Poesia
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Luiz-Manuel - Poesia Maquinais MÁQUINAS DE MAL AMAR NavegaçõesPerdi-me assim na ilha do teu nome Mas cedo o arquipélago que fomos Inventou outra sede e outra fome Outra amarga laranja e parcos gomos (Luiz-Manuel) Solução de continuidade Para ti: só tu sabes que estes versos te pertencem - como, de algum modo, também eu sempre te pertenci. Fomos assim - eternamente unidos No espaço de um instante - um ser alado Feito de anseios sempre reprimidos Assim tão sem futuro e sem passado (Luiz-Manuel) Quem espera não desespera Esperei por ti até à meia-noite Esperei por ti até à Primavera Esperei por ti atrás da portas Secaram as horas na clepsidra Esperei por ti equinócios e solstícios Passaram tantas andorinhas Passaram tantos ventos Tantas esperanças Passaram as galáxias Passou a fome de amar Esperei por ti eternamente Esperar é provisório - cai-me bem (Luiz-Manuel) Húmida ratoeira Humidamente um pássaro trinava Fluido canto de água arremessada E os barcos deslizavam sem destino Ao longo dos teus olhos inocentes Hora de angústia ponte sem pilares Fuga das nebulosas ancestrais Humidamente os teus braços cruéis Manejavam as nuvens e os enganos Já nada nos detém o céu fulgura Mudam-se as margens outro rio acorda Humidamente a raiva no teu corpo Inventa tempestades ou marés Armadilha de vento e de luar Onde escabuja o sonho emparedado Onde os dedos da noite vão ungir Os corpos dos amantes naufragados (Luiz-Manuel) Geometrias sentimentais Que me dizes do vento? Dele ignoras a íntima substância? Dele sabes menos ainda do que os pássaros? Nele persistes em só ver o vento ou seja: ausência de um corpo e todavia uma presença alada capaz de aniquilar de dividir? E que sabes tu de mim? Um nome que envelhece? Arame farpado? Barricadas sucessivas? Desesperança? Ou a fome de ternura que me habitava? Em mim só vês também cinzas que o vento já espalhou? E o rumor da nascente que cultivava: soubeste dele? E a luz que às vezes de mim emana e se esvai sem ancorar num corpo? E a mão que te busca nas trevas? E o coração? O coração que se dilata quando nele se dissolve o teu olhar? (Luiz-Manuel) Aventuras de cibernauta tímido Esperava menos de ti: um banco tosco onde repousar de suores nocturnos de caminhadas matinais de pesadelos. E o púcaro de água fresca que ascendesse das raízes desnudadas pelo vento. E a tua mão criticamente sedosa demonstrando as equações obscuras do espanto e da memória. Esperava muito menos de ti. Esperava gráficos variantes modulações de frequências comunicações talvez assíncronas redes tráficos electrões vadios poeira cósmica. Assim me surpreendeste - com o desejo que veio à tona em ti naquela hora que eu sabia sem desejo e que em mim se fundia e alastrava escorraçando toda essa merda electrónica analógica e numérica em que eu me tinha afundado sem ti. (Luiz-Manuel) Dormir sozinho (a) Há muitas maneiras de dormir sozinho(a): como a puta com o seu cliente: como o prisioneiro no seu alvéolo; como o cão sem pulgas. E tantas outras mais. A minha é muito corriqueira: contigo a meu lado, na nossa cama de casal. (Luiz-Manuel) Ave tonta Hei-de ensinar-te a voar - ave tonta Que moras no meu peito e não resistes Ao apelo que jaz em olhos tristes E faz arder o céu de ponta a ponta Hei-de ensinar-te as outras ratoeiras Onde a alma dos pássaros se escoa Quando a asa sucumbe e vai à toa Morrer o coração entre silveiras (Luiz-Manuel)
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