Espelho de três reflexos

Luís Filipe Gonçalves Cardona - Poesia

Espelho de três reflexos

"Todos nós somos espelhos
de variados reflexos..."

Ainda não morri !
    Ainda não morri!
    Embora todos os dias
    morra um pedaço
    e seja cada vez mais duro
    o esforço que faço
    para me manter inteiro,
    direito,
    ainda que imperfeito.

    Ainda não morri!
    Mas todos os dias faleço
    quando tomo consciência
    dos cruéis e ignóbeis preços
    que se pagam à demência
    prá conquista do poder,
    do dinheiro,
    da vaidade,
    do prazer,
    da exaltação do egoísmo,
    descarado e sem pudor
    ou mascarado de altruísmo.

    Ainda não morri!
    Mas vou-me sentindo um estranho,
    derivando neste mundo.
    Não por achá-lo imundo,
    mas por nele ter mergulhado
    completamente nu,
    desprovido de escudo
    da minha salvaguarda.

    Ainda não morri!
    Mas, dia a dia, é mais árdua
    tão erecta caminhada...

Aquilo que me domina

    Aquilo que me domina,
    Mas que às vezes me anima,
    É um fogo interior que me consome,
    Dia a dia. Hora a hora. Como a fome.
    Fogo lento e corrosivo
    Mas cujo resíduo
    Não é 'inda a cinza;
    Mas apenas um carvão negro e disforme
    À espera que o vento sopre e o transforme
    Numa brasa ardente e rubra,
    Até que eu mesmo descubra
    Que afinal se não finou, de todo, a Vida.

Depois do Natal

    Pronto. Acabou-se.
    Lá se foi mais um Natal...
    Trocámos prendas
    com sorrisos e abraços.
    Mandámos as boas festas
    como é tradicional.
    Pensámos nos probrezinhos
    (coitadinhos!...),
    mas enchemos as barrigas,
    os olhos e os regaços.

    Já podemos estar tranquilos:
    Cumprimos a tradição
    e aplacámos a consciência.
    Podemos voltar aos estilos
    de vida de agitação,
    egoísmo e violência.

    Tirámos a máscara da fraternidade.
    Trocámos o sorriso pelo rosto duro,
    as palavras doces pela crueldade.
    Entre nós e os outros foi reposto o muro
    do frio orgulho e da torpe ruindade.

    Mas pró ano cá estaremos
    a cumprir o ritual.
    Nessa altura voltaremos
    a usar, de forma igual,
    as máscaras do carnaval
    atrás das quais escondemos
    os sentimentos enfermos
    pela febre do consumo,
    mais efémero do que o fumo.

Eu pecador me confesso

    Eu, pecador, me confesso
    Das palavras sem sentido,
    De tantos actos sem nexo,
    De tanto tempo perdido.

    Eu, pecador, me confesso
    Dos prantos que fiz brotar
    Quando em irados excessos
    Violentei o verbo amar.

    Eu, pecador, me confesso
    Pela minha impaciência
    Contra quem não tem ingresso
    Na minha benevolência.

    Eu, pecador, me confesso
    Por não querer (ou, não saber)
    Exercer no tempo certo
    As primícias do prazer.

    Eu, pecador, me confesso
    De m'evadir da ternura
    Tanto mais quanto mais perto
    De quem, em vão, me procura.

    Eu, pecador, me confesso
    De não saber reagir
    Ao sentimento do tédio
    E à falsa fé no porvir.

    Eu, pecador, me confesso
    Pela falta de bom senso
    Quando, por vezes, m'esqueço
    Daquilo que sinto e penso.

    Eu, pecador, me confesso
    Pela falta d'humildade
    Com que fruo do sucesso,
    Fruto da minha vontade.

    Eu, pecador, me confesso
    Da minha falta de jeito
    P'ra manter em alto apreço
    Amizades com defeito.

    Eu, pecador, me confesso
    Não pelo mal qu'exerci,
    Nem por ter sido perverso
    Mas pelo bem que omiti."

Eu sou a voz que clama no deserto

    Eu sou a voz que clama no deserto
    da indiferença daqueles que não sonham.
    Desnudo-me e ofereço a céu aberto
    aquilo de que os outros se envergonham

    Mas ninguém me ouve. Ninguém responde.
    Só ouço ecos vazios de sentido.
    E esta fome de amor mais se me esconde
    nas dobras do coração já ressequido.

    - Ó áridos ventos que transportais
    no hálito sinistro dos infernos
    o selo inexorável do fracasso,

    levai convosco os meus versos banais,
    espalhai-os p'los espaços eternos
    e morra eu, imolado ao cansaço!

Recado ao amigo que nunca tive

    Meu Amigo tão ansiado:
    Já vou perdendo a esp'rança
    De ter-te, enfim, a meu lado,
    Tão longa é já a tardança.

