Poesia
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| Maquinais - Máquinas da Memória |
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Luiz-Manuel - Poesia Maquinais " Eu sei, eu sei que tudo quanto escrevo MÁQUINAS DA MEMÓRIA Paisagens extraídas da memória (de mistura com reminiscências do José Gomes Ferreira, salvo erro. A menos que... )1 Como a galinha que põe um ovo assim cacarejando levantei voo com ternura nos dedos com nevoeiro nos cabelos com lama nos pés e no coração: foi bom ter sido posto um ovo. 2 Os galos andam por aí a brigar uns com os outros. O cão sopesa pulgas. O gato mede fantasmas. O poeta esgaravata no chão com os dedos ansiosos: à procura de pepitas e de tormentos. 3 Fui apanhar couves e dei-as aos coelhos: gostaram. E eu gostei de vê-los avidamente devorando a luz do sol que no couval tinha ancorado. 4 O porco grunhia afavelmente: ternuras recalcadas? Ou anseio de estrelas na lama do curral? 5 Lembro-me das nuvens, do quintal, das figueiras, lembro-me do vento nos pinheirais, a dizer que, mais tarde, haveria tempestades. 6 A chuva a urdir no telhado de telha vã músicas tão apaziguantes, já quando as andorinhas escavavam memórias setentrionais. Já quando os meus olhos acariciavam a curva adolescente dos teus seios ainda tímidos. 7 A galinha choca do meu coração por aí anda ainda - mas perdeu as penas, perdeu poleiros, perdeu o norte, já não come nem bebe, nem esgaravata no chão, nem dá bicadas na cal fina que separa os muros do sol arremessado, sem aladas ternuras. 8 As marés hão-de lavar cicatrizes que nas pedras deixaste, as marés hão devolver-te ao barco que já fostes - e agora jaz, vestido de corais e de remorsos, na água claustralina da memória naufragada. (Luiz-Manuel) Águas mortas Quem dispensava castigos e desterros Quando a água já não brotava nem gemia Na turbulência exasperada da memória? Quem? Quem? Quem assim mentia Em mim? Outra vez o balde desceu Ao poço fundo quase seco e não achou Matéria líquida com que regasse dolorosas Plantações que o exílio queimou. Mais uma vez a língua - tão ambiguamente Ameaçou descalabros e fermentações Impropérios pedras desvarios A esquecer-se de raízes fraternas Também assim as ancestrais nascentes Ou os ribeiros ou até as nuvens pálidas Hão-de explodir: sublinhar rupturas É sina hiemal da água que se esvai. Como se esvai o sangue e como ausente O coração suspira e desespera Já meramente absorto e confundido Por entre gelos matinais e obscuros. Calem-se os ventos respirem os granitos Sem lágrimas nem avalanchas: Ninguém bebeu da água que em mim surdia Nesse tempo de outrora sem naufrágios. (Luiz-Manuel) Comunicar Passam os anos permanece a ferida o desprazer o ódio. Na fogueira da memória a cinza sonha. Já a neve cintila. Foram mais de mil Invernos os que vivi antes de achar. A lua bate à janela: quer falar-me de outrora? (Luiz-Manuel) Pedras desarmadas Quantos planetas sou - acolhedores mas desertos e abismados esperando por gentes sonhando com jardins onde crescessem flores diferidas e arrulhassem pássaros amestrados? Quantos universos contenho nos meus olhos onde irrompem vendavais e recordações de fúria ancestral - o fogo em que ardi? Quantas certezas me habitam - já poeira e memória desfeita assim ausentes confrangedoramente reduzidas a mero desvario ou a silêncio? Os robôs que buscam e rebuscam por entre as estrelas já mortas nada sabem de mim - nada sabem de ninguém. Ajoelho-me perante a noite e as minhas mãos agora vão afiar as pedras do caminho - para servirem de punhais. Para servirem. (Luiz-Manuel) Fuga Banir a música - última parábola Contra o desespero - abolir o azul Absorto e tão longinquamente ameaçador Como a corda e a máscara do carrasco Proscrever jardins - acentuar