Ao Encontro do Passado

Deolinda Bonita - Prosa

Ao Encontro do Passado

" Todo o homem vive de boas e más lembranças.  Graças a isso, ele é capaz de conviver com o Passado "

" O Comboio de Lata " Trecho de Ao Encontro do Passado
No princípio deste século os Serviços Florestais despendiam avultada verba com os Carreiros. E segundo me informaram, existiram na Marinha Grande, várias centenas de juntas de bois, que transportavam a madeira da Mata Nacional. O transporte efectuava-se em "carros-dobrados", desde o pinhal até ao cais na Estação. Depois seguia por comboio.

Na tentativa de se diminuir esta verba, o Estado Português deu luz verde ao então Engenheiro Silvicultor, António Mendes de Almeida, para que este adquirisse um comboio. Veio da Alemanha como parte das indemnizações devidas a Portugal, após a primeira Guerra Mundial. Chamava-se Decauville e compunha-se de três máquinas alimentadas a lenha e vários vagons onde se transportava a madeira. Tinha ainda uma carruagem de passageiros aberta e com bancos de madeira, que serviu na época para o transporte dos Guardas Florestais e dos Engenheiros.

O pequeno "comboio de lata" como lhe chamavam, iniciou as funções em 6 de Fevereiro de 1923. Circulava por uma linha de carris com a largura de 60 centímetros, que ia da estação principal em Pedreanes, entrava à Guarda Nova, seguia até S. Pedro de Moel e, no regresso, terminava a viagem no cais - Estação.

Posteriormente, surgiram outros ramais cuja construção nem sempre foi fácil, devido à dureza do terreno e à sua inclinação. Apontam-se como exemplo os talhões 293 ao 295 e o 301, que dava aceso ao Penedo da Saudade.

Em 1927 concluiu-se o ramal de S. Pedro, que permitiu que daí para diante este comboio florestal circulasse em vias e ramais, cuja extensão media cerca de 25,500 quilómetros.

Contaram-me várias histórias acerca deste pequeno comboio e do uso que lhe davam em determinados dias especiais: - No feriado 1º. de Maio era cedido aos operários vidreiros, que o enfeitavam e iam festejar o dia do Trabalhador na Ponte Nova.

- Aos fins-de-semana, principalmente na Primavera e no Verão, era alugado para passeios turísticos na Mata. O mesmo acontecia na 5ª. Feira da Ascensão.

Mas no meu tempo de garota, há muitos anos atrás, ele era uma das atracções principais da garotada dos lugares onde vivi.

Um grupo de crianças, do qual eu fazia parte, metíamo-nos por um caminho poeirento que descia serpenteando até à Guarda do Rio Tinto. Um pouco mais adiante surgia-nos a estrada e a ponte do Carvalho. Era um local conhecido por ribeiro do Rio Tinto, muito abundante em água de cujas margens sobressaía um majestoso carvalho. Lá em baixo, o ribeiro luzia entre densos tufos de fetos e continuava até mais adiante - Ribeiro de S. Pedro. Era aqui o nosso ponto de encontro.

Pequenas carriças espreitavam-nos por entre o arvoredo ribeirinho. Um pouco mais longe, no pinhal alto, os corvos reconheciam-nos e o seu crocitar estridente chamava-nos a atenção: arremessávamo-lhes pedras e às vezes "afundadas". Faziam diversas piruetas e sempre desconfiados, crocitavam ainda mais forte no alto dos pinheiros.

Sentávamo-nos perto, junto de uma clareira e aguardávamos o comboio. Um pouco à frente, ao pé do marco (Marco 0, do Arrife 8) entretinhamo-nos a ver um formigueiro. Milhares de formigas pretas, chegavam de todos os lados, uma atrás da outra, em fila indiana e tudo devoravam. Transportavam sementes e folhas cortadas em pequenos triângulos, marchavam para o formigueiro, situado no sopé de um velho cepo, muito direitas, muito aprumadas.

Em redor do tronco, elas andavam numa roda viva. Sobressaía do solo juncado de caruma e folhas secas, um enorme monte de areia muito branca com mil buraquinhos, dos quais elas expeliam grande quantidade de cascas das sementes debulhadas.

