Poesia
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Luiz-Manuel - Poesia Maquinais ANGELOGRAFIAS O anjo bacalhoeiroO anjo bacalhoeiro enveredou por atalhos esquivos por mares frios e o sal que as mãos do anjo remexiam entranhava-se-lhe na pele queimava-lhe as asas fecundas (mas muito mais aos domingos do que às segundas) O anjo bacalhoeiro já meio precipitado era como um leme sem mãos: não voava nem gemia secava secava mais e mais ardia (Luiz-Manuel) O anjo relojoeiro O anjo relojoeiro era como gémeo dos mecanismos em que viajava: as nuvens voadoras e rebeldes que no céu abocanham o tempo e o luar Agindo em densas espirais repetindo ciclos muito secretos inventava calendários sem ternura borrando as asas muito brancas na chuva muito negra que no azul Deus pendura (Luiz-Manuel) O anjo violado Tinha asas muito negras e voava quase sempre ao crepúsculo ou passeava em jardins nocturnos sobretudo quando o nevoeiro diluía rostos na sombra em zonas urbanas à volta dos quartéis dos bares exóticos Tinha ficado assim por causa de muitos e apregoados históricos traumatismos Uma vez deu uma entrevista para a Televisão - e a locutora perguntou-lhe ó Sr. Anjo afinal o que é que os gomorreus fornicadores faziam que os sodomitas badalhocos não soubessem fazer? O anjo violado embatucou. Alçou as asas negras (fez-se noite outra vez) lançou-se a voar a voar fendendo a escuridão. Até hoje. (Luiz-Manuel) O anjo carpinteiro O anjo carpinteiro pregava pregos numa cruz de vidro com seu martelo de obstinadas trevas Nasciam-lhe nos dedos objectos de ternura recalcada quase etéreos quase feitos de nada Quando a noite lhe veio deixou-se cortar ao meio por uma serra de fogo que um outro anjo empunhava Mas sobravam-lhe as asas apressadas flutuando inermes na água muito fria da memória sopesando raízes carunchosas (Luiz-Manuel) O anjo emigrante À Mireille Küttel O anjo emigrante vestido de farrapos velhos alçou-se no espaço e nas trevas a voar a voar a voar Levava estrelas mortas na ponta dos dedos exangues levava muitas raízes decepadas levava memórias e desesperos Foi o primeiro a ser despenhado no abismo concreto do dia-a-dia incerto E as anjas com quem ele vivia? Quem agora as afagava? Quem agora as despia? Perguntava aos outros: mas ninguém sabia (Luiz-Manuel)
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