Trechos Vários

Francisco Tomé Feteira - Prosa

"Trechos de O mundo é bem pequeno (1954), À luz da minha candeia (1962) e Na senda do Passado (1968)" Escolhidos pela Dra. Ana Parracho Brito *

O mundo é bem pequeno (1954)
Estava eu ainda em Buenos Aires, ao serviço do Consulado Português, quando, em certa ocasião, tive necessidade duma lima pequena para cortar uma anilha de aço muito duro. Fui a um estabelecimento de ferragens e pedi uma lima da melhor qualidade.

O dono da casa que estava perto do, empregado que me atendera, ouvindo a minha recomendação, interveio logo:

Não sei o tamanho da lima que o senhor pretende mas, se for abaixo do médio, tenho aí uma especialidade que, embora muito cara por não ser de importação directa, deve servi-lo muito bem. Adquiri estas limas numa casa dá Brasil que, por sua vez, as mandou vir de Portugal. Garanto-lhe que se trata das melhores limas do mundo.

Quando o empregado me apresentou a lima que eu tinha pedido, achei interessante que o acaso me trouxesse às mãos uma lima com a marca da fábrica de meu pai. Em face desta coincidência, disse ao homem que era filho do fabricante, mas, notando-lhe um ar de dúvida confirmei a verdade do que afirmava, exibindo-lhe o meu passaporte. Por aqui se Pode ver, portanto, o alto conceito e a famosa reputação de que, desde sempre, têm desfrutado no mundo as limas produzidas nas fábricas da minha família, e Vieira de Leiria.
 
À luz da minha candeia (1962)
Era na Primavera. O dia despontava sereno e calmo por entre os esplendores duma linda manhã de Abril. No campanário da pequena igreja o sino chamava as gentes ao santo sacrifício da missa, numa purificação de almas e de consciências.

Os corpos, esses, retemperar-se-iam aos raios vivificantes do Sol nascente que, já por montes e vales, ia desdobrando, em fulgurações de oiro, o seu régio manto de luz. Gotas de orvalho, quais lágrimas de cristal, que a noite tinha derramado por sobre a Natureza, iam secando às primeiras carícias da madrugada. Só estas não enxugariam o pranto dalgumas almas simples que, no adro da ermida, lamentavam um triste acontecimento da antevéspera, o qual, tão fundamente, tinha impressionado o povo daquela aprazível e pacata aldeia.

Confirmava-se o desaparecimento do Zé da Aninhas, pastor lá do sítio que, pelas suas excelentes qualidades, era de todos muito estimado e daí, o bem sentido desgosto que se notava nos semblantes dos pobres aldeãos.

Na senda do Passado (1968)
Inicia-se este conto no primeiro quartel do século XIX, tendo por principal cenário a pinturesca praia da Vieira de Leiria.

Embora matizado, aqui e ali, de naturais fantasias da imaginação, os fundamentos do seu entrecho são constituídos por factos verídicos e personagens reais; todavia, se bem que se tenham já desenrolado em recuados tempos, as conveniências impõem, não só a substituição de nomes, como, ainda, a alteração de certos pormenores que poderiam tornar-se identificativos.
A esse tempo, dava-se a terceira invasão napoleónica ao nosso País, em 7 de Agosto de 1810, comandada pelo general Massena, alma empedernida que semeava a desolação e o luto por onde passava.

Esta incursão dos franceses, tal como as duas anteriores, foi-lhes adversa, pois que, apesar das muitas vidas e tesouros que nos custou, a nossa reacção, com o concurso de tropas inglesas sob as ordens de Wellington, atingiu um heroísmo de epopeia, infligindo aos invasores várias derrotas, entre as quais se deve evidenciar a das Linhas de Torres, que os levou em debandada para fora de Portugal, a 4 de Abril de 1811.
O lugarejo dos Calvos, pertencente à freguesia da Vieira, não escapou à sanha destruidora e à rapina dos soldados de Bonaparte. Em defesa do torrão pátrio, as gentes das povoações assoladas praticavam actos da mais abnegada coragem. À falta de arcabuzes, empunhava-se toda a casta de armas, desde os chuços às foices e forquilhas.
Nesta luta desigual foram abatidos o pai e o tio de Abel Matias, garoto de cinco anos, que virá a ser o vulto central desta narrativa. Sua mãe, Josefa Matias, teve de refugiar-se com ele nos bastios do chamado, então, Pinhal do Rei, local onde se esconderam, também, muitos outros habitantes da região.

Afastado o perigo dos invasores que seguiram em direcção a outras terras, os fugitivos regressaram aos seus destroçados lares. O quadro que se deparou a esses infelizes, era verdadeiramente confrangedor, visto que as humildes casas tinham sido pasto das chamas e alguns dos seus pobres haveres espalhados e desmantelados por congostas e ruelas.


*) Conhecedora da obra de Francisco Tomé Feteira.