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José Custódio de Morais - Prosa Geologia e geografia da região do Pinhal de Leiria "Um trecho de "Geologia e geografia da região do Pinhal de Leiria" - (Memórias e Notícias, 1936) - Escolhido por Edmundo de Oliveira Orfão * No manuscrito n.º 503 da Biblioteca da Universidade de Coimbra "Notícias remetidas à Academia real debaixo da real protecção do mui alto e muito poderoso Rei N. Snr. D. João 5º - Leiria, 1721 - O Provedor da Comarca Brás Raposo da Fonseca", na fôlha 10: Algumas notícias da qualidade e abundância dêste Bispado - diz que há neste Bispado 46 freguezias, cinco vilas, Ourem, Porto de mós, Batalha, Alpedriz e Aljubarrota, e uma Póvoa a que intitulam vila de Monte Real por privilégios de ElRey D. Denis que naquele assistiu e a Rainha Santa lzabel, onde ainda aparecem vestígios do Paço, que na mesma edificou uma ermida dedicada à mesma Rainha Santa.
Diz ainda que é tradição desta Póvoa que, assistindo nela, o dito Rei mandou semear todos os matos que havia desde a lagoa da Sapinha, até ao lugar da Vieira, de pinhões bravos, região que constitue hoje uma das grandes propriedades dos reis de Portugal, e chamam-lhe o Pinhal de Elrei. Tem de comprido 3 léguas grandes, da lagoa da Sapinha até ao dito lugar da Vieira e de largo légua e meia começando no lugar da Marinha até ao mar com o qual confronta. Tem por dentro vários ribeiros entre os quais o maior se chama de Moel que principia na dita lagôa, e se vai meter no mar no sítio onde chamam o Cabo, que dista meia légua do sítio de S. Pedro de Moel, Ermida a que concorre muita gente em romaria. A fôlhas 47 diz que a vintena da Marinha é situada ao sul, com 50 vizinhos, onde há uma igreja da N. S. do Rosério, a aldeia da Garcia ao norte com 30 vizinhos, com uma capela de Santa Barbara, o lugar de S. Pedro de Muel com uma igreja do mesmo santo junto ao mar, com 4 vizinhos, uma aldeia chamada Marinha Pequena ao nascente com 24 vizinhos. Diz mais que a vintena da Moita está ao sul e tem 11 vizinhos, com uma capela de S. Silvestre; lugar da Martingança ao nascente, com 13 vizinhos, lugar de Pica Sinos à mesma parte com 13 vizinhos. Lugar da Ordem ao norte com 13 vizinhos. Lugar do Torneiro ao poente com 4 vizinhos. A vintena da Vieira tem 100 vizinhos. Fôlha 147 v. - diz que a aldeia de Pataias tem 45 vizinhos. Tendo verificado que já no princípio do século XVI existiam várias povoações com nome de Marinha estudamos com cuidado a Carta Corográfica de Portugal de 1:100.000, daquela região, e verificamos que muito perto da curva de nível de 75 do vale do Liz se encontram 7 povoações com aquele nome: Ao sul: Marinha Grande e Marinha Pequena. A oriente de Monte Real, Marinha João da Rua. A oriente de Monte Redondo, Marinha do Engenho. A 9 quilómetros mais ao norte, Marinha. Outros 9 quilómetros mais ao norte, Marinha das Ondas e Marinha de Baixo. Noutros tempos a palavra comum marinha não significava, como hoje, o local onde se faz o sal, mas a parte baixa, junto do mar ou do rio. A primeira vez que encontramos esta palavra aplicada a povoação é em documento de 1258. Estes factos levam-nos a formular uma hipótese, que explicaria a situação de tantas Marinhas. Bastava que o nível da região estivesse cerca de 75 metros mais baixo que hoje, para tôdas essas povoações ficarem junto da costa. Como a palavra marina é de origem latina, deviamos supor que as povoações existiam ou foram fundadas no tempo dos romanos, tempo em que um braço do mar chegava à actual curva de 75 metros de cota. O Dr. Manuel Heleno no seu já citado estudo sôbre antiguidades de Monte Real, com 97 páginas, conclue que aí havia uma numerosa população neolítica, e que pelos séc. II e III da era de Cristo, se prestou aí culto à Deusa Fontana. Vimos já pela moeda de Teodósio I que no séc. IV de Cristo, a região era freqüentada, e teria a mesma cota de hoje, com a queda para o moinho, em S. Pedro de Moel. Devemos por isso excluir a hipótese da região ter baixado depois do séc. IV, para estar já de novo levantada quando D. Afonso Henriques, construiu o Castelo de Leiria, em Terra deserta. Note-se que êste abaixamento teria reduzido Leiria a uma pequena ilhota. Mesmo êste intervalo de tempo era muito curto para uma deslocação tão grande de nível, e era pouco provável que voltasse à posição anterior, como exige o moinho de S. Pedro de Moel. Só nos fica pois o intervalo de tempo que vai entre os tempos neolíticos e o séc. II da era cristã. Teria sido nesta altura que a região abateu, tendo os romanos que aqui chegaram, no séc. 11 antes de Cristo, achado a costa na actual curva de nível de 75 metros? Ainda durante o domínio deste povo, até ao séc. III de Cristo ter-se-ia a região levantado até à altura que aproximadamente tem hoje. Este intervalo parece-nos também muito pequeno para tais movimentos, e teríamos de supor a região muito povoada. Não se vê por isso meio de aproveitar esta hipótese. Tantas povoações com a mesma cota, e com o mesmo nome, também se não pode explicar pelo acaso. Para o caso da Marinha Grande e Marinha Pequena, poderíamos supor que, como relativamente a Leiria eram povoações que ficavam para o lado dá costa, daí viesse a sua designação. Há no norte do País outra povoação com o mesmo nome: uma no concelho de Espozende (já citada) e outra no de Vila Nova de Gaia, ambas perto do mar. Neste sentido emprega o Dr. Amorim Girão, no seu já citado "Esbôço duma carta regional de Portugal" pág. 80 a mesma palavra - " Beira Alta e a Beira Litoral (a Serra e a Marinha, no dizer do povo)". *) Autor de "O pó cheira a flores". Vultos e síntese da história de S. Pedro de Moel e da Marinha Grande, obra contendo elementos sobre história local.
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