Antologia do silêncio

Luís Neto - Poesia

Antologia do silêncio

"Eis o silêncio por dentro.
No amor, no ódio, na liberdade,
na opressão, na vida e sobretudo mais distante:
O movimento do pensamento,
o espaço/tempo, o espirito,
o Princípio e o que mais queiram ver nele.

Poemas de fins de 70 até 1984."

Campos de silêncio
    Campos de silêncio
    Com árvores carbonizadas
    Almas fortes derrotadas
    Um futuro sem tempo.
    Os desertos esquemáticos
    Os esqueletos carbónicos
    Impragmáticos;
    E eis que surge um poema desgarrado
    Falando de azul e decide
    Um poema ainda quente
    Arremessa a verdade
    Na inutilidade
    Superveniente da lide.

O medo da morte mata

    O medo da morte mata:
    Há o tempo.
    O tempo mata o silêncio.
    A resistência ao tempo faz -
    - Nos criar
    Cabelos brancos (simples),
    Hérnias, as varizes, as colunas
    Vertigem
    A loucura talvez
    Me faça feliz oposto ao silêncio.


    E esqueço tanta vez
    O Real-Deus-Silêncio-Tempo
    E penso o absurdo-material;
    Os cifrões ainda
    Obsidiam.

O tempo feito escudo

    O tempo feito escudo
    O escudo-tempo, extracto
    Do rosto sem resposta
    Quando submergido
    Inflecte mudo o rato prova
    Um maço agora roído.
    Os ratos sobem engordam na curva
    Da inflação.

    É o tempo no pó surdo
    No escudo no uso
    Como o passeio polido no chão.
    Mas como Ele disse "a traça
    E a ferrugem - tudo consomem:
    Olhai as aves do céu que nem
    Semeiam nem segam nem ajuntam".

    Não resiste à traça o vilão
    Só o silêncio resiste
    Ao substracto do tempo.

Deixa o poema em paz

    Deixa o poema em paz
    - Aqui tens:
    Conforto moral,
    Notas, cheques quantos quiseres.
    Aqui tens:
    Protecção garantida
    Toda a hora, toda a vida
    Uma casa, toda a rua
    E até a sol sorri só para ti.
    Aqui tens
    A conveniência de não pensares,

    Deserta de silêncio do poema
    Não espremas a gema desse tema
    O cerco teu, o esterco,
    Instala o fácil no subconsciente,
    Prende a vida no círculo contorna
    Se um português
    Que vê TV que lê
    Mas nunca aprendas a raciocinar.
    Procura um campo e caga
    Livre do papel higiénico
    Lendo um jornal de pernas para o ar.

O silêncio caminha agora sobre

    O silêncio caminha agora sobre
    Um pedestal dourado
    Em cima de ombros largos e musculados
    Veste de azul celeste e estrelas de prata.
    Profundo este silêncio é Deus na sua antogenia.
    E para cá chegar teve de rasgar
    As membranas do tempo
    Subir à terra entrar na cidade
    De muros à volta e muitos tiveram logo
    De o apedrejar e de lhe escarrar.
    Sofreu por nós no espaço e no tempo
    Das três dimensões prisioneiro
    Até que veio por fim a sua liberdade
    Enquanto nós ficamos
    Acontecemos
    No espaço e no tempo de acontecer.


    E eu caminho deixo os pés saírem de mim
    Neste circuito serpenteio o tempo
    Esmagado
    Sob um silêncio pesado. Continuo
    À espera do mesmo rio azul Absoluto
    Que há-de inundar as margens de mim que procuro
    A esperança residual
    Nas fronteiras do imaginário.

Havia um brilho nos olhos

    Havia um brilho nos olhos
    Havia um Deus quase desvendado
    Quase ao alcance havia uma esperança,
    Um sinal mudou num semáforo
    E o fado
    Duma criança..
    Havia uma mulher, menina, amante, e mãe
    Sem idade
    Havia uma mulher encaixilhada numa janela
    Havia sempre a mesma saudade
    Duma janela.


    Havia olhos a sair das folhas da árvore
    Com pernas e ânus pendurados
    E olhava de longe
    Essa imagem misturada
    Com calções enlameados
    Na água estagnada.


    E tinha uns dedos e um espaço
    Os teus braços .
    Canaviais fustigando o vento
    Os teus braços meu porto de abrigo.
    Houve um sinal que mudou o tempo
    E o silêncio
    Houve um grito de amor interrompido
    Que entrou nos sons do mar sem raiz
    Deixando a garganta rouca.
    - Cantai os meninos do meu país:
    A glicose do pão na boca.

Há um dia espelho que sou eu

    Há um dia espelho que sou eu
    Um dia com manhã cheia de sol e espera
    Por dentro do silêncio por dentro.

