Verdades Mal Pensadas

José Martins Saraiva - Poesia

Verdades Mal Pensadas - (sonetos III)

"Verdades nuas, cruas, mal pensadas..."

A Vós...
    A vós que tendes os destinos à
    Mercê do vosso mais belo prazer...
    Que a terra numa mão, a bem dizer,
    Sob o vosso capricho explodirá!...

    A vós a quem a sorte ditará
    - Ó jogador de dados que o perder
    Desata o ódio e a ânsia de vencer! -
    Mas que futuro a terra aguardará?

    Condutor´s de homens, cérebros subtis
    Que a política fez em «marionnette»,
    Quando falais quem sabe se mentis

    Ou se a batata aumenta ou o esparquete...
    - E todos que vos escutam, mais servis,
    Tudo farão p´la paz que se promete!

Amor à Natureza

    Quero deixar vincado, bem vincado,
    Que sempre e muito adoro natureza
    Que me recebe bem como alteza
    Jamais receberá em seu reinado!

    Árvores, rios, mar, o céu estrelado,
    São magia do mundo e a beleza
    Em que depositamos a certeza
    Que a vida vale quando tem sonhado!

    Ergamos nossos olhos para a serra!
    A nossos pés os vales são a mão
    Em cujos dedos se abre, se descerra

    A água cristalina da ilusão!...
    A força que nos sonha ou nos emperra
    Mas que nos alimenta o coração!

E Tu...

    Nos dedos uma rosa... e orvalhada!
    Fresca de lábios moços e rosados!
    - Recordações! Momentos desejados!
    Horas que foram d'água já passada...

    Depois de ser cheirada e bem olhada,
    Beijei-a docemente!... Dos meus pecados...
    Tão singelos!... tão belos!... Recordados...
    só uma flor ficou, abençoada!

    Por isso, a rosa, a minha bela flor,
    Trazendo-me à lembrança a minha vida,
    Deixa-me a paz... o sonho... e o odor!...

    E toda a b'leza sempre revivida
    Na fórmula mais pura do amor:
    - A terra inteira... e tu, ó minha qu'rida!

É passar outro Eu e Descobrir...

    Passar além de tudo o que passara
    É passar outro eu e descobrir
    Que nada se limita sem medir...
    Que nunca se mediu quem mais sonhara...

    Guardado em cada um o que guardara
    De pensamento largo a querer fugir
    É estar distante e se pensar e ir...
    Voar no pensamento que criara...

    Passar além, dentro de mim, julguei
    Que era passar... passar e não passar!...
    E todo o pensamento que juntei

    No cérebro remexido, a esgravatar,
    Era de mim matéria que pensei...
    Parte de dor e riso, amor e ar!...

Em Mim

    Este som, este som duma floresta
    Vem no ar, vem, repassa, vem falando
    Nos olhos, nos ouvidos, repousando,
    Segredando uma história em ar sem festa...

    Vem falando em falar-nos do que resta
    Da pureza distante, quando em quando...
    A árvore não se basta vegetando,
    Antes sofre o desprezo em fria aresta...

    A beleza está sempre no amor
    que se sente e alimenta o nosso fim.
    Tristeza e solidão são em redor

    O que as formas, as mantém tal qual assim...
    - A consciência cria e forma a dor
    No espaço transcendente que há em mim!...

Faço Força

    ...E quero sempre uma janela aberta!
    O horizonte colado ao fim do mar!
    Este, macio, vago, tão pensar...
    E o espírito mantendo um estado alerta!...

    Pensem comigo um mundo que se acerta
    Se Todos o quiserem acertar.
    Pensem comigo a forma de se amar
    Se tudo o que se amar de desaperta...

    Longe ou perto a terra se traduz
    Sempre na vida que se faz na vida.
    Se tudo o que se faça nos seduz

    A história de existir não é perdida...
    Perdido sou se não se acende a luz
    E o mundo se não ame sem medida!...

Holocausto

    E Sonhei que um força, de repente,
    Levou a minha terra para o nada!...
    Se tudo se acabou sem fumarada
    Como um segundo tem o que se sente...

