Insónia

José Martins Saraiva - Poesia

Insónia - (sonetos IV)

" Para todos os que sofrem, sonham, vivem, esquartejados de insónias e de manhãs belas "

Algo que cá não mora

    São duas da manhã. Tudo é mais estranho.
    O ar fez-se pesado e peganhoso.
    O silêncio é tão misterioso
    Que o duvidar de tudo é já tamanho...

    Um raio de luar fraco, castanho,
    Escapa-se à janela, melindroso,
    Vindo deixar-me ainda mais nervoso
    Sem ter vontade de fazer o banho.

    E não me fui banhar àquela hora
    Temendo, Não sei bem, uma impressão
    Que adivinho, que acusa, que piora

    E põe a bater mais o coração...
    - Algo que existe cá mas cá não mora
    E pouco a pouco aumenta de pressão!...

Amargura

    No silêncio das ruas escurecidas
    Fala a verdade pelo som dos passos;
    Sob a tristeza, livre de embaraços,
    No ar da noite, pelas nossas vidas.

    Nos troncos nus das árvores vencidas
    O mesmo frio floriu, abriu os braços,
    Indo abraçar os gritos dos terraços,
    Feitos de dor, luar, almas perdidas...

    A vida é triste, amarga, dolorosa.
    No frio corredor da nossa sorte
    Levanta-se a miséria clamorosa...

    Mentira... hipocrisia... este suporte
    Faz desejar a paz silenciosa
    Que Deus nos dá nas mãos feias da morte!...

Andam lá fora as horas a brincar

    Vou semeando a noite, toda minha,
    De pensamentos, todos de pasmar,
    Achados pela noite a madrugar
    Que o sono levantou pela fresquinha.

    Pela névoa leitosa, manhãzinha,
    Andam lá fora as horas a brincar!
    No som do sol fizeram-me acordar...
    Fui à janela... e nem janela tinha!

    Tinha voado em sonho que não foi
    Dentro dum sono, por não ter lugar,
    Num sono feito mágoa, que me dói,

    Que nunca no meu quarto quis entrar...
    Que ansiosamente morde e rói
    No desejo mais doce de acordar!

Aquela noite tinha a minha idade

    Aos quatro cantos do meu quarto estava
    A noite acocorada a espiar...
    E todo o tempo que a estivesse a olhar,
    O seu mistério fundo, me fitava!...

    Assim, habituado eu acordava
    E adormecia sem a incomodar.
    Ela fazia por ignorar,
    Até chegar o dia, que a levava.

    E enquanto eu escutava a tempestade
    Que sacudia as árvores do caminho,
    Também ela, dormia de verdade

    E deixava-me uns tempos mais sozinho!
    - Aquela noite tinha a minha idade
    E abria-me a manhã, devagarinho!...

Desespero

    Esta noite sou eu... sou eu que vivo
    Cheio de angústia, farto de lutar,
    As fontes da cabeça a latejar,
    Neste quarto prensado e mais cativo

    Há coisas a esquecer que mais revivo,
    Que me põem crispado a praguejar.
    Coisas amargas, duras de encaixar,
    Que me furam a alma como um crivo.

    Batem as horas, loucas, a bailar,
    Sem desviar um pó do que está escrito!...
    Batem as horas, bailam sem parar,

    Sem se importarem se eu estou aflito!...
    Batem as horas... lentas... de matar...
    No desespero enorme do meu grito!

Mar sem Ondas

    Entre as paredes do meu quarto... um mar!
    Silencioso, seco e irritante,
    Sem ter ondas, sem vento acutilante,
    Mas batendo na carne até queimar.

    Ideias absurdas a pairar,
    formas imaginadas perturbantes,
    Na poeira da noite sufocante
    Da imensidão de gritos a gritar.

    Hora velha e o sono não chegava.
    Nos meus olhos castanhos - tão abertos! -
    A luz da escuridão se abalançava.

    Ah! Sonhos mal chegados e dispersos!...
    - E a alma à deriva se cansava
    Em mil assuntos tolos e diversos!...

Murmúrio

    Ouço o drama da noite no telhado,
    Hora tarde, hora adentro, madrugada,
    Estremecendo ao som da trovoada,
    Cá dentro, mas lá fora transportado.

