Para Lá da Onda Que Começa

José Martins Saraiva - Poesia

Para Lá da Onda Que Começa - (sonetos I)

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Acima de tudo é preciso sonhar. Sem sonho é impossível a nossa vida ser vivida. E, «para lá da onda que começa», talvez seja possível, um dia, a nossa imaginação tornar-se realidade...
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Aonde Quero ir Ter...
    Quando acabar o sonho que me anima,
    Acabará a terra e o meu céu...
    Quando acabar aquilo que nasceu,
    Na minha alma, o seu fogo termina...


    Todo o calor que vem e que germina
    Num sonho forte que me favor'ceu,
    É hora alta, é honra que rompeu
    Pelo favor do céu que nos domina!


    Ao Som das ondas, lua a brilhar,
    Vencem desejos que me vêm nascer...
    O peito é forte, e tudo o que contar,


    No coração navega p'ra viver!..
    Deus de tudo! - Contorna o meu olhar
    Na terra santa aonde quero ir Ter!...

Caminhada

    É para além do mar a ansiedade
    De se partir, de ir e não voltar!...
    É para além das ondas sem chegar,
    Que uma voz me chega de saudade...

    É para além do mar a eternidade
    Que o infinito tem para guardar!...
    É para além das ondas a chamar
    Que sonho a vida, toda f'licidade!...


    É para além da morte o horizonte
    Que o mistério nos guarda, toda a vida,
    Quando, em suave vento, sobre o monte,


    Olhando a caminhada percorrida,
    Eu possa descansar, beber da fonte,
    E estar, novamente, de partida!...

É para Além

    É para além, além do horizonte,
    Que o enigma nos diz o que nos quer,
    Se há uma ilha de bruma a florescer
    À medida da fé da nossa fronte!

    É para além, além, que escorre a fonte
    Com o néctar mais puro de beber,
    Que sara a carne viva do sofrer,
    De entre os penhascos belos que há no monte!

    É para além, além, no meu desejo,
    Que existe tudo que ando a procurar,
    Tudo que sei que existe mas não vejo

    Mas, mais que tudo, sempre quis amar!
    É para além, além, que existe o beijo
    Que esta minha alma anseia por beijar!

É para Além da Vida

    É para além da vida, o mar sem fim,
    Da dúvida e do desejo misturado,
    Onde tudo que tenho ambicionado,
    Está longe, tão longe, já, de mim!...


    É para além do horizonte, - Enfim! -
    Que fica, sempre, o reino procurado,
    Tudo de quanto ando enamorado,
    Que sempre se negou a dizer sim...


    É para além da vida o que pressinto,
    Que busco sem parar e é mais além,
    Que, eu próprio, a mim mesmo às vezes minto,


    Para fingir coragem que não vem;
    Pois é preciso crer, que sempre a sinto,
    Para me convencer a mim também!...

É para Lá...

    É para lá do traço que separa
    O fim do mar, do céu de azul forrado,
    Que existe a voz que a mim me tem chamado,
    Dia após dia, em ânsia que não pára...

    È para lá daquela onda rara,
    Além traço que a tem assinalado,
    Da mesma forma, assim a tem guardado
    De quem, buscando, ali nunca a julgara...

    Que existe uma ilha, em mar desconhecido,
    P'la qual, minha alma chora, agrilhoada
    Num ideal jamais envelhecido...

    Hei-de ser lá, - Ó ilha ambicionada! -
    Pois mais te ouço no som do meu ouvido
    Quanto mais forte me sejas desejada!

É para Lá que Existe...

    É para lá de tudo o que ambiciono
    Que existo a esp'rança em toda a minha esp'rança...
    Onde a alma procura sem parança
    Sentindo o aproximar do meu outono...

    É para lá da onda, aquele trono
    Que busco com fervor e confiança...
    Dum reino que há-de ser de venturança,
    Além da boa fé de que sou dono!...

    É para lá que existe, com certeza,
    A ilha que sonhei, que me sonhou !
    Que sempre me ficou na ideia acesa!...

    Que à luz dum mundo novo se criou!...
    É para lá que a crença me está presa
    E a febre de lá ser me transformou!

Eu... Mar

    Daqui existe o mar, o mar, só mar,
    Horizonte pegado lá no fim,
    E um desejo bem forte, dentro em mim,
    De ir, de me perder, de navegar...

    Daqui existe tudo que hei-de amar,
    Mesmo depois de além me dizer sim.
    Entendendo melhor... - Enfim! Enfim! -
    O mar sempre fui eu a marulhar!...

    Sempre fui eu nas ondas a falar
    Histórias de navios que ficaram,
    Marinheiros, mistérios de chorar,

    Ilhas azuis que nunca se encontraram
    Mas que na fé não deixam de se amar
    Como os sonhos de mim que me sonharam!...