    Se as árvores e as casas, em torrente,
    Giraram sobre si numa embrulhada,
    Não sei se feito sonho ou já sonhada
    Essa força as sumiu mui de repente!...

    Terrível! Tão terrível tudo isto!
    Eu nem sei se sonhei se foi pensar...
    Um rápido clarão ou um registo,

    Um risco que ficou por se riscar!...
    E, tudo quando olhei, sem mais ter visto,
    Talvez um dia seja sem sonhar!...

Na Magia das Sombras

    Na magia das sombras, entre a mata,
    Soltam-se visões loucas, de verdura,
    Cabelos envolvendo a criatura
    Que respira e no solo se desata!

    Silêncio e calma. Mas que vida grata!
    Momentos mais solenes de ventura!...
    Não há bolo melhor, melhor doçura,
    Nem deste, outro valor, nem ouro ou prata!

    Desejo belo! Espalha-te no céu
    Filtrando o mundo de fazer a vida!
    A força é tua! O pensamento meu!

    E a mata de alto a baixo remexida
    De vento e água... e esta se perdeu
    No mar sem fim de toda terra qu'rida

No Mundo desta Tarde

    Além daquilo que perpassa leve
    No macio pensar de quem pensou,
    Houve um ar frio que aqui passou,
    Éter ou nada que o desejo teve!...

    Sonho aberto... se derrete a neve
    Que o coração mais triste enregelou...
    Sopro passado... aura que levou
    E a magia dos anos nos pesou!...

    Horas... Tempo... Sonhar... Sofrer... Viver!...
    - Respiro a poesia do poente
    No mundo desta tarde a se perder!...

    O mar soluça!... Ouço toda a gente
    Que nasceu e amanhã já vai morrer...
    - Ó louca humanidade incoerente!

Verdades ?

    Verdades nuas, cruas, mal pensadas...
    São todas as que existem neste mundo.
    Verdades cristalinas sem ter fundo...
    Verdades mais ferozes, conquistas...

    São mensagens sonoras procuradas
    p'ra esclarecer melhor - Tornar Fecundo!...
    - Formas insofismáveis deste mundo
    Impossíveis de serem refutadas...

    Na sua natureza, evolução,
    Os degraus de transporte a outra era,
    O pensamento é sempre revolução

    E o que era ontem certo hoje é quimera!...
    - Processo natural de negação,
    A verdade da vida... ela a gera!...

Verdades Mal Pensadas

    Acabe o que acabou sem começar
    Se era p'ra acabar e começou...
    Mas começar aquilo que acabou
    Não acabou sem nunca começar...

    Se se começa o dia a madrugar
    Não se madruga mais se se acordou...
    Se se acordar quem muito madrugou
    Não mais madrugará quem acordar...

    Na vida... tenho um sonho bem polido,
    Brilhante como o sol e mais que a lua...
    Um sonho que se acorda num gemido

    Se a boca que o gemer só for a tua...
    Se se acabar o sonho estou perdido!
    A vida ficará mais nua e crua!...

Verde é a Rama

    Verde é a rama do meu paraíso
    Construído a sonho, feito a mim!...
    Sonhado por sonhar principio ou fim...
    Ou dia ou noite voz do seu juízo...

    Entre as árvores, vento... antes riso
    Ou pensamento...- Eu sou... eu sou assim:
    Talvez uma quimera ou um jasmim...
    Mas sempre a substância que preciso!...

    Não me matem os rios ou o mar!...
    Deixai, deixai a natureza em paz!...
    A minha poesia é do sonhar...

    Um sonho, não é a morte nem falaz!...
    É algo que se ama por amar,
    Assim como este mar que nos apraz!

Verde e Primavera

    A folha é verde verde e primavera!
    É árvores! É seiva! É terra! É vida!
    É quando de pureza conseguia
    Na lembrança dum sonho que não era...

    O sonho era exacto... sem quimera...
    Despertando a manhã nele contida!
    - De tudo é ilusão e vida a vida
    Até ao respirar do que soubera!...

    - A quando nos obriga, assim... viver!...
    Chorar a rir, a rir quando chorar...
    Fingir que não se sofre no sofrer...

    Fingir que não se sofre por amar...
    E amar o mundo todo sem dizer
    A vida que se perde sem falar!...