Trechos Vários

José Loureiro Botas - Prosa

Trechos Vários

"Trechos de Litoral Oeste (1940) Nasci à beira do mar (1959) e Barco sem âncora (1963)"
Escolhido pelo Dr. Luisete Pedrosa *
        Pobre de quem sofre, ausente,

        sem amizades leais,

        pois longe da nossa gente

        doi-nos a dor muito mais.

        (Nasci à beira do Mar)

[Pichelim] Como os alunos, nascera ali. Em novo, andara pela Galiza, a serrar, ou pelo Tejo, na pesca, durante o rigor das Invernias, quando a Praia, desolada, só servia para os deixar morrer à míngua. (...)

Mas, como todos, quis tentar a fortuna. Os pobres, quando há filhos, também sonham com mundos de grandeza para lhes dar; e, assim, êle, num ano em que o trabalho fraquejava, encorajou-se, emigrando para o Brasil.(...)

Longe da nossa terra, até a própria dor doi mais, por isso, na ânsia de tornar a ver os entes queridos, voltou; apetecia-lhe morrer junto dêles.

Era uma sombra do que fora.(...)

Então começou a beber para afugentar a sombra; (...)

Um dia, a companheira, símbolo vivo duma paciência de santa partiu, cansada de trabalhos e de prantos exausta de sofrimento, para a frieza da terra.(...)

E quando nesse Inverno os filhos partiram da Praia a governar a vida, êle, já velho e cansado, gasto pelo álcool, atordoado pelas noites em claro, a voz forte e ríspida, de vibrantes sonoridades, a tornar-se arrastada e rouca, o corpo a atraiçoá-lo em repetidas tremuras, pegou no bornal e foi para essas terras além, a esmolar a caridade das almas generosas.(...)

Porém, quando as árvores começavam a reverdecer e as andorinhas emigrantes voltavam aos ninhos dos beirais; (...) [o] velho Pichelim, em revoadas de pensamentos, vinha-lhe à ideia a sua terra distante, pobre mas tão querida, os amigos do copito, e todo um passado de dias felizes, seguidos daquelas fantásticas bebedeiras em que o tempo corria sem êle dar acôrdo. Então, resolvia-se a regressar. Sentia a nostalgia da terra, a saudade viva do mar, a marulhar, como êle resmungão incansável, êsse amigo de infância a quem o apegavam recordações, o único que a falar o vencia.

Voltava um pequeno nababo. Cortava a barba e o cabelo e vestia-se melhor, tomando aspecto' diferente. Despedia o pedinte. Tornava a ser alguém;

(Pichelim)

            "Esta doçura na dor

            que há na palavra saudade

            vem da amizade e do amor

            que são seus pais de verdade."

            (Nasci à beira do Mar)

Eu de meu só tenho o meu barco. Guardei-o sempre como um bom amigo. Sei que me não atraiçoa. Por amor de uma mulher o deixei, por amor dessa mulher volto para ele. Que os barcos também têm alma, também se afeiçoam à gente. E são leais nas horas boas e nas horas más da vida, quando balouçam no mar sobre o abismo das ondas.(...) Isto são coisas que vocês não podem compreender. O meu destino está nas mãos de Deus. É nas suas mãos que eu entrego a alma despedaçada. Estes temporais hão-de passar. São mais umas rugas, uns cabelos brancos, um coração que sangra... e a vida segue sempre. Por mim, não tenho pena. Tenho pena por vocês. Que Deus vos alumie a alma! Bem precisa de luz! Bem precisa de luz... Estava escrito: O meu rumo é o mar."

        (Rumo ao Mar)

        A mulher do pescador

        lembra a cruz ao céu erguida:

        Homem, filhos, mar e dor

        crucificaram-na em vida.

        Nas areias brancas

        ondulam as ancas

        das mulheres que trazem

        os filhos nos ventres.

        Os gestos que fazem

        vendo o mar irado,

        os gritos que soltam

        receando a morte

        dos seus entes queridos

        ficam para sempre

        gravadas a fogo

        nos nossos sentidos.

        Quem pode resistir a tanta súplica?

        Quem pode resistir a tanto ai?

        Senhor, valei àquela pobre que ali vai

        desvairada, perdida!

        Fazei que o homem dela não perca a vida!

                    (Naufrágio)


*) Membro da direcção Da Biblioteca Instrução Popular.