    Que à luz dum mundo novo se criou!...
    É para lá que a crença me está presa
    E a febre de lá ser me transformou!

Mar de Enganos

    Crocitam as gaivotas. Mar de vento
    Gaivotas leves, ocas, de papel,
    Bailando pelas nuvens cor de mel,
    Crocitam nos farrapos dum lamento!...

    Crocitam as gaivotas: - pensamento!... -
    - Nuvens dependuradas num cordel,
    Ou girando p'lo espaço em carrossel,
    Cobrindo o mar, levadas pelo vento!

    Crocitam em angústia envelhecida,
    Aberta pela dor dos meus enganos!...
    Crocitam as gaivotas pela vida

    Dilacerando a força dos anos!...
    No céu revolto, cor de carne f'rida,
    Gaivotas esvoaçam, feitas panos!...

Mar Pardo

    Ó mar cinzento, alheio ao nosso drama!
    Ó mar da tarde, do infinito e esperança!
    Ó mar que não dá peixe nem bonança,
    Guerra do pescador fora da cama!...

    Ó mar pardo! Ó triste que não ama!
    Ó mar desilusão, sem venturança!...
    Ó mar da minha alma. sem parança,
    Ilhas bordando em espuma que derrama!...

    Aonde fica o fim do meu destino?
    Aonde está a razão da minha vida?
    Porque nasci? Porque fui eu menino?

    A quem convém a minha carne f'rida?
    - Porque badala estando em festa o sino,
    Se a dor no peito é sempre repetida?!...

...Menos pode a Dor

    Benditos sonhos! Noites de magia!
    As ondas desenrolam, lentamente...
    Os teus lábios beijados, docemente,
    São boas esp'ranças para o novo dia!

    Tu vais comigo à terra da alegria,
    Aos longes outonais da minha mente!...
    - Minha brisa suave em tempo quente! -
    De braço dado, por estranha via...

    Almas pendentes deste mar sem fim...
    Sonhos abertos!... Mundos no amor!...
    Um nascente de enigma de carmim...

    E a barca, leve, voga com fulgor!
    Procuro a tua mão perto de mim,
    Assim, bem juntos, menos pode a dor!

O que Sou Eu...

    Para lá de mim, forte, fala o mar,
    O sol, as nuvens, o azul do céu;
    Mais longe, o que me espera, o que sou eu,
    Na força de me ter, de lá chegar...

    Sou a ilha sonhada e por sonhar,
    Além de mim, aonde me nasceu...
    Onde a alma voou e se prendeu
    Num abraço que nunca há-de acabar...

    Foi desde muito novo... me deixei
    Fugir além das ondas numa estranha
    Crença-sonho que sempre acalentei...

    Pode ser, - Por ventura tamanha! -
    Para lá do que sempre desbravei,
    Que aquilo que não veio ainda venha!...

Para que Seja Doce de Lembrar...

    Recuso-me... Recuso-me a pensar
    Que para lá daquele traço... - Enfim!...-
    Não haja uma paragem para mim!
    Não haja um sonho lindo de sonhar!

    Recuso-me... Recuso-me a pensar
    Que para lá daquele traço... - Assim
    Como quem reza! - Não haja um jardim
    Onde possamos ser e nos amar!

    Onde a desgraça não tenha lugar...
    Se desconheça o ódio e a inveja...
    - É necessário nisso acreditar

    Para que valha a pena e assim seja!
    Para que seja doce de lembrar!
    Para que lembre tudo quanto veja!

Quero Lá Chegar

    Ó volta de onda mesmo a desandar!
    Roda verde de esperança do meu sonho!
    Leva p'ra longe a dor que aqui deponho!
    Leva p'ra longe a onda do azar!...

    Ó volta de onda mesmo a desabar!
    Leva p'ra longe tudo mais tristonho,
    Onde a ilusão dum dia mais risonho
    Já tarda no porvir de acreditar!...

    Ó volta de onda! Ó mar sempre de avesso!
    Onde é a ilha qu'rida de encontrar?
    Onde é a ilha qu'rida que não esqueço,

    Que sempre o teu barulho vem lembrar?
    Onde é a ilha? A paz onde me aqueço?
    - Dá jeito ao leme, quero lá chegar!

Se para Lá...

    Se para lá da onda que começa...
    Não existir nem ilha nem amor...
    Nem encontrar o fim da minha dor...
    À desventura, não há nada que a meça!...

    Ser enorme... Enorme na cabeça
    A confusão gerada num horror!...
    E, na vida perdida, sem valor,
    Jamais sonho algum se recomeça...

    Se para lá daquilo que sonhei...
    Nada exista que valha a minha crença...
    Se em tudo quanto sou e em quanto sei

    Não faz sentido algum, sua nascença,
    Em que reino, então, seremos rei?...
    - No reino da desgraça... e da descrença!...