Poesia
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| Antologia do silêncio |
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Luís Neto - Poesia Antologia do silêncio "Eis o silêncio por dentro. Campos de silêncioCampos de silêncio Com árvores carbonizadas Almas fortes derrotadas Um futuro sem tempo. Os desertos esquemáticos Os esqueletos carbónicos Impragmáticos; E eis que surge um poema desgarrado Falando de azul e decide Um poema ainda quente Arremessa a verdade Na inutilidade Superveniente da lide. O medo da morte mata O medo da morte mata: Há o tempo. O tempo mata o silêncio. A resistência ao tempo faz - - Nos criar Cabelos brancos (simples), Hérnias, as varizes, as colunas Vertigem A loucura talvez Me faça feliz oposto ao silêncio. E esqueço tanta vez O Real-Deus-Silêncio-Tempo E penso o absurdo-material; Os cifrões ainda Obsidiam. O tempo feito escudo O tempo feito escudo O escudo-tempo, extracto Do rosto sem resposta Quando submergido Inflecte mudo o rato prova Um maço agora roído. Os ratos sobem engordam na curva Da inflação. É o tempo no pó surdo No escudo no uso Como o passeio polido no chão. Mas como Ele disse "a traça E a ferrugem - tudo consomem: Olhai as aves do céu que nem Semeiam nem segam nem ajuntam". Não resiste à traça o vilão Só o silêncio resiste Ao substracto do tempo. Deixa o poema em paz Deixa o poema em paz - Aqui tens: Conforto moral, Notas, cheques quantos quiseres. Aqui tens: Protecção garantida Toda a hora, toda a vida Uma casa, toda a rua E até a sol sorri só para ti. Aqui tens A conveniência de não pensares, Deserta de silêncio do poema Não espremas a gema desse tema O cerco teu, o esterco, Instala o fácil no subconsciente, Prende a vida no círculo contorna Se um português Que vê TV que lê Mas nunca aprendas a raciocinar. Procura um campo e caga Livre do papel higiénico Lendo um jornal de pernas para o ar. O silêncio caminha agora sobre O silêncio caminha agora sobre Um pedestal dourado Em cima de ombros largos e musculados Veste de azul celeste e estrelas de prata. Profundo este silêncio é Deus na sua antogenia. E para cá chegar teve de rasgar As membranas do tempo Subir à terra entrar na cidade De muros à volta e muitos tiveram logo De o apedrejar e de lhe escarrar. Sofreu por nós no espaço e no tempo Das três dimensões prisioneiro Até que veio por fim a sua liberdade Enquanto nós ficamos Acontecemos No espaço e no tempo de acontecer. E eu caminho deixo os pés saírem de mim Neste circuito serpenteio o tempo Esmagado Sob um silêncio pesado. Continuo À espera do mesmo rio azul Absoluto Que há-de inundar as margens de mim que procuro A esperança residual Nas fronteiras do imaginário. Havia um brilho nos olhos Havia um brilho nos olhos Havia um Deus quase desvendado Quase ao alcance havia uma esperança, Um sinal mudou num semáforo E o fado Duma criança.. Havia uma mulher, menina, amante, e mãe Sem idade Havia uma mulher encaixilhada numa janela Havia sempre a mesma saudade Duma janela. Havia olhos a sair das folhas da árvore Com pernas e ânus pendurados E olhava de longe Essa imagem misturada Com calções enlameados Na água estagnada. E tinha uns dedos e um espaço Os teus braços . Canaviais fustigando o vento Os teus braços meu porto de abrigo. Houve um sinal que mudou o tempo E o silêncio Houve um grito de amor interrompido Que entrou nos sons do mar sem raiz Deixando a garganta rouca. - Cantai os meninos do meu país: A glicose do pão na boca. Há um dia espelho que sou eu Há um dia espelho que sou eu Um dia com manhã cheia de sol e espera Por dentro do silêncio por dentro. Na tarde colho até ao poente A dádiva com