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| Gente da Vieira |
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António Gomes Vitorino - Prosa Gente da Vieira "Um trecho de 'Gente da Vieira (1938)'" - Mãe, tenho esta dor imensa de ser pobre! Os pobres, ou deviam morrer todos quando nascem... ou... não sei... não sei... Mas isto assim não está bem. Ser pobre é desgraça grande demais para que possamos andar sempre com ela. A velha murmura: - E há tantos anos que eu sou pobre... - É verdade, vossemecê há sessenta e oito anos; eu há quarenta e dois; os meus filhos, o mais velho há doze e o mais novo há quatro, e sê-lo-ão por tôda a vida. Mas isto é castigo, mãe, isto é castigo? Sessenta e oito seus, quarenta e dois meus e doze do meu filho são cento e tantos anos de pobreza! cento e tantos anos de miséria! E, levantando-se, põe-se no meio da casa, como se acusasse alguém: - Mais de cem anos de fome e de sacrifícios! e sempre termos de morrer! Não mãe, não! Ou devíamos morrer todos à nascença.. ou... não sei.... não sei... A velha quer sufocar aquela explosão de desespero: - Cala-te filha. Deus é muito grande e saberá quem sofreu neste mundo. E ela, ainda mais erguida do que até ali, deixando sair as palavras com tôda a força, em catadupa: - Deixe-se disso mãe, deixe-se disso! Qual Deus?! Então ele vê cento e tantos anos de miséria - não contando os de sua mãe e os de sua avó, que também foram pobres, segundo vossemecê me diz - cento e tantos anos de aflições, de desespero a filhos seus; cento e tantos anos aguardando que lance sôbre nós um pouco da sua piedade, e que nunca, nunca se comoveu, nem sequer nas horas mais negras em que os meus filhos choram por não ter pão! - Ó filha, Cristo disse que o seu reino não era dêste mundo. E ela trágica, imensa, avançando para a mãe: - Mas nós vivemos cá e cá é que precisamos ser amparados. De que serve um Deus que não vive connosco?! Qual é então o dêste mundo? diga! Êsse é que eu preciso que me valha. E a mãe como que a querer segurá-la para que não se despenhe: - Filha!... E ela ainda mais terrível: - Deus?!... É tudo mentira o que vossemecê me ensinou. O que eu lhe tenho pedido! em rezas e orações!... E nunca, nunca por nunca se, êle me valeu! O que existe é a fome! O que existe é muita fome, fome negra, em casa dos pobres! E, avançando um passo, desce a voz para lhe dar mais convicção: - Diga: qual era o Deus, ainda que não fôsse tão bom como êsse, qual era o Deus, diga que consentia semelhante horror: Sempre fome em casa dos seus filhos? É já por um esforço enorme que ela ainda se mantém de pé. Os filhos olham-na aterrados. Nunca viram a mãe assim. A velha treme e quere sossegá-la, mas não o consegue. É que aquele bramir medonho não eram só as queixas de cento e tantos anos de miséria, eram tôdas as queixas dos miseráveis; era como que um protesto, que vinha talvez do princípio do mundo, contra esta monstruosidade, contra a existência de ricos e pobres debaixo do mesmo céu, de famintos e bem jantados a orar pelo mesmo Deus. *) Autor de Vieira de Leiria. A história, o trabalho, a cultura (Vieira de Leiria, Junta da Freguesia de Vieira de Leiria, 1993).
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