Poesia
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Luiz-Manuel - Poesia Maquinais " Nem só um livro de poemas luminosos nos faz ver melhor; nem só um livro de poemas de amor nos pode comover; nem só um livro de poemas de intervenção nos transmite um juízo sobre ...." MÁQUINAS DE SOFRER O coração mal aparafusado 1 Na janela sem azul e sem vidraças Do meu coração há um espaço virtual Onde o poema torturante hesita E quase se esvai - como o raio de luz Que da tua candeia melodiosa se desprende Atravessando poeiras tempestades e negrumes Para se desfazer em carícias sobre a pele Ansiosa Nesse meu coração - um armazém Desarrumado - as teias de aranha Oscilam docemente ao luar E resistem à monotonia Gelada da idade madura. O fiel Do armazém enforcou-se na trave- -Mestra dos teus olhos - e já é cinza. 2 Esfolada a derradeira ilusão À porta fechada a sete chaves Do meu coração mal aparafusado Vegetavam caixotes de lixo Cheios de limalhas ferrugentas De arames farpados De cansaços. 3 Velho e nebuloso arquejando remoendo Fanatismo e solidão e outros desencontros Por arquivar o coração não pára nem Medita nem limpa as vidraças Que o separam das estrelas - o coração Ficou preso à roda carunchosa do Tempo E ainda não aceitou que haja estações Do esquecimento degraus da nostalgia Cabelos brancos e reumatismos. 4 Bom seria que a mulher (o homem?) Das limpezas viesse deitar mãos à obra Lavar as fachadas as vidraças os olhos Cegos dos pirilampos. Bom seria enfim Que o sofrimento cessasse que as alavancas Da memória deixassem de suscitar Tempestades. Bom seria que nos cemitérios Nunca mais houvesse fotografias a apodrecer E flores desbotadas. Bom seria talvez Que o poema tortuoso se fizesse nuvem Alada no céu azul. Mas a claridade É cruel e o espelho confirma o que Dizem teus olhos: na sala de aparato Fechada do meu coração mal aparafusado Já ninguém joga aos dominós ou às cartas Mas todos fazem batota - e mais que todos As emoções - jovens de mais graníticas De mais para a máquina cansada Do meu corpo onde metodicamente O poema abre caminho como o bicho Na madeira ou a broca no dente cariado. 5 Bom seria que a Morte (chamam assim O dono da carne pávida que sou) viesse Limpar esta estrumeira ou que a Primavera vestisse de seiva meu coração Petrificado que já dorme na ratoeira Do espanto há mais de dez mil anos (Ou meses? ou segundos?). Bom seria Que este caos suscitasse um arquitecto E que uma voz imperiosa nas trevas Nos desse ordem de avançar ou de Recuar ou de limpar o sebo aos carneiros Ou até de não usar preservativos. 6 Desliza nos teus olhos o navio fantasma Que em mim já naufragou. Meu coração Separou-se de mim - renunciou. Amanhã De manhã vou deitá-lo também para o caixote Do lixo e esquecer-me dele até à Primavera. 7 Mas quando chegar Abril arrepender-me-ei De já não ter coração e hei-de comprar Outro em segunda mão ou roubá-lo a um Sonhador qualquer ou a um guarda-livros: Sim é mais seguro um coração contabilista Capaz de dar balanço e de prestar contas Capaz de tudo - capaz até de amar. 8 Se te aparecer - às vezes caem não se Sabe bem de que nuvem perversa - Um outro coração mal aparafusado Tem cautela: é capaz de ser outra ratoeira Do destino outra capa vermelha para o touro Que julgas ser ainda. Se te aparecer disso Deixa ir por água abaixo o coração mal Aparafusado não digas nada a ninguém não Vás buscar a caixa das ferramentas não Tentes aparafusá-lo - isso é o pior Que podes fazer: tornas-te escravo Do coração mal aparafusado e acabas A vender ferro-velho nalguma aldeia Montanhosa infestada de lobos Desconcertantes. Se te aparecer Um coração mal aparafusado (macho Ou fêmea) foge para o Inferno e Nunca mais cá voltes. Nunca