    Na tarde colho até ao poente
    A dádiva com rizomas saindo à flor da pele
    A dádiva que celebro à noite

    A noite que vai dar
    Ao dia sem espelho
    Ao outro dia que não é senão
    O meu dia a dia.

    Foi um dia e pelos outros vivo
    E por esse vivi tantos na esperança
    Bocados de mim desde criança
    Bocados de mim cativo
    Com poemas de sol ilícito na noite
    Com a transformação silente
    Da minha raiz.
    Quero um dia metalizado a todo o sol
    Ferido obliquamente no mostrador dos relógios
    Sem um verso nem lei nem ritmo
    De poesia muito menos e assim
    Amar duma só vez
    E não mais ter uma saudade
    Não ficar
    Com mais nada de mim para dizer
    Num outro silêncio renascer.

    Nem dias nem meses nem tempo
    Ou silêncio ou o verbo ser
    Não quero mais assim permanecer.
    Eu vivo
    Porque era um soldado que dizia:
    Eu quero morrer de combater.

Anoitece o silêncio

    Anoitece o silêncio
    Dói o tempo e o espaço
    Tarda a luz a transformar
    O meu sorriso.. a o mar
    Arrasta a esperança desfeita
    Ficando agora apenas eu
    Na areia.

    Alguém chama por mim
    No limite da sombra e o começo
    Da sombra do silêncio.
    Por agora fico aqui!
    Não me gritem mais daí!
    Por agora fico aqui
    Só eu
    Entre mar e céu
    E o sonho que alguém me deu.

O silêncio por dentro

    O silêncio por dentro
    Em si mesmo
    O silex do pensamento.
    O silêncio constrói
    Faz e desfaz na circunstância,
    Dói no momento.
    E fala grita sai
    Na rua do sol na penumbra do tempo.
    Sobe aos teus olhos para beijar,
    Contigo sabe falar.
    Quando me foge
    Logo o persigo
    E nunca digo:
    Acaba hoje.

Só a tua desordem de sair

    Só a tua desordem de sair
    Com estrelas pela boca punhais
    Suaves no corpo raios de sexo
    Electrizando quase, lento
    Com os olhos activos cristais
    Dedos acumuladores respirando pedindo.

    Só essa desordem. Sair.
    Sujar o acetinado do teu corpo.
    Uma desordem que é uma ordem
    Com silêncios e dedos por dentro
    Com poros erectos tácteis
    Corpos dentro do corpo,
    Com pontas de fogo
    Irrigadas de plasma
    A aura que se expande contra
    O corpo em doce enleio
    Um assomo impertigante e cáustico
    Dado
    Ao fluxo esponjoso e cândido
    Do outro corpo nu
    e cheio.

Este silêncio roi

    Este silêncio rói
    As tripas da terra
    Este silêncio rói por dentro
    Vive nos rodízios no solstício
    Entrelaçado no pensamento
    Indeciso.

    Aparece na gente de olhar dúbio
    Em sítios onde mijam cães
    Destrói convenções, a ética
    (Por tudo onde se mete)
    Percorre em progressão geométrica
    Os fosfatos, os sulfatos, o urânio 137,
    Este silêncio que nos submete.

Da explosão inicial fez-se luz

    Da explosão inicial fez-se luz
    Hoje a morte está prestes rente ao chão.
    Vejo ou quem será que vê
    Eu um fluido já ou ainda perduro ?
    Um espaço neutro e total
    Que não se vê e tudo invade
    Catalítico
    Com cheiro de medo instalado.

    Não ouçam, não ouçam
    O terror deste silêncio
    Com que vos quero incendiar
    Não sejam tentados ao cheiro
    A zebre de grades ou musgo
    (porque eu ao acordar não agarrei o
    relâmpago do tempo).

    Eu repito:
    A explosão Inicial integrou o silêncio
    Fomos calcinados
    Formamos um ciclo.
    A repetição que não fora descoberta
    Entrou em nós
    E o caos que era bom deu lugar à ordem
    Expelindo faíscas de descontentamento.

Mulher que serpenteias na viela

    Mulher que serpenteias na viela estreita
    Com paredes cheias de roupa do teu povo
    Mulher de odor de sereia
    Ou serpente do mar.
    Mulher corpo na cal animal
    Assomo de branco sob
    Um madrigal de sete saias.
    Mulher duma manhã que se levanta
    Em branco azul e sol e sal
    E peixe indefinido
    Prata sobre carvão e lume e cal.
    Gordura suave sobre pedra
    Que se liberta no cantar
    Ovo de gema insatisfeita
    Animal de domar.

    Do -
    Mar.
    Do mar de não voltar.
    Mulher ondina e filha
    De lobo do mar.
    Maria-Mulher-Nazaré sabor.
    - Em ti naufragar.