    Cada pingo de chuva do beirado
    É como se caísse na almofada
    Ou dentro da cabeça à martelada,
    No meu coração quase sufocado...

    Cada minuto trás à minha cama
    A angústia aumentada pelo medo,
    Como se alguém me desejando, chama,

    Murmurando o meu nome num segredo...
    Há um roçar de sedas duma dama
    Numa aragem de folhas de arvoredo!...

Noite de Natal

    Esta noite... uma noite tão diferente!
    Na lareira crepita alegre a lenha,
    Colorida, devorada pela chama,
    Vindo aquecer o coração da gente!

    Mesmo quando se lembra alguém ausente
    E a saudade, cá dentro, doer venha,
    Uma doçura enorme se desenha
    Na fé que nos anima docemente!

    Porque esta noite é noite de Natal!
    Uma noite que fala, que se sente,
    E embora a neve caia, num estendal,

    O amor existe, a alma é nobre e quente!
    Em cada ser há uma crença igual!
    - Esta noite... uma noite tão diferente!
Noite... Solidão...

    A noite paira triste sobre mim...
    Corpo húmido de medo e solidão...
    Muda e opaca, em interrogação,
    Continuamente dúvida sem fim.

    Lá fora, a lua pula do jardim,
    Pálida e fria, entrando de raspão
    A nesga da janela e em arpão,
    Fere de morte a colcha de carmim.

    Aqui, moram as horas... Madrugada.
    Ninguém vive na noite sem sonhar!...
    - Afago os braços meigos duma amada...

    Acordado?... Talvez a dormitar...
    - Ó noite triste, nua, enregelada,
    Dorme comigo, amor, sem acordar!

Pela trela

    São quatro horas. Silêncio. Madrugada.
    Dentro de mim, mais forte, o coração
    Num dever de viver, numa razão.
    Lá fora: - só ladrar de cães, mais nada!...

    Sem sossego, pensando trapalhada,
    Levantei-me. - O céu é um negrão!... -
    Eu, tento negar a negação
    Desta insónia sem ser solicitada.

    Na aldeia, madrugada fria, nua,
    Sem estrelas nem lua na janela,
    Passeia, lenta a sombra pela rua

    Com meus medos e sonhos pela trela...
    A minha alma, cinzenta, vai... flutua...
    Eu, fico aqui sentado à espera dela!

Prelúdio

    Deitado sobre a cama, sem dormir,
    Longe o lençol batido pelos pés,
    O coração saltando em balancés,
    Cabeça oca, quase sem sentir!

    A noite, subtil, de mim a rir,
    Enchendo todo o quarto de lés a lés;
    Eu, transido, sentindo o meu revés,
    Sem coragem para tentar fingir,

    Ali estendido, à hora abandonado,
    Esgotado, pedi gotas de sono
    Para deixar de estar sempre acordado.

    Mas tudo em vão!... Caía o Outono,
    Prelúdio do Inverno enregelado...
    O meu corpo chorava pelo dono!...

Prisão sem grades

    Só ao deitar eu penso nos meus versos,
    Pois tenho os dias quase a entornar
    De problemas, que vêm atrapalhar
    Meu tempo, nos minutos adversos.

    Então, só, ao deitar, sem controversos,
    Com o sono mordente a querer chegar,
    A inspiração brinca ou vem brincar,
    E os temas vão saltando, tão diversos...

    Por isso, tenho o dia prolongado
    E a noite mais pequena, certamente,
    Mas sou feliz assim, tão ocupado.

    Chamo a isto, viver constantemente...
    Fervendo hora a hora... Libertado
    Nesta prisão, silenciosamente!...

Relógio de sala

    Farto estou de dar voltas no meu leito
    Ouvindo as horas todas a bater
    No relógio da sala que, sem ver,
    De cor o desenhei dentro do peito

    Que som cavo, medonho, de respeito,
    Cresce na casa e à cama me vem ter!...
    De espaço a espaço, o quarto vai tremer
    Nas horas do relógio no meu peito!...

    Bate uma, duas, três e até às sete
    O tempo me parece o inferno inteiro
    E esta noite em outras se repete...

    Espaço a espaço, sempre rotineiro,
    Marca o relógio, como lhe compete,
    A minha vida em cada seu ponteiro!...