Contas do meu Rosário

Zeferino André - Poesia

Contas do meu Rosário
Incerteza
    Alguns conhecedores que eu escrevia
    E nos jornais andava publicando,
    Lá iam, volta e meia, perguntando,
    P'ra quando um livro meu à luz do dia.

    Eu, encolhendo os ombros, reagia
    Surpreso por não estar acreditando
    Nesse valor que outros iam dando
    E que, a mim, eu não atribuía ...

    Com tantos empurrões entrei em cena,
    Talvez p'ra respeitar quem me empurrou,
    E provocou em mim a força plena.

    Por isto ou por aquilo, eu aqui estou.
    Se o livro vale ou não valeu a pena,
    Incerteza cruel que me ficou...

    Março/1999

    Marinha Grande

    Marinha és mais que uma princesa
    Já tens o foral duma Rainha,
    És uma prenda da natureza,
    Que ela nos legou, grande Marinha....
    Vila ou Cidade, és sempre igual,
    Tens sempre p'ra nós mesmo valor,
    Porque, afinal,
    És já capital
    Capital da luta e do labor...

    Marinha Grande,
    É tão grande a tua História
    Do Passado e do Presente!
    Marinha Grande,
    Tens por Coroa de Glória
    Defender a tua gente!
    Marinha Grande,
    Em teu rosto tens suor.
    Como creme de beleza,
    Como Brasão,
    Tens os calos que te dão
    Ainda maior Nobreza....

    Aços duros, rijos e disformes,
    São em belos moldes transformados,
    Com uma precisão e Arte enormes,
    E com um rigor nunca imitado...
    E das mãos desse vidreiro Artista,
    Sai a bela peça de cristal,
    Que o Mundo conquista,
    Regalo da vista
    E orgulho do nosso Portugal....

   Janeiro/1969

  S. Pedro de Moel

    S. Pedro tu és um jardim,
    À beira mar plantado,
    Duma beleza sem fim
    E sem rival em qualquer lado...
    Tu tens um encanto tal,
    Que nem te sabemos cantar...
    És a pérola natural
    Entre o verde do pinhal
    E o azul que vem do mar...

    Quando uma onda enrolada
    Vem beijar os teus rochedos,
    Desce à praia p'la calada,
    Uma moira encantada,
    Para escutar seus segredos....
    E em noites de luar,
    Quem se puser a escutar
    Ouvirá com ansiedade,
    A Duquesa de Caminha,
    Carpindo triste, sozinha,
    No Penedo da Saudade...

    S. Pedro, quem te não ama,
    Não deve ter coração,
    Ou então perdeu a chama
    Do Amor e da Paixão...
    Se D. Diniz cá voltasse
    Com a Santa Isabel;
    Talvez não mais abalasse
    E para sempre ficasse,
    Em eterna lua-de-mel...

     Janeiro/1989

25 de Abril

    Acorda Portugal, chegou a hora
    P'la qual tanto lutaste e nunca em vão,
    Que a noite transformou-se num clarão
    E o sol de Abril está mais quente agora.

    Acorda Portugal, porque a demora
    Foi longa, uma longa escuridão
    Que não logrou cegar, porque a Razão
    É sempre Luz candente e duradoura ...

    Acorda Portugal, tens Homens bravos
    Que fazem Revoluções erguendo cravos,
    (A bala mata e morte é crueldade)

    Acorda Portugal, gritou o Povo
    Ao ver nascer, enfim, um País novo
    Num berço de Esperança e Liberdade...

    Abril/1976

  Exemplos

    Em data muito recente
    Nesta cidade Vidreira,
    Assinalou-se, à maneira,
    O Dia do Ambiente.
    E foi bonito de ver,
    Aos olhos de toda a gente,
    Crianças, gente miúda,
    A seguirem, estrada fora,
    A mostrar ali e agora,
    Preceitos elementares
    Que, na rua ou nos seus lares,
    Jamais deverão esquecer,
    Com alusivos cartazes,
    Legendas, bonitas frases,
    Num cortejo bem formado
    E muito participado...
    Entretanto, em nós se instala
    Uma certa ansiedade,
    Quando pensamos na vala
    Que atravessa esta Cidade,
    Passando o Casal de Malta!
    Da limpeza que lhe falta
    E do lixo acumulado,
    Por aí abandonado,
    Porque não é recolhido
    E fica no chão espalhado,
    Pelas vassouras esquecido...
    Por isto e por mais aquilo,
    Eu vos direi sem sigilo
    Que, ao carro da autarquia,
    Que no cortejo seguia,
    Este Cartaz lhe faltou
    Com letreiro a grande espaço,
    A lembrar ao Povo amigo:
    FAÇAM TODOS COMO EU DIGO
    MAS NÃO FAÇAM COMO EU FAÇO

