Poesia
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| Viagens Truncadas |
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Luís Filipe Gonçalves Cardona - Poesia Viagens Truncadas - (em tempo de espera) " A todos aqueles que já se julgam de horizontes fechados " Aos vidreiros da Marinha Grande- Quantas fábricas fechadas? - Quantas vidas ao acaso? - Quantas famílias desesperadas? - Quantos salários em atraso? Vejo-vos lá perfilados, Irados, determinados. Rostos crispados, Punhos cerrados. Enfrentando as viseiras, Os escudos e os bastões. As balas verdadeiras, As pancadas, empurrões. É uma cólera sem ódio Que vos chispa no olhar Cansados, Desesperados Quereis apenas garantido O direito elementar Ao trabalho, construído Sobre a luta e o penar Doutros homens como vós, Que sofreram e morreram Sem lhes calarem a voz. Vejo-vos a palmilhar Quilómetros d'estrada nua, Numa forma singular D'exprimir a vossa luta Pelo salário adiado, Pelo pão que vos é negado, Pela justa garantia Do sustento, dia a dia. E eu? E tu? Que fazemos?... Seguimos, comodamente, O jornal que lemos A Têvê que vemos, Numa atitude ausente. Pois não é minha nem tua A carne dessa gente A quem sobra a rua E sofre agressões, Impotente. Por enquanto tenho emprego. Garantido tenho o pão. Estou aqui no aconchego Duma boa posição. O que eu tenho não consola Nem a ira vos atiça, Pois não qu'reis qualquer esmola. Tendes fome é de justiça. Mas na minha consciência... Dói a angústia da impotência... Resta-me a ingrata missão De ser vossa testemunha E clamar por atenção Prá dor que vos acabrunha. Verto assim amor e pena Neste meu banal poema. Solidário sou Da vossa sorte nefasta. Mas... isso não basta! Recado em jeito de herança - Ouve, Meu Filho! Dá-me a tua mão e vem. Sobe comigo àquele monte. Quero mostrar-te o horizonte. Espera! Não olhes ainda. Eu sei que os teus olhos Só querem ver para diante; Mas peço-te apenas um instante Para olhares comigo lá para trás. Repara! Essa faixa que vês a teus pés E se perde, lá longe, na bruma dos montes, É o caminho que o teu pai já percorreu. Vê como é sinuoso e acidentado!... Lança os teus olhos até ao extremo! Vês aquelas manchas acinzentadas?... São areias calcinadas E troncos de árvores ressequidas. Não vês regatos de águas cristalinas Nem prados verdes com flores multicolores. Só aridez. Só desolação. Foi assim a minha infância E, também, a adolescência. Olha agora, mais para cá! Ali, naquela garganta De escarpadas e nuas rochas E terras inóspitas, Onde só há cardos e abrolhos, Vivi eu a solidão... Aos meus gritos Só os ecos respondiam. E as carícias Só espinhos m'as faziam... Aqui foi o meu «Gétsemani»! Aqui bebi, até ao fim, O meu cálice de fel... Fixa os teus olhos mais para ali Onde, contra o baixo e negro céu, Pesado de grossas nuvens, Se perfilam dois troncos de árvores, De ramos abertos, como cruzes. Num deles fui imolado à doença. No outro, sofreu tua Mãe A mesma sentença. Esse foi o nosso «Gólgota». Mas repara! Do negro céu Desde um luminoso raio, Que atravessa o negrume de breu E poisa nos braços abertos Das cruzes do nosso calvário. Aqui, a carne sofreu o auge... Mas deixou de ser solitária A dor que nos possuiu. Começa aqui a nossa redenção De que tu foste a máxima expressão... Olha como a partir daí Muda, à tua frente, a paisagem! Embora dura e acidentada Não é já hostil e árida. É verde o chão, As flores são rubras, Já cantam fontes e regatos. Já voam aves. Já o Sol sorri. E por aqui, Neste lugar mais tranquilo, Tua Mãe e eu Fizemos o nosso abrigo. E tu nasceste!... Eis-te, agora, aqui comigo Prestes a tomares o teu rumo... Chegou, enfim, a hora para olhares defronte. Fixa os teus olhos no horizonte! É lá o teu futuro. Vê como é resplandecente! Tão diferente Do horizonte donde eu vim... Assim é o futuro da Juventude. Eis a tua meta, o teu fim. É teu. Em toda a sua magnitude. Mas... atenção! Não te iludas. Para atingires o horizonte Tens de construir a tua ponte. E a tua ponte é o teu caminho. Mas esse, ainda o não vês Nem sabes como é. Descobri-lo-ás pouco a pouco, À medida dos teus passos. Suplico ao céu Que seja melhor que o meu... Ouve, porém, um aviso: Nada vai ser fácil. Tens de lutar