Poesia
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| Aquém e Além do Meu Casaco |
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José Martins Saraiva - Poesia Aquém e Além do Meu Casaco - (sonetos V) "..................... Adentro Adentro perscrutei a ansiedade Em fenda aberta nos confins de mim; Vastos sistemas, vastidões sem fim, Sem fundo de pressão ou de verdade. Perpassa sempre um eco de vaidade No mundo que nos toma e faz assim... Mas quem procura a norma ou seu afim Encontrará o vácuo sem idade. No poço de nós mesmo, mais vulgar, Distâncias impossíveis se deparam E quanto mais alguém se procurar Mais longe os problemas o levaram. Galáxias! Ó confins sem par! É em mim que me gasto a procurar! Aquém e além do meu casaco Além do meu casaco é outro mundo, Novas linhas falares e seus limites, São outros a deitarem seus palpites, São outros a tentarem ir mais fundo. Aquém do meu casaco a vida inundo, Ó coração tem calma, não te irrites! E tu, ó velha alma, não me grites Que o dia não se vive num segundo! Façamos o melhor ou dentro ou fora, Rejeitando o confuso e o labirinto. Não é que eu não me queira ir embora... Às vezes desolado mal me sinto! Mas a vida é a vida, e é agora!... - Quando falo na morte é quando minto! Crónica Quando eu olhar olhando sem mais ver É longe aonde estou no meu pensar E enquanto não estiver no meu lugar Olhando vou sem nada por reter. Por sobre a parte toda de aprender Passei muito de mim a desenhar. Nos anos que o passado fez passar Gastei muito do tempo de viver. Nem sequer me ajuntei no que vivi... - Nem sei se ganhei tempo de aprender... Em tudo quanto sei e aprendi Nem sei se me fiquei a conhecer, Mas, a vida nasceu e eu nasci, Só me resta viver para morrer!... Desafio Como uma seta perfurei-me a frio À procura do exacto do meu ser; E sempre a penetrar mas a esquecer Em água me perdi do próprio rio. Vida sem cor... Aceito o desafio... Um ar se sente sem se perceber. Da alma o tédio. Tudo a desfazer. Não se encontra sequer o próprio fio... Sou eu feito de mãos que movimentam Os gestos do que quero, do que invento. As sombras e as luzes se alimentam Duma certa porção de pensamento Em fluxo, que regem, me inventam A cada nova acção ou movimento. Forçar Eu quero convencer-me que o destino É ponto de partida para a luta: - O que o homem quer, sempre disputa Neste confuso mundo ao desatino. Mesmo em homem é bom ser-se menino Na alegria, na crença, na labuta, No amor com que a vida se desfruta, Na forme de se achar certo o destino. Há que retesar nervos e avançar À procura do sonho que se tem; A bolinha de sabão que se formar É olhada e seguida por alguém. Devemos de forçar, forçar, forçar O mundo que é tão mau, pois outro vem!... Julgamento Estou a pensar já hoje em amanhã, Nos problemas que tenho de resolver, Adiantando um dia o meu sofrer Quando podia esperar pela manhã. Mas eu sou deste modo. Será vã Outra maneira de pensar e ser Quando é urgente o que há para fazer E eu sem calma, sem uma calma sã. Faço um esforço por me concentrar Por ver claro ou parar o pensamento, E, até que tudo esteja no lugar O cérebro, mais rápido que o vento, Parcela por parcela vai juntar E faz de cada caso um julgamento. Mensagem Aqui tento deixar uma mensagem A todos que me leiam e entendam. Aqueles que não queiram não se prendam! - A vontade é impulso da coragem! Tudo se vai da vida, na voragem... Parar é ilusão dos que pretendam Manter fogos sem chama que nos prendam E nos fazem perder a carruagem! Cada um de nós deve entender a vida Duma maneira própria e singular. Uma corda esticada, sendo ferida, Tem sempre a forma própria de tocar Numa guitarra nossa, construída Com o que queremos ser e encontrar. Passeio Tapar a nuvem para não chover Era necessário hoje, no passeio, Cobri-la de vontade ou outro meio, Talvez falar-lhe para a comover... Há oito dias que não pára de chover; Há um ano que tinha este passeio; Não sei se há outra forma ou outro meio Da nuvem se mudar ou se esconder!... Só sei é que isto agora não tem graça!... Estou vestido e a postos de sair... É como suceder uma desgraça Haver mais chuva ainda por cair!... Se eu