O Chalupa. História de uma vida dura num período negro

Artur Neto de Barros - Prosa

O Chalupa. História de uma vida dura num período negro (1992)

"Um trecho de "O Chalupa. História de uma vida dura num período negro (1992)""
Escolhido pelo Dr. Álvaro André *
"As frequentes e demoradas paralisações das fábricas, a falta do pagamento regular dos salários, chagas sociais que não são apenas do nosso passado recente, a falta de qualquer espécie de segurança social, tornaram a vida dos operários ainda mais difícil e mais dura. Viveram-se dias trágicos. A fome rondou muitos lares, onde se verificaram verdadeiros milagres de subsistência".

(...)

"Não só pelas suas aventuras e traquinices, tornara-se também conhecido pela maneira chocante como, ainda que inocentemente e sem maldade, se exprimia.

A vizinhança que o conhecia, dizia que ele não puro, que tinha pacto com o Diabo.

- O filha-da-mãe do garoto tem uma aduela a menos, é mesmo achalupado.

E ficou o Chalupa."

(...)

"Ia tarde alta quando o Chalupa entrou em casa, cansado e cheio de apetite. Foi à cozinha , procurar a Mãe.

- Qu'é hoje a ceia, nha Mãe?

Junto à lareira, com a testa encostada à trave, olhando absorta para uma panela vazia ao lado do fogareiro apagado, ela pareceu não ter dado pela pergunta. Mas ele aproximou-se e insistiu em voz alta.

"Nha Mãe, qu'é hoje a ceia?

- Hoje não faço ceia. Há café e broa.

Uma voz baixa, amargurada, que parecia vir de muito longe.

O Chalupa aproximou-se ainda mais, e viu que dos olhos da Mãe caíam lágrimas que ela nem se preocupava em limpar".

(...)

"E aos poucos, as fábricas retomaram a actividade, todos começaram a tentar viver de acordo com as condições existentes. Mas muitas famílias viram a sua situação agravada. Os seus homens, presos, aguardavam julgamento, julgamento que por falta de um mínimo de isenção (havia fortíssimas pressões políticas) eram considerados autênticos atropelos à verdadeira justiça .As sentenças não variavam muito: prisão em Peniche, degredo em Angra ou no Tarrafal."

(...)

"Meu saudoso Chalupa, meu bom amigo e companheiro de tantas correrias e brincadeiras termina aqui a parte da história que baseei na tua vida e na da tua família (...) escrevi-a sobretudo com a secreta intenção e a grande esperança de que ela pudesse alertar e inquietar as consciências de todos aqueles que pelas suas responsabilidades sociais de decisão, possam contribuir para que nunca mais, na nossa terra, haja meninos sem meninice nem famílias sem horizonte (...) nunca mais, na nossa terra, os justos protestos contra graves e inadmissíveis injustiças sociais sejam calados na cadeia ou no exílio; nunca mais (...) volte a haver situações que permitam a existência de outros Chalupas e de outras ti-Cármas."

(...)

Nunca mais!


*) Autor do artigo " O Chalupa - ou a literatura como elemento fixador de uma identidade " ( O Correio, 19.06.1992)