Algumas dessas formigas eram enormes e, por vezes, transportavam outras mais pequenas que morriam e secavam, de pernas ao ar, sob a luz forte do sol. Achávamos a cena deprimente e afastávamo-las com "gravelhos", mas no dia seguinte, voltavam. Entendiam que aquela terra era delas, que nós éramos ali uns intrusos. Lançávamo-lhes pequenos pedaços de amoras maduras, que elas, repentinamente devoravam.

- Era a nossa distracção preferida!

De repente, um barulho ao longe despertava a nossa atenção: - Tac- tac- tac.

- AHiiiie! Olhem, vem lá o "comboio"! - Berrava o "Toca-Telhos".

Todos se levantavam. Sim, era ele! Reconhecíamo-lo ao longe pelo apito. Então, corríamos como loucos, em direcção à ponte e aguardávamo-lo escondidos.

- Olha, aquele maquinista é porreiro!

- Mas vem lá aquele Guarda, o "Cara de Mau"! E vem de pé, junto da máquina!

Saíamos do esconderijo e regressávamos a casa, pois ainda não era naquele dia que podíamos ir viajar no comboio.

Mas outras vezes era diferente, o guarda era nosso conhecido. Ao aproximar-se apitava na curva, que descrevia sem afrouxar. O maquinista do comboio, seguia à frente. Era ele quem conduzia a máquina e marcava o andamento, lento em geral. Quando tal sucedia, saltávamos então, todos ao mesmo tempo e empoleirávamo-nos em cima dos enormes madeiros. Havia momentos de desequilíbrio em que os guardas erguiam as mãos, sustendo a respiração. O nosso Guarda conhecido, às vezes dizia com ar zangado: - Muito bem, continuam a ser teimosos, e até agora consegui evitar chatices. Mas qualquer dia um de vocês, num segundo de distracção, ainda vai provocar problemas. E, nessa altura, vai sobrar aqui para o Zé...

À medida que ia avançando, o comboio afastava-se através do pinhal alto, deixando para trás algumas fagulhas e muito fumo. Dirigia-se à estrada de S. Pedro, mas ninguém lhe prestava atenção. Para muitos não passava de rotina, mas para nós!

O Maquinista e os Guardas Florestais não nos deixavam gozar por muito tempo aquela curiosidade e satisfação, pois nunca passávamos da Guarda Nova para cima. Ao simples gesto do Guarda descíamos, e quantas vezes com os vestidos rotos e cheios de resina, mas isso não contava!...

Anos mais tarde, a caminho do colégio, surpreendi-me muitas vezes com o mesmo apito. Vinha lá o comboio. Avisava-me de que a linha por onde eu teimava em seguir, fazendo equilíbrio lhe pertencia. Via-o passar e quantas recordações me assaltavam! Cessou a actividade em 1965, depois de quarenta e dois anos de tráfico intenso. A 8/8/1967, duas máquinas, os carris e os vagons foram vendidos em hasta pública cujo dinheiro reverteu para o Estado. Foi então que o Presidente da Câmara da Marinha, Adriano Pereira Roldão, solicitou às Matas a cedência de uma máquina para ficar como testemunho vivo, às gerações vindouras. Foi colocada sob um telheiro junto ao Bambi, em S. Pedro de Moel, onde ainda hoje se encontra, mas em avançado estado de degradação.

Porque será que nós Marinhenses, não conseguimos preservar, coisas tão belas do nosso passado?

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 Recentemente, Rafael Moiteiro, um reformado com oitenta anos de idade, contou-me a razão porque chamavam ao pequeno Decauville - "Comboio de Lata".

- Certo dia, naquela época, o Engenheiro Almeida cruzou-se com o Dr. Francisco Alves, um conceituado médico, a residir então na Marinha. Cumprimentou-o e perguntou-lhe: - Oh Doutor, sabe a novidade?

- Qual?- Perguntou o médico

- Olhe, mandei vir um comboio para o transporte da madeira da Mata!

- O quê? - Um comboio? Admirou-se o médico, respondendo de imediato:
- Só se for um "combóio de lata".