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Noel Ferreira - Poesia Descontinuidades " A FAVOR DAS CRIANÇAS DEFICIENTES ( Para o novo edifício - sede da A.P.P.A.C.D.M. da Marinha Grande)"  Acabem de vez, acabem os tudos e os nadas, os sempres e os nuncas. Acabem de vez, acabem o toda a gente e o ninguém. Acabe-se o acabado e a certeza e a verdade!
Acabem de vez, acabem os normais e os anormais os bons e os maus... Acabem de vez, acabem maniqueísmos reducionismos dogmatismos e todos os fanatismos.
Fique só o intermédio o talvez o quase o incerto. E diga-se geralmente diga-se que é diferente diga-se provavelmente. Pois se tudo é ilusório fique só o provisório.
 É tempo de não pensar no tempo. Soltar os ferros e pôr o barco a velejar sem rota definida.
É tempo de entregar o comando à natureza. Tempo de arrancar o freio ao pensamento e ao coração.
É tempo de enfrentar tiranias veladas com a coragem dum sorriso e dizer não.
É tempo de ignorar os toques de ordem e as surdinas de censuras e reparos e chamadas de atenção.
É tempo de afastar os árbitros da vida e pensar apenas em viver.
 Esmaguem-se os relógios todos. O relógio da torre o relógio de pulso o relógio de sala o relógio de bolso o relógio de Sol.
Haja um golpe de Estado! Abaixo a ditadura! Liberdade para o tempo amordaçado pelos severos horários, carcereiros implacáveis e cruéis.
Haja outra era outra leis ao sabor do cosmos e dos ritmos naturais. Se tiver que haver um rei que esse rei seja Lazer, seja a rainha Prazer, numa sociedade lúdica em que seja bom viver.
 Faminto do teu corpo, só de olhá-lo inunda-se-me a boca. Essas formas que a tua roupa encobre eu as descubro e desnudo num raio X de fogo.
Em requebros ondulantes insinuas carnes nuas, provocantes seduções.
E eu devoro-te desfloro-te com os olhos e os lábios e as mãos, com o sexo num amplexo de agonia e euforia.
Faz-me vir a fantasia em espasmos explosivos. E com urros estridentes me contorço me desfaço requebrado sonolento saciado.
 Fecha os olhos e vê. Dentro de ti há cores imagens de pássaros e flores, tudo o que sonhaste no embalo do desejo: aquele olhar meigo aquela voz suave aquele doce beijo...
Fecha os olhos e vê. No silêncio da noite há um clarão de Lua-cheia espelhando-se no lago dos teus anseios latentes.
Olha o teu barquinho à vela a tua nau vogando em águas plácidas. Tu vais nela é tua a rota e todo o mar sereno é também teu.
Fecha os olhos e vê. Teu mundo infinito cabe todo em ti e podes dominá-lo reconstrui-lo transformá-lo.
Depois abre os olhos. E essa fantasia tão real, teu paradoxo e teu dilema, transpõe para a tela molda em escultura faz dela melodia escreve-a num poema.
 Felicidade?! Para mim só há momentos instantes ou doses dela, oásis de alegres sentimentos num imenso deserto...
Na transitoriedade me fixo e me solto me liberto.
Minha humana condição de contradição é tecida.
Porém é nesta descontinuidade que ainda me restam lampejos de felicidade.
 Quando nasce o dia sinto um frémito em mim. Quase estremeço. Euforia! É como se um novo mundo começasse e eu ficasse num êxtase sensorial contemplativo místico.
O Sol além travesso piscando os olhos; o chilrear dos pássaros cantando... Esta alvorada é linda! As cores são mais vivas e o ar é tão fresco tão puro, que apetece bebê-lo todo!
Ainda a cidade está calada na apatia do sono derradeiro e nada há que abafe tais sensações. Respiro fundo e sorrio dizendo bom-dia ao dia nesta manhã poética de Estio.
 Era um chover de folhas decepadas ensopando a terra em brasa. Eram braços alados dominados pelo rodopio que a ventania arrasa.
Era um turbilhão de imagens e uma só imagem.
O latejar da cabeça o tumulto das sinapses corno um ferro todo ao rubro em limiar de ruptura de tortura de loucura.
E mal pára recomeça.
 Na voz do vento vi teu queixume teu desalento morria o lume nesse momento.
Na voz do vento salpicos de água uivos de feras contos de fadas, tu te despias te desfolhavas!
Na voz do vento trina a guitarra fado menor aves de agouro soltam gemidos gritos de dor.
Na voz do vento os olhos teus baços parados dizem adeus.
