Poesia
- Contas do meu Rosário
- Descontinuidades
- Maquinais - A Máquina de Caminhar
- Maquinais - Angelografias
- Maquinais - Máquinas Celestiais
- Maquinais - Máquinas de Mal Amar
- Maquinais . Máquinas de Maldizer
- Maquinais - Máquinas da Memória
- Maquinais - Máquinas de Sofrer
- Antologia do silêncio
- Viagens Truncadas
- Ao Sabor da Roda
- Espelho de três reflexos
- Aquém e Além do Meu Casaco
- Insónia
- Verdades Mal Pensadas
- Para Lá da Onda Que Começa
- Só porque...
- Gravidade Zero
- Priv@do n.º 0.04.1999
- A Grande Dúvida
- Dedicatória
- Sonho de Poeta
- Versos
- Quando um Mentiroso fala Verdade
- Os Enjeitados
- De mim para Vós
- Poesia Diversa
- Comunicar
- Rimas ao Vento
| Espelho de três reflexos |
|
Luís Filipe Gonçalves Cardona - Poesia Espelho de três reflexos "Todos nós somos espelhos Ainda não morri !Ainda não morri! Embora todos os dias morra um pedaço e seja cada vez mais duro o esforço que faço para me manter inteiro, direito, ainda que imperfeito. Ainda não morri! Mas todos os dias faleço quando tomo consciência dos cruéis e ignóbeis preços que se pagam à demência prá conquista do poder, do dinheiro, da vaidade, do prazer, da exaltação do egoísmo, descarado e sem pudor ou mascarado de altruísmo. Ainda não morri! Mas vou-me sentindo um estranho, derivando neste mundo. Não por achá-lo imundo, mas por nele ter mergulhado completamente nu, desprovido de escudo da minha salvaguarda. Ainda não morri! Mas, dia a dia, é mais árdua tão erecta caminhada... Aquilo que me domina Aquilo que me domina, Mas que às vezes me anima, É um fogo interior que me consome, Dia a dia. Hora a hora. Como a fome. Fogo lento e corrosivo Mas cujo resíduo Não é 'inda a cinza; Mas apenas um carvão negro e disforme À espera que o vento sopre e o transforme Numa brasa ardente e rubra, Até que eu mesmo descubra Que afinal se não finou, de todo, a Vida. Depois do Natal Pronto. Acabou-se. Lá se foi mais um Natal... Trocámos prendas com sorrisos e abraços. Mandámos as boas festas como é tradicional. Pensámos nos probrezinhos (coitadinhos!...), mas enchemos as barrigas, os olhos e os regaços. Já podemos estar tranquilos: Cumprimos a tradição e aplacámos a consciência. Podemos voltar aos estilos de vida de agitação, egoísmo e violência. Tirámos a máscara da fraternidade. Trocámos o sorriso pelo rosto duro, as palavras doces pela crueldade. Entre nós e os outros foi reposto o muro do frio orgulho e da torpe ruindade. Mas pró ano cá estaremos a cumprir o ritual. Nessa altura voltaremos a usar, de forma igual, as máscaras do carnaval atrás das quais escondemos os sentimentos enfermos pela febre do consumo, mais efémero do que o fumo. Eu pecador me confesso Eu, pecador, me confesso Das palavras sem sentido, De tantos actos sem nexo, De tanto tempo perdido. Eu, pecador, me confesso Dos prantos que fiz brotar Quando em irados excessos Violentei o verbo amar. Eu, pecador, me confesso Pela minha impaciência Contra quem não tem ingresso Na minha benevolência. Eu, pecador, me confesso Por não querer (ou, não saber) Exercer no tempo certo As primícias do prazer. Eu, pecador, me confesso De m'evadir da ternura Tanto mais quanto mais perto De quem, em vão, me procura. Eu, pecador, me confesso De não saber reagir Ao sentimento do tédio E à falsa fé no porvir. Eu, pecador, me confesso Pela falta de bom senso Quando, por vezes, m'esqueço Daquilo que sinto e penso. Eu, pecador, me confesso Pela falta d'humildade Com que fruo do sucesso, Fruto da minha vontade. Eu, pecador, me confesso Da minha falta de jeito P'ra manter em alto apreço Amizades com defeito. Eu, pecador, me confesso Não pelo mal qu'exerci, Nem por ter sido perverso Mas pelo bem que omiti." Eu sou a voz que clama no deserto Eu sou a voz que clama no deserto da indiferença daqueles que não sonham. Desnudo-me e ofereço a céu aberto aquilo de que os outros se envergonham Mas ninguém me ouve. Ninguém responde. Só ouço ecos vazios