    02.07.93
 

Semáforos 

    Um adágio popular
    Diz a quem o quer ouvir,
    Que vale mais prevenir,
    Que, depois, remediar...
    Se os edis desta cidade,
    Pensarem nesta verdade,
    Vão entender num momento,
    O que tem de traiçoeiro
    O perigoso entroncamento
    Da Avenida do Vidreiro,
    Com outra, a da Liberdade!
    Aquele passa não passa,
    Tantas vezes arrepiante,
    À espera a cada instante,
    Que aconteça a desgraça...
    Isto já p'ra não falar
    Na Praceta ou na Rotunda,
    (como lhe queiram chamar)
    Essa emaranhada teia
    Onde a confusão abunda
    E a paciência escasseia....
    Apenas porque os locais
    Não estão semaforisados...
    Tão simples, até de mais,
    Resolver tal situação,
    Sem nada de complicado,
    Que até nos causa impressão
    Não ver o caso arrumado....
    Homens de boa vontade
    Gente que tem o poder,
    Fazei disto uma Cidade
    Onde apeteça viver!
    P'ra segurança na estrada,
    Deixar de ser letra morta,
    Não ponham trancas à porta
    Depois de casa roubada...


    27.08.93

Ventos

    Os ventos de uma mudança
    Que se pretende tranquila,
    Entram ali, “à má fila”,
    Furiosos, sem parança,
    E de forma repentina,
    Violenta, muito dura,
    Destroem a cobertura
    Da Municipal piscina ...
    E há gente que não atina
    Com a causa singular
    Deste estranho desabar!
    Eu não quero acreditar
    Naquilo que ouço falar ...
    Se eu chegar à conclusão
    Que o vento, com sua fúria,
    Penalizou a incúria
    De quem fez a construção,
    E, se tiver fundamento
    Uma tal acusação,
    Então sou de opinião
    Que a culpa não foi do vento,
    Ou da sua fúria insana,
    Mas de quem, impunemente,
    Brinca com a vida da gente
    Da forma mais leviana,
    Desprezando a causa alheia!
    Esconder cabeças na areia,
    Fugir com a bunda à seringa,
    Sem culpas ter assumido,
    É posição que não vinga,
    que ninguém a tome, agora!
    Pois se a toma, é garantido:
    Vai ficar gato escondido
    Deixando o rabo de fora ...
     

 28.01.1994
 
Mercado
  
    Houve certa agitação,
    (como , aliás era esperado)
    Quando entrou em discussão
    A futura instalação
    Do Municipal Mercado...
    Mas só dessa efervescência
    Pode sair formulada,
    Com rigor e transparência,
    A solução desejada...
    Democracia, afinal,
    É isto assim tal e qual!
    Mas seja assim ou assado,
    Porque torna e porque deixa,
    Vá p'ra este ou outro lado,
    Sempre surgirá a queixa
    Porque não foi instalado
    No local mais indicado...
    Tal tipo de discussão
    Provoca (provocará)
    A normal contestação
    P'ra onde quer que ele vá,
    Ninguém tenha a ilusão
    Que assim mesmo não será...
    Mas seja lá como for
    Venha a participação,
    Porque dar à discussão
    Ouvidos de mercador
    Também não é solução!
    Eu já fiz a minha escolha,
    Não sei se boa , se má:
    Que vá p'ra cascos de rolha,
    Desde que não fique onde está!
    - Espaço Nobre a respeitar -
    Urge, pois, dar o exemplo,
    E, finalmente, expulsar
    Os vendilhões deste templo,
    Que assim se podem chamar...
     