 Repentinamente tudo parou. O filme do universo fixou-se numa só imagem estática. Tudo inerte, astros e astronaves. Suspensos os ruídos o curso dos rios e o fumo das fábricas e as balas assassinas. Tudo parou no espaço. A corrida às armas acabou e as sórdidas manobras dos magnates. Trovões e terramotos, cataclismos tudo parou.
Só o mar, testemunha confidente, continuou a ondular com lampejos de luar nessa noite em que enlaçados meigamente nos olhámos nos beijámos longamente. Foi um amplexo tão forte tão crepitante de afecto que fez parar o universo. E no embalo materno do oceano a cantar tal momento fez-se eterno beijo terno à beira-mar!
 Olha as flores com as pernas-pétalas abertas, pétalas rubras, fogosas, atraentes, em provocante oferta!
Olha as flores com estames à mostra, quais falos erectos, as anteras, glandes na ponta sensível, vibrátil ...
Olha as flores perfumadas coloridas acetinadas convidativas!
Flores deste jardim-mundo corpos despidos, sexos expostos, nada imundo neste nudismo original!
Flores! Quem as mira, quem as toca, quem as colhe, quem as leva para adornar lapelas centros de mesa, sepulturas, nichos de capelas, não se envergonha delas.
 Põe o biquini e ficas vestido corno deves.
Um biquini é uma tampa decente um traje nobre um artefacto sensato.
Biquini mascarilha dum outro carnaval. Luzes que se apagam e se acendem. Véus cobrindo e descobrindo. Jogo de fantasia. Ambiguidade.
Biquini algemas de ilusionista. Exibição de circo tão modesta e tão neutra que gera ruidosas ovações.
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Um dia serás livre um dia serás tu um dia andarás nu.
 Quisera ser escultor p'ra te arrancar da pedra, e dar forma ao teu corpo.
Cerrar então os olhos, para ver-te e abri-los p'ra rever-te: a mesma imagem.
Concretizado o sonho na matéria acariciá-la-ia com beijos e afagos até confundir-me nela!
E na ilusão-paixão de reviver encantos aqueceria essa pedra com meu peito em fogo até vê-la estremecer até pôr-lhe a alma dentro.
Consumado o sonho eu ficaria preso ao magnetismo do teu olhar brilhante da tua doce voz do teu sorriso aberto dos teus lábios sedosos do teu eu total.
Quisera ser escultor. Recriar-te p'ra te não roubar, recriar-te p'ra te não perder.
 Dei um mergulho no mar e senti-me transportar ao meu estado pré-natal, todo nu mergulhado em águas límpidas no oceano maternal.
Senti-me liberto e limpo: erotismo original de desfrutar o meu corpo antes de normas fixadas antes dos estruturais constrangimentos pós-natais.
E sempre que nu volto ao mar despido dos artifícios mundanos, retorno a Belém, há dois mil anos, ao Bebé divino e pobre sem gala nem aparato, sem ceias nem "Pais-Natais", sem vertigem mercantil, sem cenas convencionais.
Ele nasceu num curral, o verdadeiro Natal que a tradição deturpou. Natal é também mergulho na paz tranquila do Oceano das sensações primitivas.
Assim fosse o Natal, de cada dia o Natal de cada ano.
 Olhai as nuvens negras como fogem! E o vento sibilante emudeceu! Já não treme de frio o indigente, e que azul tão brilhante o azul do céu!
Do chão se eleva um bafo de húmus morno cheirando à mais viril fertilidade!
Além, no açude velho na represa, há segredos de amor murmúrios leves!
Ressurge a Natureza exuberante, nos vales nas campinas nas alturas. Regressam aos beirais as andorinhas, os prados se matizam de boninas.
Renasce a Natureza e na minh'alma surgem também as flores da alegria, das aves a sublime vibração! Em mim há rebentos de esperança há risos gargalhadas de criança e um novo prado em flor de fantasia.
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Acordei. Há muito é dia.
Afinal era um sonho uma quimera. E apesar de tudo ai quem me dera abrir de par em par o coração e encerrar nele para sempre a Primavera.
 Toalha azul na baía plácida onde aquele pardacento olhar esquivo e dúbio se esconde no ronco pachorrento da traineira que chega da pesca.
Olhos do mar com perfume de iodo? Ódios de amar atolados no lodo?
A ver o mar me perdi de mim. Fui adiante como um ébrio à deriva, até que o mar me agarrou e me embalou em suas ondas meigas! Então voltei a mim e eu era uma criança nascida de gaivota, com uma só lembrança: lembrava-me de ti, das tuas asas brancas, mãe, do teu voo liberto, do teu olhar sereno, de que me deste um beijo. Eu fiquei tu voaste...
Acordei e nada mais desejo.
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