fizesse magia, uma trapaça, Punha num céu azul o sol a rir! Passos Lá fundo, fundo, passos que de passos Fazem um homem ser o que poder. Passos de rua, rua de qualquer, Sons longos, longos, como longos traços... Passos de fundo, passos de embaraços Vindo de quem os ouve e os não quer. Passos que vêm venha o que vier, Passos que vêm falar-nos de passos... Luzes da noite passam na hora Feitas carros velozes, deslizando; Rodas sem serem passos, sem demora Nos mudam sem os passos mas rodando. Onde o mundo anda e onde a vida mora Os passos dos meus passos vão passando. Pastilha Duma pastilha elástica, um dia, Tentei fazer aquilo que pensava E enquanto na boca a mastigava, Sorria com um pouco de ironia. Se mal pensava e logo me fugia... Em cavalo de vento galopava... Se o pensamento a mim é que domava Como é que uma pastilha o conseguia? Por mais que nos queiramos imitar, Se somos nós, nós mesmos pensamento, Ninguém consegue a nuvem ou o ar Nem nada construir do próprio vento!... - E a pastilha que estava a mastigar Saiu informe a nada me sabendo!... Perfume Não feches a janela que o perfume Daquilo que pensamos quer entrar. Não feches a janela por fechar Como se quanto penso seja estrume. Se tudo quanto penso não dá lume Pelo menos não morde a quem escutar. Não feches a janela por teimar Nem vás calafetá-la com betume. Não há ninguém que faça mais parar Este poder subtil, em escapadela, Pois basta um só momento para atar Os homens e os países numa trela... Não feches a janela que o pensar Já passou para o mundo através dela! Que espécie de ser sou ? A forma que pensei sem me pensar Pintou barreiras, quadros não pintou... Das mais mil formas loucas que pensou Nenhuma me nasceu sem ter ter lugar. O herói que ficou para eu forjar Juntou todos os loiros que ganhou Mas sobre a banca triste desabou... Como a manhã morreu sem a sonhar... De mim, guardei os dias que odiei Chovidos nos invernos de moer... E por achar melhor é que os marquei Para os poder na rua conhecer. Que espécie de ser sou?... Pois o que sei Não me lembro na vida de aprender!... Ser ou não ser Só. Não importa. Quero ser potente, Bater à porta que não quer abrir, Com o punho ou de malho até partir, A pedra, a pontapé ou mesmo a dente! Tudo que seja contra que rebente! Aonde houver entrave tenho de ir, A chorar, a gritar ou mesmo a rir, Á lua, a marte, irrevogavelmente! Tenho de ser quem sou, a qualquer hora, Lutar pelo que quero até morrer, Se ninguém estiver comigo - embora! - Continuarei, tenho este dever! É difícil mas tem de ser agora Ou nunca mais serei quem quero ser! Também Vivo Também vivo no mundo. Mas não tenham Pena de mim. Não quero que me chorem As penas e as desgraças. Os que morrem, Morrem! Sofrer é só para os que venham A sofrer. O que as mágoas nos desenham São coisas, que por vezes, umas doem; Outras, somente passam e nos moem, Mas não quero que as sofram ou retenham!... Deixem, portanto, que elas vão correndo, Não há nada a dizer, nada em contrário, Pois quem quiser vai rindo ou vai gemendo De acordo com o fado em tempo vário. Não pensem nisto! Pois escrevo e emendo Como aquele que inventa o seu diário! Tarde Tarde na tarde quente, luminosa. Tarde que foi, que foi e que se ardeu. Tarde de tudo. Tarde que perdeu O ponto duma altura valiosa. Tarde no mundo. Tarde radiosa! Já tarde, muito tarde me nasceu O que tarde de tarde não morreu E que ficou de tarde dolorosa. Que tarde sem ser tarde para o dia A sombra despejou sobre a jornada... Assim que mal a tarde me surgia Já tarde me ficava a caminhada. Na tarde me nasci; nem sequer via Que tarde para mim era guardada!... Vive Vive, olha a paisagem e sê tu! És preciso naquilo que te cerca, Nas ruas entre as casas se concerta O espaço que sem ti ficará nu. Levanta-te! Não sejas Gabiru! Tudo o que se semeia ou que se enxerta Nem sempre dá de ganho nem de perca, Vai antes marmelar com a Lulu! Sê tu! Pois se nasceste fazes falta No meio onde estás e és real. Vive! Vai passear! Vai ver a malta! Adia um pouco mais u funeral! Desperta, anda, namora, beija e salta! Saber viver nunca a ninguém fez mal!
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