silêncio

que só o amor acolhe

que só o amor recolhe

por estas guelras que nos nascem

em vez de sílabas mudas

quantos olhares não trocámos

antes da matinal ascensão

ao tédio quotidiano

quantas renúncias a nós mesmos

não fizemos

por este rio de silêncios

onde as palavras se perdem

Meia-noite exacta. Estou na casa que por vezes fazes tua. Que eu quero que tua seja. Por mais que cá venham pessoas, só conseguem encher este espaço. Tu, ao contrário, consegues preenchê-lo. Só tu sabes como fazê-lo. Talvez nem venhas agora que te espero. Sempre vieste quando nada esperava. Ao meu lar. Ou nosso.

Um lar é um lugar mais curto, porque não tem o u nem o g. É mais privado. Lar é o nosso lugar, feito à nossa medida. Por isso, pequeno, porque somos pequenos neste tanto mundo.

Queria-te tentar explicar o que realmente é a saudade, tocando-te. Mas não sei se o teu corpo está disposto a ser tocado novamente pelas mãos que pouco ou nada lhe conseguiram transmitir.

O fumo continua a desgastar as minhas dúvidas.

Eu continuo a desgastar o fumo.

Não tenho mais silêncio. O pouco que tinha serviu-me para pensar os nossos momentos. Calmo, fixei-me em cada um deles, querendo reviver cada um. O que é certo é que me perdi a mim e ao pouco silêncio que tinha. Pensei ainda ter-te perdido a ti, mas o facto é que aqui não há saída. Uma vez que entras, já não sais. Não dessa maneira. Nunca.

"Hoje chove.

Esta é uma cidade lavada em lágrimas."

Pensei muito no que está ainda por acontecer. É sempre muito melhor do que o que já se passou. Simplesmente porque não sabemos o que é ...

T

ouTra vez

a Ti

Talvez

Tudo

confinar o meu ser

a três hipóteses

cada uma delas tu

dos sonhos restar

apenas o que não se sonhou

e as coisas simples

que se levantem

como eu e tu

e venham

por aqui

por ti

amanhã vamos comprar mentiras

estão em saldos

Dá-me a mão. TU. Para que eu consiga, Para que juntos consigamos.

Juntarmo-nos. Antes era mais simples. Não era preciso juntarmo-nos. Estávamos juntos.

o sono não vem. nem o cansaço. nem tu. nada nem ninguém. só eu e a cama. eu sem a cama a cama sem mim. e até à hora de me cobrir deste mundo nos trapos que me dão luz ao sonho, fico aqui e leio e escrevo e não sei o que faço. não sei o que fazer. tenho em mim toda a dor das palavras magoadas. ou em mim nada tenho. porque esta dor me indica que estarei ou vazio, ou demasiado cheio. três da manhã. um grito quer sair. talvez um nome. mas gritar por ti a estas horas neste local, era capaz de criar problemas com a vizinhança. calo-me antes de falar.
23-Nov-97

Não tenho nada para te dizer
apenas um grande abraço por dar
Se alguma vez procurares

tens nas tuas passadas
tudo o que encontraste
e só a ti te perdeste
podia ser hoje
de algodão o meu leito
mas nestes cardos pernoito
enquanto não voltas

há pouco que eu possa fazer
por duas razões:

1-não estás cá
2-não estas cá