    Tanta vez te procurei,
    Qual Diógenes aflito,
    Mas a lanterna que usei
    Tinha um brilho tão restrito...

    Vejo o tempo a extinguir-se
    E tu longe, sempre ausente
    Da minh'alma, a esvair-se
    Em nostalgia pungente.

    Não me olhaste nos meus olhos
    Procurando adivinhar
    A dureza dos escolhos
    Que fizeram o meu penar.

    Não tentaste suavizar
    A aridez do meu deserto
    Quando só, sem me cuidar,
    Da loucura estive perto.

    Não quiseste rir comigo
    Nos meus, tão raros, momentos
    Em que tinham curto abrigo
    As razões dos meus tormentos

    Não vieste ouvir, atento,
    Meus lamentos e queixumes.
    Deixaste que fosse o tempo
    A adoçar-me os azedumes.

    Não me deste a tua força
    Quando me vi vacilar,
    Como a assustadiça corça
    Ao sentir que a vão caçar.

    Nem sequer vieste secar
    Tanta lágrima vertida,
    Quando senti soçobrar
    A juventude traída.

    Não vieste tomar parte
    Na minha louca ansiedade
    Quando foi meu estandarte
    A luta p'la Liberdade.

    Meu amigo inexistente:
    Nunca mais terei sossego
    Pois que, morta, ainda sente
    A minh'alma o teu desprezo!...

Repulsa

    Pões sorrisos nos teus lábios de carmim
    Cheios de ávidos desejos de agradar,
    Sem dares conta que eu sei bem qual é o fim
    Que pretendes, com tais jeitos, alcançar.

    São tão falsos e tão vis os teus intentos
    Que nem mesmo a sedução t'os dissimula.
    Não t'iludas quanto aos meus bons sentimentos
    Pois nem sempre quem mais cuida, bem calcula.

    A elástica consciência sem moral
    E as falhas mais sensíveis da memória
    São, dos reles e dos tolos, apanágio.

    Vai-te pois pr'a sempre embora, ó ser venal!
    Não suporto a ostentação dessa vanglória
    Nem eu quero em mim sentir o teu contágio.

Retrato de mulher (1)

    Olhos d'esmeraldas.
    Boca de rubis
    com pérolas dentro.

    Que bela grinalda
    como eu nunca vi,
    mesmo quando invento.

    Caem-lhe os cabelos
    em cascatas de ouro.
    A ternura, ao vê-los,
    transforma-se em choro.

    Assomam-lhe os seios
    sob as vestes brancas.
    Que ardentes enleios
    sugerem as ancas!...

    Tem a ligeireza
    da branca açucena.
    Porte de princesa
    esbelta e serena.

    Um doce sorriso
    percorre-lhe o rosto.
    Frescura de rio
    num dia de Agosto.

    Sob as sobrancelhas
    arde sem queimar
    o brilho d'estrelas
    que há no seu olhar.

    Vê-la é um privilégio
    de poucos mortais, Tem o sortilégio
    das mulheres fatais.

    Mas é tão ingrato
    ser-se bela, assim!

    É só um retrato...
    Moldura em marfim.

Sede

    Ah! Quanta sede me atormenta,
    Com tanta água à minha volta...
    Quando é que a minh'alma sedenta
    Sacia, enfim, toda a revolta?

    Revolta, sim! Que não mereço
    De Tântalo, o suplício eterno,
    Pois já paguei um alto preço
    Pela descida aos meus infernos.

    Já bebi, do cálice o fel
    Que a vida me serviu. Tão cheio!
    Quero agora o sabor do mel
    Na minha boca. Sem receio.

    Estou farto de apenas olhar
    De longe, qual pobre faminto,
    Tanta iguaria, sem provar
    O gosto que nelas pressinto.

    Quero tomar lugar à mesa
    Dos filhos dilectos da vida;
    Nem que seja só p'ra surpresa
    De quem me levou de vencida.

    E vós, inibições das minhas trevas,
    Vinde comigo par'o banquete!
    Basta de tantas ânsias cegas.
    Basta de miséria, o ferrete.

Vem ilusão !

    Não perturbem este momento breve!
    Quero ouvir a música docemente,
    A embalar-me a alma calma e leve,
    Sem nada a ensombrar a minha mente.

    Deixai que estenda a mão em gesto lento
    E afague com meus dedos a miragem
    Que à noite, pontual, surge com o vento,
    Rasgando as trevas com a sua imagem.

    Eu sei que és falsa, ténue ilusão!
    Mas irradias tão suave calor
    Que aqueces o meu frio coração.

    Quem dera que fosse botão de flor
    Que abrisse aos raios do Sol de verão
    P'ra nele entrar por fim, doce, o amor.