mais. (Luiz-Manuel) Pagar dívidas Incêndios que nos lavram sob a pele Exigem mais de nós: amortizámos Carnais investimentos - o prazer Mas esquecemos íntima hipoteca Do coração que angustiado hesita E tantas letras por vencer ainda Que o destino endossou e vem cobrar Com juro que amplifica o capital: Crédito mal parado - assim faliram As grandes naus que a calmaria ilude Naufrágio repetido - a lava esfria No sopé dos vulcões desalentados De basalto de pórfiro e granito Se reveste a memória: assim pagamos Com sangue e cinza as dívidas da infância (Luiz-Manuel) O advogado do lobo Socrate On dit, Phèdre, qu'il est juste de plaider même la cause du loup. Platon, Phèdre A metade do anjo que me habita Percorre lodaçais onde se aninha E a metade que falta não é minha: É de um cego que sonha e que medita Vai preso por um fio à solidão Sopesando presenças de outro eu O anjo que me habita quem mo deu? E quem me deu a sua escuridão? Se possuído sou já não resisto Já não quero voar no céu perfeito A minha infância é cinza no meu peito: Era de um lobo a pele que hoje visto (Luiz-Manuel) Subterrâneos Que angústia te possui? Que desvario te arrebata? Que abismo te devora? O mundo que te cerca faz de ti um prisioneiro - faz de ti uma prisão. Quem chora em ti? Que toupeiras frenéticas escavam teus jardins? * O prisioneiro geme - na sua prisão alada, nas algemas de lava, nos subterrâneos onde dormem as andorinhas. Nunca amanhece nele e nele há sempre tempestades, rios caudalosos, inundações, catástrofes - há sempre trevas. (Luiz-Manuel) Em vão Em vão poema é nuvem tempestade Em vão assim me olhas de través Em vão invocas pão e liberdade Em vão os santos tristes lavam pés Inferno ou Paraíso não se escolhem Já por nós decidiu a claridade Após chuvas que secam as que molhem Na espiral sem fim da divindade Em vão hei-de escrever as maldições Em vão abelhas voam e perecem Em vão existem grades e prisões Em vão há os que morrem ou padecem Deus o Diabo os Fados o Destino Levam-nos pela mão de olhos fechados Já ninguém sabe o que era ser menino No azul ardemos - mas agrilhoados Em vão tudo respira tudo esquece Em vão se é avarento ou perdulário Em vão há tanta estrela que arrefece Em vão floresce a hóstia no sacrário (Luiz-Manuel) Sei e não sei Um silêncio funesto exarou-se em mim: Só as mãos ainda respiram. Mas Sei inda um jardim onde repousam Ou fulguram diáfanos cristais. Sei mais: sei o berço do vento. Sei onde cresce o fulgente luar. Mas caboucos ruíram - o fel E o ódio apartaram-me da vaga. Edifícios. Longínquas solidões De entre betão e lumes afogados Na água sibilina das marés Já quando areias são mera utopia (Luiz-Manuel) Paranóia Suspeitamos do vento. Suspeitamos da mão que arremessava areias contra a luz que brotava - contra o futuro. Suspeitamos da ternura. Suspeitamos da excessiva propensão a que os poetas não resistem - gorada a rebeldia das palavras. Suspeitamos da eternidade. Suspeitamos das bruxas e das fadas e ainda mais das incertezas - dormimos sempre com as janelas fechadas. Suspeitamos da abundância. Suspeitamos de quem esbanjou murmúrios olhares emoções poemas - censuramos o grito que em nós habita. (Luiz-Manuel) Profissão de fé Pertenço à loba que me deu carinho Pertenço à noite que me deu ternura Pertenço ao mundo negro da loucura Pertenço à raiva que afoguei no vinho Pertenço ao gume torvo do punhal Pertenço às garras do leão faminto Pertenço ao ódio que nunca desminto Pertenço à fúria que há no vendaval Pertenço à mão que humilhou o jasmim Pertenço ao fogo aceso em cada espinho Pertenço à loba que me deu carinho Pertenço à morte que trafega em mim (Luiz-Manuel) Crepúsculos
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