de sentido. E esta fome de amor mais se me esconde nas dobras do coração já ressequido. - Ó áridos ventos que transportais no hálito sinistro dos infernos o selo inexorável do fracasso, levai convosco os meus versos banais, espalhai-os p'los espaços eternos e morra eu, imolado ao cansaço! Recado ao amigo que nunca tive Meu Amigo tão ansiado: Já vou perdendo a esp'rança De ter-te, enfim, a meu lado, Tão longa é já a tardança. Tanta vez te procurei, Qual Diógenes aflito, Mas a lanterna que usei Tinha um brilho tão restrito... Vejo o tempo a extinguir-se E tu longe, sempre ausente Da minh'alma, a esvair-se Em nostalgia pungente. Não me olhaste nos meus olhos Procurando adivinhar A dureza dos escolhos Que fizeram o meu penar. Não tentaste suavizar A aridez do meu deserto Quando só, sem me cuidar, Da loucura estive perto. Não quiseste rir comigo Nos meus, tão raros, momentos Em que tinham curto abrigo As razões dos meus tormentos Não vieste ouvir, atento, Meus lamentos e queixumes. Deixaste que fosse o tempo A adoçar-me os azedumes. Não me deste a tua força Quando me vi vacilar, Como a assustadiça corça Ao sentir que a vão caçar. Nem sequer vieste secar Tanta lágrima vertida, Quando senti soçobrar A juventude traída. Não vieste tomar parte Na minha louca ansiedade Quando foi meu estandarte A luta p'la Liberdade. Meu amigo inexistente: Nunca mais terei sossego Pois que, morta, ainda sente A minh'alma o teu desprezo!... Repulsa Pões sorrisos nos teus lábios de carmim Cheios de ávidos desejos de agradar, Sem dares conta que eu sei bem qual é o fim Que pretendes, com tais jeitos, alcançar. São tão falsos e tão vis os teus intentos Que nem mesmo a sedução t'os dissimula. Não t'iludas quanto aos meus bons sentimentos Pois nem sempre quem mais cuida, bem calcula. A elástica consciência sem moral E as falhas mais sensíveis da memória São, dos reles e dos tolos, apanágio. Vai-te pois pr'a sempre embora, ó ser venal! Não suporto a ostentação dessa vanglória Nem eu quero em mim sentir o teu contágio. Retrato de mulher (1) Olhos d'esmeraldas. Boca de rubis com pérolas dentro. Que bela grinalda como eu nunca vi, mesmo quando invento. Caem-lhe os cabelos em cascatas de ouro. A ternura, ao vê-los, transforma-se em choro. Assomam-lhe os seios sob as vestes brancas. Que ardentes enleios sugerem as ancas!... Tem a ligeireza da branca açucena. Porte de princesa esbelta e serena. Um doce sorriso percorre-lhe o rosto. Frescura de rio num dia de Agosto. Sob as sobrancelhas arde sem queimar o brilho d'estrelas que há no seu olhar. Vê-la é um privilégio de poucos mortais, Tem o sortilégio das mulheres fatais. Mas é tão ingrato ser-se bela, assim! É só um retrato... Moldura em marfim. Sede Ah! Quanta sede me atormenta, Com tanta água à minha volta... Quando é que a minh'alma sedenta Sacia, enfim, toda a revolta? Revolta, sim! Que não mereço De Tântalo, o suplício eterno, Pois já paguei um alto preço Pela descida aos meus infernos. Já bebi, do cálice o fel Que a vida me serviu. Tão cheio! Quero agora o sabor do mel Na minha boca. Sem receio. Estou farto de apenas olhar De longe, qual pobre faminto, Tanta iguaria, sem provar O gosto que nelas pressinto. Quero tomar lugar à mesa Dos filhos dilectos da vida; Nem que seja só p'ra surpresa De quem me levou de vencida. E vós, inibições das minhas trevas, Vinde comigo par'o banquete! Basta de tantas ânsias cegas. Basta de miséria, o ferrete. Vem ilusão ! Não perturbem este momento breve! Quero ouvir a música docemente, A embalar-me a alma calma e leve, Sem nada a ensombrar a minha mente. Deixai que estenda a mão em gesto lento E afague com meus dedos a miragem Que à noite, pontual, surge com o vento, Rasgando as trevas com a sua imagem. Eu sei que és falsa, ténue ilusão! Mas irradias tão suave calor Que aqueces o meu frio coração. Quem dera que fosse botão de flor Que abrisse aos raios do Sol de verão P'ra nele entrar por fim, doce, o amor.
|