rumores De Primaveras artificiais Quando a seiva antecipa O sacrifício límpido das flores Desterrar da memória os ventos Que levam areias e telhados Crescer abrir as portas do luar Inventar fermentos horizontes (Luiz-Manuel) Solidão Talvez a cotovia me desvende Um alvo por achar talvez a água De uma fonte secreta recomece A escoar-se em meu chão de pedra nua Mas se outro canto límpido ecoar Na catedral suspensa da memória Ninguém me resta para içar um grito No mastro sideral das nostalgias (Luiz-Manuel) Regressões Música havia mas absurda e triste Na fosca claridade da manhã A memória alheada que resiste Como o bicho afogado na maçã Veio indagar dessa ternura morta Que assistiu em teus olhos imprudentes Ao gesto louco que fechou a porta A tantas utopias dissidentes Chegou o dia de reconstruir Nos torvos estaleiros abissais Os toscos alicerces onde abrir Regressivas janelas ancestrais (Luiz-Manuel) O comboio apitava desaparafusar o movimento dos mecanismos que o luar excita cauterizar memória e sofrimento quando o comboio já tão longe apita na plataforma nua do teu rosto quedaram-se as imagens deformadas e o coração já nem bate a seu gosto emigraram as rosas desfolhadas já nunca mais aqui há-de embarcar a ternura o desejo a emoção ouve-se ao longe o comboio apitar há frio há gelo muita solidão (Luiz-Manuel) Inverno Tantos anos passaram - vegetamos Nas mãos fatais da Morte já esquecidos De impulsos ancestrais e de horizontes Onde inventar cidades e jardins Do fogo que eram nossas mãos aladas Só permanece a cinza - frialdade Que ascende em nós e jaz de pedra tosca Nos olhos tristes onde mora a noite Ancorámos no vento - o céu resiste A súplicas espantos ou canções E na água dormente apodrecemos Feitos de bruma de algas e de medos (Luiz-Manuel) Entre Mogadouro e Freixo-de-espada á Cinta Ó meu país de rugosa ternura De límpida ternura magoada País negro de nuvens e granitos De largos voos de alterosos gritos De ausências repetidas de loucura Onde esta noite ouvi chorar o vento Tão longe assim de ti me vou achar Mas no sangue que geme e na ruptura Ó meu país absorto de ternura Guardei vestígios negros de te amar E um tredo céu de espantos e nevões Nos meus olhos habita e vai crescer Lembro-me tão de ti ó serrania E lembro-me da noite e vou lembrar O dia e vou lembrar o tal amor Que no teu coração fiel ardia Ó país da ternura magoada Que vais morrer no longe do meu nada (Luiz-Manuel) Adeus Fremias coração ruíram os segredos vais de pedra na mão pela noite dos medos Abriu-se noutra história um poço já sem fundo rodopia a memória começa o fim do mundo Quantos mortos vieram romper a solidão quantas noivas disseram talvez sim talvez não Murmuram vendavais à beira dos cansaços e talvez nunca mais queiras abrir-me os braços Adeus noiva dos ventos cidade que dormias nos olhos luarentos de tantas cotovias (Luiz-Manuel) Artes do demo Foi a loucura que me ensinou a ler mas a loucura era mero afluente de um outro rio mais obscuro mais cruel mais dominador onde aprendi a soletrar abismos. Aprendi? Redundância: foram meras noções de mistura com contabilidades geografias aritméticas e gritos retesados. E quando sobrevoei desertos invejei as pedras soletram na areia cânticos breves que ninguém até hoje decifrou. Aprenderam com o vento. Ou é dom geneticamente implantado pelos deuses caprichosos que me recusam a dádiva da palavra: os livros que escrevi contra mim testemunham: louco a pedir camisolas de força tão manifestamente por entre as linhas: louco à espera de vaga escavando hieróglifos na memória envelhecida da carne - e sempre em guerra com as coisas. Sem mais horizontes que esta loucura mansa de escrever. (Luiz-Manuel)
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