rizomas saindo à flor da pele A dádiva que celebro à noite A noite que vai dar Ao dia sem espelho Ao outro dia que não é senão O meu dia a dia. Foi um dia e pelos outros vivo E por esse vivi tantos na esperança Bocados de mim desde criança Bocados de mim cativo Com poemas de sol ilícito na noite Com a transformação silente Da minha raiz. Quero um dia metalizado a todo o sol Ferido obliquamente no mostrador dos relógios Sem um verso nem lei nem ritmo De poesia muito menos e assim Amar duma só vez E não mais ter uma saudade Não ficar Com mais nada de mim para dizer Num outro silêncio renascer. Nem dias nem meses nem tempo Ou silêncio ou o verbo ser Não quero mais assim permanecer. Eu vivo Porque era um soldado que dizia: Eu quero morrer de combater. Anoitece o silêncio Anoitece o silêncio Dói o tempo e o espaço Tarda a luz a transformar O meu sorriso.. a o mar Arrasta a esperança desfeita Ficando agora apenas eu Na areia. Alguém chama por mim No limite da sombra e o começo Da sombra do silêncio. Por agora fico aqui! Não me gritem mais daí! Por agora fico aqui Só eu Entre mar e céu E o sonho que alguém me deu. O silêncio por dentro O silêncio por dentro Em si mesmo O silex do pensamento. O silêncio constrói Faz e desfaz na circunstância, Dói no momento. E fala grita sai Na rua do sol na penumbra do tempo. Sobe aos teus olhos para beijar, Contigo sabe falar. Quando me foge Logo o persigo E nunca digo: Acaba hoje. Só a tua desordem de sair Só a tua desordem de sair Com estrelas pela boca punhais Suaves no corpo raios de sexo Electrizando quase, lento Com os olhos activos cristais Dedos acumuladores respirando pedindo. Só essa desordem. Sair. Sujar o acetinado do teu corpo. Uma desordem que é uma ordem Com silêncios e dedos por dentro Com poros erectos tácteis Corpos dentro do corpo, Com pontas de fogo Irrigadas de plasma A aura que se expande contra O corpo em doce enleio Um assomo impertigante e cáustico Dado Ao fluxo esponjoso e cândido Do outro corpo nu e cheio. Este silêncio roi Este silêncio rói As tripas da terra Este silêncio rói por dentro Vive nos rodízios no solstício Entrelaçado no pensamento Indeciso. Aparece na gente de olhar dúbio Em sítios onde mijam cães Destrói convenções, a ética (Por tudo onde se mete) Percorre em progressão geométrica Os fosfatos, os sulfatos, o urânio 137, Este silêncio que nos submete. Da explosão inicial fez-se luz Da explosão inicial fez-se luz Hoje a morte está prestes rente ao chão. Vejo ou quem será que vê Eu um fluido já ou ainda perduro ? Um espaço neutro e total Que não se vê e tudo invade Catalítico Com cheiro de medo instalado. Não ouçam, não ouçam O terror deste silêncio Com que vos quero incendiar Não sejam tentados ao cheiro A zebre de grades ou musgo (porque eu ao acordar não agarrei o relâmpago do tempo). Eu repito: A explosão Inicial integrou o silêncio Fomos calcinados Formamos um ciclo. A repetição que não fora descoberta Entrou em nós E o caos que era bom deu lugar à ordem Expelindo faíscas de descontentamento. Mulher que serpenteias na viela Mulher que serpenteias na viela estreita Com paredes cheias de roupa do teu povo Mulher de odor de sereia Ou serpente do mar. Mulher corpo na cal animal Assomo de branco sob Um madrigal de sete saias. Mulher duma manhã que se levanta Em branco azul e sol e sal E peixe indefinido Prata sobre carvão e lume e cal. Gordura suave sobre pedra Que se liberta no cantar Ovo de gema insatisfeita Animal de domar. Do - Mar. Do mar de não voltar. Mulher ondina e filha De lobo do mar. Maria-Mulher-Nazaré sabor. - Em ti naufragar.
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