Poesia
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Luiz-Manuel - Poesia Maquinais MÁQUINAS DE MALDIZER Correspondência meio comercial1 Mando-te lembranças e recados. Guarda-livros que sou mando também livranças. Livramentos. Beijos. Conspirações. Ponto, parágrafo. 2 Dou em m/ poder a v/ carta de 14 do corrente que muito e muito agradeço - ó estupores! Dou em m/ poder o método de sobreviver: conhecido da arraia-miúda desde a mais alta antiguidade (conhecem-no até as cabras muitos bichos rasteiros cometas e outros bichos carpinteiros). O método é bom: experimentando-o vou sobrevivendo assim a tantas letras protestadas a muitas penhoras a muitas e variadíssimas obsessões. 3 Mando-te lembranças. Mando-te roupa suja cheques sem cobertura desilusões. Mando-te o meu corpo hoje tão de cinza: ardi consumido na fogueira dos teus olhos esquivos. 4 Talvez possas servir-te ainda de mim para adubar canteiros de alfaces para espantar pardais lançando ao vento o que já foi um coração que batia por ti. 5 Lembro-me do amor que quase me não tinhas: não durou. Vieram cedo invernias trovoadas inundações raízes mortas muros desabados. Cedo veio a descrença a crescer nos teus olhos (de que cor eram?). 6 Mando-te o desespero que da canga me resta mando-te lembranças dos vampiros que me sugaram o sangue absorto reles vampiros humanos que me esquartejaram que me comeram a carne que me roeram os ossos. Mando-te lembranças de paisagens cruéis de cometas desfeitos de hipotecas sem remissão. 7 Mando-te o que de mim ficou: poeira muito fina. Certidões. Arquivos roídos pelas traças. Marejar de lágrimas. Suores muito frios. 8 Pois dei balanço à minha vida e achei-me na falência: tantas dívidas a pagar tantas letras devolvidas tantas cartas sem resposta. Nem juros nem capital levaste tudo contigo: meu coração os parcos bens que havia em mim as escrituras as cautelas premiadas os recibos por cobrar. Já não há dinheiro em caixa ninguém me fia mais nada ninguém ninguém ninguém ninguém. Ninguém. (Nem sequer tu.) (Luiz-Manuel) Miragem Os brilhantes os gestos cristalinos Os olhos capitosos que mentiam Anéis cativos dos teus dedos finos Os oiros muito ardentes que fremiam (Luiz-Manuel) O que é que há para o pequeno almoço ? Se houver arenques ao pequeno almoço deixa-me dormir em paz: amanhã de manhã vou vestir de argamassa e de esperança a primeira pedra de uma relação que nunca ninguém tentou abordar: hei-de atirar pela janela um grito desesperadíssimo que há-de subir até aos céus que há-de chegar até ao outro lado do coração. E nunca mais se servirão arenques ao pequeno almoço pelo menos deste lado da ternura. (Luiz-Manuel) O jogo do poder Predadores. Muito cínicos. Vivem de nevoeiros e de rapinas: inventam as regras do jogo só depois de terem despojado os outros jogadores. (Luiz-Manuel) Carta do sr. Protão Ontem à noite passou por mim numa rua sem nome desta cidade obscura que desaprovo passou por mim dizia eu o Sr. Neutrino. Nunca o tinha visto mas reconheci-o logo: sempre o mesmo incorpóreo sacana a espernear a fugir com o rabo à seringa vingadora do parco pensamento científico que na cidade se atolou. Ia de viagem o filho da mãe. Para longe. Tão longe que ninguém pode imaginar distâncias onde se dissolva barcos em que possa ir vogando hotéis que lhe dêem guarida. Parecia (era!) um fantasma esquelético uma sombra fugida do fundo do mar ou de algum poço de gelo polar. Fugitivo e transparente. Quase sem massa. Sem carga eléctrica. Um ser quiçá imaginário. Mas eu bispei-o logo - e reconheci-o. Apontei-lhe o dedo e chamei a polícia. Mas o raio do Sr. Neutrino é ágil de mais para nós; escapou-se como se pudesse atravessar os muros e as carnes. Desapareceu. Mas para a próxima não escapa: já combinei com o Sr. Electrão e vamos ambos organizar uma batida armar-lhe ciladas fazer-lhe esperas - itinerários deliberados de colisão. P.S. - O Sr. Electrão telefonou-me há pouco: ele acha que foi um dos embuçados Muões que eu vi passar na rua. Teria sido? Teria? (Luiz-Manuel) Programas É preciso (Des)aparafusar os instintos gregários remar contra marés da regressão atávica limpar o sebo às íntimas convicções totalitárias e se ainda sobrar engenho e arte para mais vamos pintar de ferrugem o azul do céu aplainar a memória dos erros e mais ainda o coração enfastiado apascentar carneiros na frescura da tarde - e tosquiá-los. (Luiz-Manuel)
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