    23.10.1994

Cintos

    Uns senhores muito versados
    Em questões de segurança,
    Tiveram uma lembrança
    Bem própria de iluminados!
    Vai daí, p'ra dar nas vistas,
    E mostrar habilidades,
    Que lhes deu na real gana?
    Obrigar automobilistas
    Que sigam p'ra qualquer lado
    Andar de cinto apertado,
    Quer seja em localidades,
    Quer seja na malha urbana...
    E depois , p'ra bem mostrar
    O pendor da tolerância,
    Decidiram isentar
    O condutor da ambulância,
    Que a qualquer velocidade
    Pode seguir à vontade
    Que isso não tem importância !
    O perigo está todo inteiro,
    Em fazer a travessia
    Da Avenida do Vidreiro
    A certas horas do dia,
    Quando toda a gente role
    A passo de caracol...
    Mas pronto, cumpra-se a Lei,
    Está o caso arrumado...
    Mas isentar quem aos perigos
    Bastante mais se abalança,
    Eu vos direi, meus amigos,
    Que estes Senhores Deputados,
    São mesmo muito versados
    Em questões de segurança...

    16.07.1993

Soluções

    Esta morte anunciada
    Era já coisa falada,
    E muita gente sabia
    Que, mais dia menos dia,
    Iam mesmo de abalada...
    O Governo de Guterres
    Quer provar à saciedade
    Que aqui, nesta Cidade,
    Manter os G.N.R.'s,
    Não passa de grossa asneira,
    E traz os seus prejuízos,
    (Vá lá a gente entender!)
    E decide de maneira
    A mandá-los p'ra Vieira,
    Onde ali são mais precisos,
    (Na sua forma de ver...)
    Portanto, digo-vos já,
    Sem pontinha de remoque,
    G.N.R.'s por cá,
    Só mesmo os da Banda rock,
    Que os outros, os da espingarda,
    Foram de armas e bagagens
    Patrulhar outras paragens...
    Quem gritar, ó da Guarda!
    Pode gritar, isso pode,
    Só que ninguém lhes acode!
    Consumada esta mudança,
    Fica o amargo sabor,
    E uma certeza se alcança:
    Em questões de segurança,
    Vamos de mal a pior...


    23.10.1995
 
  Vacas

    Voltou a ser novamente
    Conversa de muitas bocas
    E discussão permanente
    O caso das vacas loucas,
    Onde reina a confusão
    Por falta de informação
    Do que vai por aí além...
    Ninguém diz nada a ninguém,
    Por forma simples, singela,
    P'ra ficarmos a saber
    Sobre os cuidados a ter,
    Se é nas vísceras, no acém,
    Nos rins ou na figadeira,
    Na língua, na mioleira,
    Onde se encontra a mistela,
    Que põe bife envenenado ...
    Será mesmo em toda ela
    Ou não é em qualquer lado ?!
    Ninguém ata nem desata,
    Uns dizem sim, outros não,
    Até pode ser na pata!
    Mata-se o bicho ou não mata?
    Mas que grande confusão...
    E mudam de opinião
    Com se muda a gravata!
    Embarga-se a importação
    Do controverso animal,
    E mostram uma refeição
    Com doses de mioleira,
    P'ra provar que não faz mal!
    Isto só por brincadeira...
    Não quero enfiar a touca,
    E direi com arrepio:
    Não vou comer vaca louca,
    Já nem nos cornos confio ...

    11.12.1995

       Calendário da Vida

    Cada folha que nos cai
    Do Calendário da Vida,
    É um suspiro, um ai,
    Uma Esperança perdida...
    Pode ser uma ilusão
    Que já passou!
    Ou um sonho que não
    Se realizou...
    Pode ser mais um sucesso
    Ou um fracasso...
    Talvez seja retrocesso,
    Mas é sempre mais um passo,
    Que se dá,
    Assim...
    E o caminhar,
    P'ra chegar
    Ao fim...

Glosas

    A QUADRA TEM POUCO ESPAÇO
    MAS EU FICO SATISFEITO
    SE NUMA QUADRA EU FAÇO
    ALGUMA COISA COM JEITO

    (António Aleixo)


    P'ra expressar sem embaraço
    Pensamentos bem dispersos
    Apenas em quatro versos,
    A QUADRA TEM POUCO ESPAÇO

    Escrever versos a rimar
    É desafio que aceito;
    Quem lê pode não gostar,
    MAS EU FICO SATISFEITO

    Nem preciso a cada passo
    P'ra desenvolver um tema
    Escrever longo poema,
    SE NUMA QUADRA EU FAÇO

    O poeta, além de ser
    Um inspirado sujeito
    É bom que saiba escrever
    ALGUMA COISA COM JEITO


 
   Agosto/1998

   O Lado Alegre da Vida

  
    O lado alegre da vida
    Anda oculto, mas existe,
    Há que saber descobri-lo
    E desvendar o sigilo!
    De nada serve andar triste,
    Que uma alegria escondida,
    É sol que não aparece,
    Nem aquece, nem arrefece...