para mereceres a Vida. Terás os teus «gétsemanis». (Talvez o teu calvário) Terás também uma cruz. Perderás de vista, algumas vezes, A radiosa luz Do teu Horizonte. O desalento fará pender a tua fronte. Então, Meu Filho! Não desesperes. Volve os teus olhos para trás E, sobre este monte, Ver-me-ás Atento, premente e vigilante, Como um farol de luz Bastante, Para te dar, de novo, a esperança E a perdida confiança Nos teus sonhos de menino. E agora vai, Meu Filho, Vai, Meu Filho... Solidão Era uma tarde de fim de verão Daquelas em que o sol teima em despedir-se Numa escandalosa ostensão De calor e brilho, a exibir-se Como a querer ficar mais desejado Na hora em que está prestes para ir-se Estavas sentada na mesa da esplanada Mexendo, absorta, a bica solitária Como se quisesses dissolver em nada Os fantasmas negros da solidão Que a tua viuvez de poucos anos Multiplicou e tornou insuportáveis. Rejubilaram, ao ver-nos, os teus olhos Como náufragos em busca de socorro. Ouvimos claramente o teu apelo, E demos-te as mãos cheias de zelo. Jorraram-te as palavras em torrente, Como as águas reprimidas pelo dique Que a pressão esboroa num repente. Vimos nos teus olhos a névoa do pranto A querer derramar-se das tuas mãos. Falaste. Falaste muito. Da casa que habitas com ninguém, A não ser os cães, A quem chamas bichos. Do filho que casou E olvidou a mãe. Da filha que escolheu viver sozinha Lá longe, na grande cidade E te visita quando tem necessidade. Do marido, que a pungente saudade Transformam no pólo do desespero. E as palavras iam-te fluindo Ora lentas e trémulas de comoção, Ora ríspidas e agressivas, num infindo Ressentimento pela ingratidão Daqueles que nos tempos da bonança Te abriam os braços e as portas E que agora, num egoísta e cruel mudança Se afastam porque já não lhes importas. E fomos imaginando, penosamente, As tuas infindáveis noites brancas. Os teus amanheceres, sempre iguais (Pra quem sol ou chuva é indiferente) As mudas refeições sempre frugais E o tempo a passar à força de alavancas Declinava a tarde em calmo enlevo Quando, por fim, nos separámos. Mas antes teimaste em dar relevo Áquelas breves horas que passámos Grata e comovida agradeceste Os raios de sol quente e luminoso Que fomos, no teu dia tão cinzento. Que este meu poema, que não invento Mas construo com a tua solidão - E o calor da nossa humana condição - Prolongue esse inefável momento Que a nossa fraterna comunhão Te deu como doce, mas parco, alimento... Sonho de um dia de Verão Ainda um dia hei-de embarcar num branco e ágil veleiro, vendo as ondas a passar sob o seu casco ligeiro. Ao chegar ao alto mar, sob um céu azul de anil, verei gaivotas voar em liberdades de Abril. Pedirei, então, ao vento - que, suave, enfuna as velas - que me leve o desalento e me livre de mazelas. Nessas águas de veludo banharei as minhas dores; e depois de lavar tudo findarão os meus temores. Ficarei, assim, à espera no mar vasto e céu profundo, que se cumpra a vã quimera que me chama de outro mundo. Belas ninfas e sereias surgirão à minha volta que, em doces melopeias, formarão a minha escolta. Usarão longos cabelos sobre os rostos de marfim. Nos seus olhos mil estrelas brilharão, todas, pra mim. Moverão, concupiscentes, os seus corpos ondulantes. Jorrarão néctares ardentes dos seus seios excitantes. Estender-me-ão as mãos em sorrisos e convites. Perderei a reflexão e a noção dos meus limites. Sairei, pla borda fora, atrás delas, sem pensar se é boa ou má a hora ou se nunca irei voltar. Serei mais um suicida numa aventura fugaz?... Perca eu assim a vida mas alcance, enfim, a paz! 33 De óculos escuros E bordão na mão, Subiu os degraus Sem um tropeção. Dirigiu os passos Aos bancos da frente, Todos ocupados Por «válida» gente. Ao aperceber-se Da ocupação, Na sua voz forte Tomou posição: «- Segundo o Decreto-Lei Número tantos de tal, Um desses lugares é meu, Convido, pois, um de vós A ceder o que não é seu!» O tom duro, claro e determinado Ficou a ressoar no autocarro, Perturbando a mente e os ouvidos De quem pensa ainda Que o ceguinho É o coitadinho Da velha esquina, A pedir esmola Tocando a viola Ou a concertina.
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