Ao Sabor da Roda

Luís Filipe Gonçalves Cardona - Poesia

Ao Sabor da Roda

"Aos Meus Companheiros do Rotary Clube de Leiria"

    Mais uma volta completa
    Rodou a roda dentada.
    Este livro é só a meta
    Que por vós me foi marcada.

    Do Autor

18 de Janeiro
    (Aos Marinhenses que em 1934
    jogaram as vidas num sonho)



    Cavalgaram nas asas do sonho,
    Rumo ao norte das suas bandeiras.
    Um país mais liberto e risonho
    Era a meta das suas canseiras.

    Nessa noite rasgaram as trevas
    Qu'envolviam as suas esp'ranças.
    Numa entrega total, sem reservas,
    Perseguiram ansiadas mudanças.

    Mas foi luz que logo s'extinguiu
    Agravando-se o jugo servil
    Sobre aqueles que o sonho iludiu.

    Felizmente, na manhã hostil,
    A semente que então subsistiu,
    Germinou e floriu em Abril.

    1986

À Mulher


    Ó mãe, esposa, amante, irmã e amiga!
    Eu curvo a minha fronte em teu louvor
    E peço ao céu que nunca mais se extinga
    A fonte original do teu amor.

    És como a terra fértil em pousio
    À espera do arado que a revolva.
    Fremente dos ardores em pleno estio,
    Anseias por raízes que te envolvam.

    Imolas no altar do sacrifício
    A dor de mil angústias feitas grito
    E a carne macerada plo silício.

    Mas mesmo sofredora és sol de aflitos
    Que buscam o calor e o benefício
    Da vida que há no teu ventre bendito.


    8 de Março de 1986

Ai as férias


    Ai as férias!... Tão ansiadas... Incensadas.
    São o sonho de quem vive o ano inteiro
    Mergulhado na rotina envergonhada
    Como à espera que se acabe o cativeiro.

    Porta aberta pra sonhadas aventuras,
    Eis que chegam em manhã de sol ardente,
    Convidando os mais sisudos às loucuras
    Que uma vida pobre e triste não consente.

    Mas é luz que pouco dura em céu sereno,
    Qual foguete d'artifício em romaria
    Que depois de apagado é de somenos.

    «Pró ano há mais!» (Optimista eu me diria)
    Mas pró ano temos nós um elo a menos
    Na corrente desta vida fugidia.


    1985

Amigos


    Amigos? Poucos tive em quantidade.
    De fina qualidade apenas um.
    E esse, dada a sua identidade.
    Comigo se confunde e é nenhum.

    Serei assim tão mau que não suscite
    O belo sentimento da amizade?...
    Aceito que talvez pouco me aplique
    E perca, sem o querer, a habilidade.

    Então qual a receita do sucesso
    Que outros mais felizes do que eu
    Conseguem num assunto tão complexo?

    Que alguém me diga, já, onde aprendeu
    A ver em outros olhos o reflexo
    Daquilo que de bom o céu lhes deu!


    1986

Companheirismo


    Passo a passo cada um faz a jornada
    que o destino lhe traçou quando nasceu.
    Solitário o seu caminho é quase nada
    pois seu braço nunca deu nem recebeu.

    Mas se todos fossem menos egoístas
    quanto bem, mais valioso que o dinheiro,
    semeariam nas veredas pessimistas
    onde é inútil procurar um companheiro!

    Dar a mão a quem de nós se avizinha.
    Fazer nosso o seu projecto de mudança.
    Dar alento e força a quem já não caminha...

    São, eu creio, os fundamentos da esp'rança
    que há-de encher o coração que adivinha
    que a própria paz é nos outros que se alcança.


    4/7/85

Decadência


    Quando um homem chega à beira dos cinquenta
    Dá início a um processo de pesquisa
    Na procura rigorosa, crua e lenta
    Das mazelas que a idade realiza.

    Pois um dia alguém tão velho como eu
    Confessou e o seu desgosto por ser calvo.
    Realmente o seu cabelo desapareceu
    Só ficando, atrás e ao lado, algum a salvo.

    Na intenção samaritana de o animar
    Disse a rir que visse a parte positiva
    Pois ganhava o tempo gasto a pentear.

    Ele olhou-me numa forma pensativa
    Respondendo que ora tinha de lavar
    Uma cara mais comprida e aflitiva.

    1986

Lamento e súplica dum rio moribundo


    Eu sou um rio que foi feliz
    Nos tempos idos da juventude.
    Nas minhas margens o Rei Dinis
    Viveu amores em quietude.

    Haviam peixes de cores brilhantes
    Nas minhas calmas e limpas águas.
    Toda a saudade do que fui dantes
    Cavou mais fundo nas minhas mágoas.

    Já não sou Liz, nem por capricho.
    Já não atraio jovens amantes.
    Em vez de peixes tenho lixo.

    Ó vós que vêdes, agonizantes,
    As sujas margens em que me anicho,
    Dai-lhes a vida que tinham dantes!


    1985

O meu presente de Natal


    Eu qu'ria desta vez que o meu sapato
    Que ponho sobre a negra chaminé,
    Tivesse a contextura e o formato
    Dum jovem coração cheio de fé.

    E quando o Pai Natal me visitasse
    E visse o coração a palpitar,
    Talvez se comovesse e me deixasse
    A prenda que eu mais qu'ria conquistar.

    Tal prenda tem valor inestimável,
    Pois nesta sociedade apodrecida
    A escala dos valores é miserável.

    Assim, eu qu'ria dar maior guarida
    A esse amor mais calmo, terno e estável
    Que desse outro sentido à minha vida.


    Natal de 1985

O vício de maldizer


    Já toda a gente sabe que os barbeiros
    Possuem raros dons de palradores.
    Alguns são maldizentes e brejeiros
    Que assim matam o tempo e os rancores.

    Pois um desses barbeiros que eu conheço,
    Sofrendo duma intensa verborreia,
    Virava a vida toda do avesso
    A quem lhe ocupasse antes a cadeira.

    E assim lá vão passando p'lo seu crivo,
    Ofensas, diatribes, reprimendas,
    Às vítimas do seu fel tão corrosivo.

    E quando já não tem quem o atenda
    Remira-se ao espelho e, reflexivo,
    comenta: «Tu também és boa prenda.»

    1985

Quiproquó


    Quando há dias um poeta conhecido
    Pela veia chocarreira e repentista
    Foi instado por um público pedido,
    Fez a quadra qu'em seguida se regista:

    «Fui à praia e num segundo
    Enverguei os meus calções
    Logo o mar pouco profundo
    Encharcou os meus joelhos.»

    Uma dama que, atenta, o escutava
    Espantada olhou pra ele e redarguiu
    Que tal quadra estava errada. Não rimava.

    Logo o vate, calmamente, retorquiu
    Que a causa de tal facto o ultrapassava
    Pois a culpa é da maré, que não subiu.


    1985

Ri !...


    Ri! E todo o mundo rirá contigo
    Chora! E acabarás a chorar sozinho.
    Boémio? Contarás muitos amigos.
    Sisudo? Ficarás só, no caminho.

    Como vês, ninguém suporta as coisas sérias
    Nem sequer ouve os lamentos da tristeza.
    Para os outros o que dizes são só lérias
    Que se perdem nos seus muros de frieza.

    Dá-lhes risos e motivos de prazer
    Mesmo à custa do que julgas importante
    Ou daquilo que seria o teu dever.

    Achas isto pouco nobre e humilhante?
    Mas que podes, contra isso, tu fazer
    A não ser abrir, sem qu'rer, o teu semblante?...

    1986