 
Lógicas


    Achei uma certa graça
    À história do cidadão,
    Que por tamanha desgraça
    Perdeu na rua ou na praça
    Relógio de estimação ...

    E é vê-lo entristecido,
    Olhos pregados no asfalto,
    À procura do perdido,
    E a ficar em sobressalto
    Por não ser bem sucedido ...

    Alguém tentando ajudar,
    Ao ver que não apareceu
    O que andava a procurar,
    Atreveu-se a perguntar
    Se foi ali que o perdeu ...

    Foi então que o infeliz
    Muito senhor do que é seu
    (Incluindo o nariz)
    Erguendo um pouco a cerviz,
    À pergunta respondeu:

    Não foi aqui, foi ali,
    Foi ali naquele escuro
    Que o meu relógio perdi.
    Mas a luz está aqui,
    É aqui que eu procuro ...

    Maio/1998
 

  Pedinte Filosofal
 

    Esta vida de pedinte
    Sempre foi um paraíso.
    Se há dez, não se gastam vinte
    Se não há, não é preciso...
    Andar assim à deriva
    Sem saber o que é o IVA
    Nem pagar contribuições!
    Não há nada mais porreiro!
    A gente não tem dinheiro
    Mas não temos ralações...

    À porta da mesma tasca
    Dois pobres encontram dois.
    Dois tinham fome e depois
    São quatro que estão à rasca!
    Até há um que se enfrasca
    Por beber uma jeropiga
    Sem ter nada na barriga!
    Passam ali responsáveis
    Que nos chamam miseráveis,
    Mas a gente nem lhes liga...

    Março/1989
 
Se(C)enna

    Campeão dos Campeões,
    Este génio do volante,
    Fez vibrar as multidões
    Neste mundo alucinante
    Das grandes competições!
    Entre os fortes, o mais forte,
    Nada o fazia tremer;
    Vivia a vida a correr
    Sempre ao encontro da morte,
    Que alcançou naquele dia,
    Depois de muita porfia!
    Fez chorar o mundo inteiro
    A morte do campeão!
    E o povo brasileiro
    Sente a perda deste irmão,
    E nem quer acreditar
    Na razão do seu chorar!
    Chame-se herói nacional
    Ao símbolo idolatrado,
    Mas dar ao seu funeral
    Honras de Chefe de Estado
    Tem algo de exagerado,
    Ou então estou a ver mal...
    A cobertura estatal
    Do governo brasileiro,
    Naquele adeus derradeiro,
    Teve laivos de febril!
    Dá p'ra dizer, com franqueza:
    Coisas desta natureza
    Só se vêem no Brasil!
    Só ali encontram eco,
    Que Deus me perdoe se eu peco...

    09.05.1994

  Cartões

    Esta guerra dos cartões
    Que na Banca deflagrou,
    E que os utentes lançou
    Na maior das confusões,
    É uma coisa sem critério,
    Total ausência de siso,
    Faria morrer de riso
    Se não fosse um caso sério...
    Estes senhores da finança,
    Sabidos e sabidões,
    Quando pensam na abastança
    Inventam novos cifrões,
    E estão sempre a engendrar!
    Fazem trinta por uma linha,
    Tudo o que seja puxar
    a brasa à sua sardinha!
    Despender ou embolsar
    um por cento, eis a questão,
    Custe lá o que custar,
    Nem que se deixe de passar
    Cartão a quem tem Cartão...
    O que importa é o dinheiro,
    Que se lixe o mexilhão!
    Que o coitado do banqueiro
    Vive mal, isso não nego!
    Que a vida está mesmo má,
    E o magro lucro mal dá
    P'ra mandar cantar um cego...
    Haja, pois, quem lhe acuda,
    Aumentando em um por cento
    O seu modesto orçamento!
    É pouco mas sempre ajuda....

    10.04.1994