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José Marques Fidalgo - Prosa Tudo Isto Pelo Norte - ANGOLA 1961 - 1963 1 de Maio de 1961 Neste dia inesperado 12 de Junho de 1961 Cheguei a Luanda. Após o desembarque dirigimo-nos aos carros de Estado para carregarem as nossas bagagens. Assim fui transportado para o Grupo de Artilharia de Luanda onde dormi nos primeiros onze dias. Com desejo de escrever à minha mulher, pedi autorização para ir aos correios comprar selos. Nesta caminhada reparei que Luanda era bonita mas estava deserta. No regresso ao quartel fui abordado por um senhor de carro que se ofereceu a levar-me de volta. Agradeci, mas disse-lhe que os militares não tinham ordens para andar de boleia. 19 de Junho de 1961 Fui nomeado, assim como outros colegas, para ir numa G.M.C. aos paióis ao Grafanil que fica a sete quilómetros de Luanda, carregar munições para em breve levar-mos para o mato. Íamos já no Grafanil, a ver aquela bonita paisagem, quando de repente, o condutor que era negro trava, e nós batemos contra a cabina da viatura. Começámos a chamar-lhe nomes e a ameaçá-lo. O furriel que comandava a nossa missão, saindo da cabina começou a ralhar connosco explicando: - O condutor teve que travar para não pisar aquela cobra que ali vai. Todos olhámos, eu nunca tinha visto igual. - Não se podem pisar, senão ficam revoltadas. Assim passam e não ligam a nada - disse-nos o condutor Foi o que aconteceu... 22 de Junho de 1961 Neste dia disse-nos o nosso capitão: - Óh! rapazes se quiserem vão dar mais uma volta. À cidade. Não podem levar a arma, levem apenas o sabre, que amanhã partimos para o Ambriz. Com alguns colegas fui dar uma volta pela cidade. Luanda já não estava tão deserta. Com a chegada da tropa, os civis já se encontravam pelas ruas. 24 de Junho de 1961 Pela meia-noite e meia chegámos ao Ambriz. Aí encontrámos a tropa que íamos render, que nos disse: - Tenham cuidado, eles são vinte cinco para cada um de nós. Logo nós respondemos: - Agora somos cento e oitenta, já há outras contas a fazer. Ao que eles disseram: - Estão três presos na fortaleza. O Ambriz é uma povoação rodeada de água, de um lado fica o mar; do outro as salinas. Tem um recinto fechado com fortes muralhas e uns canhões muito velhos que compõem uma fortaleza onde está instalada a prisão. Nós, para maior segurança, colocámos mais postos de sentinela. Éramos vinte e um militares a entrar de serviço de doze em doze horas. 15 de Julho de 1961 O capitão determinou o dia 15 de Julho. Aí fomos nós, o 4º Pelotão e três civis, um em cada jipão. Entretanto alguém lembrou ao alferes, comandante do pelotão, que as armas eram fracas, eram apenas espingardas. - Então vão duas metralhadoras Draize, o 199 deixa a espingarda e leva uma metralhadora, o 1º cabo Luís deixa também a espingarda e leva outra metralhadora. – respondeu o alferes. - Preciso de um municiador - disse eu. - Vai o 249 - respondeu o alferes. O municiador é um colega que além da arma que leva, tem que auxiliar o da metralhadora caso seja necessário. Íamos perto da primeira fazenda no Quimbembe, à beira da picada que seguíamos, do lado esquerdo estava uma perna de pacaça, um pau de dois metros, afiado dos dois lados e um par de sandálias de borracha. Diz o 318 que era o nosso rádio telegrafista: - Eh pá!... ouviram os carros e esconderam-se... Andámos mais duzentos metros e começou o tiroteio. O jipão da frente estava muito adiantado e ficou cercado. O capim era muito alto, não se via ninguém. Pus-me de pé em cima do jipão. Vi então a uns duzentos metros, numa encosta, muitas mulheres e crianças a fugir. Puxei o gatilho da metralhadora disparando sem direcção. De repente um tiro partiu o pára-brisas do jipão. Baixei-me, não vi mais ninguém. O tiroteio aumentou. - A bazuca faz falta - comentou um colega. Um dos civis que tinha ido connosco meteu-se debaixo do jipão a gritar para irmos embora. Um dos meus colegas mandou-o para vários «lados», e então ele lá se calou. De repente apareceu ao pé de nós o furriel, «o Fala Grossa» que comandava o jipão da frente, a perguntar quem era o municiador da minha metralhadora. É o 249 - respondi. Então vem comigo que o 1º cabo Luís não tem municiador - disse o furriel para o 249. Aí foi o 249. Ao subir para o jipão veio um tiro que lhe rasgou o ombro esquerdo e lhe partiu o pescoço. Puseram-lhe o «penso de combate» que todos nós trazíamos. Já não avançámos mais. A solução era voltarmos para trás. O meu jipão que era o terceiro da coluna, avançou para dar cobertura ao da frente, enquanto o segundo manteve o tiroteio para o primeiro voltar para trás com o ferido. No jipão que ficou a manter o tiroteio começou um colega a gritar, era o 81A que tinha levado um tiro numa anca. A situação era mesmo de voltar atrás. Como não esperávamos esta situação, conforme íamos avançando, lançávamos fogo ao capim, que era muito alto. Por um lado não podíamos seguir com os feridos, por outro tínhamos o fogo que nos dificultava a passagem. Os condutores dos jipões diziam que não se podia atravessar aquela labareda, que os carros se incendiavam. Descemos três soldados e com ramos começámos a apagar onde era mais fácil. Os carros passaram. O tiroteio parou. No meio da confusão eu não me apercebi da passagem do último jipão. Quando me vi sozinho fiquei um pouco aflito e escondi-me. Depois acalmei, sempre tinha comigo a metralhadora com um carregador cheio, não me valia de muito, já que os outros carregadores tinham ido no jipão, mas sempre ajudava. Cheguei-me à beira da picada, com cuidado para não ser visto. Estava a 300 metros do local do tiroteio e o fogo do capim já estava do outro lado fiquei mais calmo. Eu sabia que só davam pela minha falta quando chegassem ao Ambriz. E assim foi. Próximo das doze horas, naquele silêncio, comecei a ouvir o ruído de um carro. Com muito cuidado espreitei e vi-o aproximar. Reconheci-o e saí para a picada. Fui colhido, disseram-me que tinham pensado que eu tinha Ido no último carro. Os colegas que foram comigo apagar o fogo, foram mais espertos do que eu, tiveram mais atenção aos carros do que ao fogo... Neste mesmo dia o 249 foi para Luanda numa avioneta mas como o hospital não tinha as condições necessárias para o tratamento, foi transferido para Portugal, onde veio a falecer durante a operação cirúrgica no dia 27 de Julho. Os civis que tinham ido connosco reconheceram o tiro, e disseram que este partiu de uma arma calibre 10.75, a «bala de elefante». O 81A com o tiro na anca ficou na enfermaria militar no Ambriz. A seguir ao almoço o 3º pelotão, já com a bazuca, dirigiu-se ao local que tivemos de abandonar para saber o que se passava. Contaram-nos depois que ainda lá estava um rádio a trabalhar numa cubata. Possivelmente não tiveram tempo para o desligar ou já não havia quem o desligasse. Ainda neste dia o 1º Pelotão andava na reparação da linha telefónica entre Capulo e Tabi; também foram atacados mas não houve problemas. A partir deste dia «mudámos de coração». 16 de Agosto de 1961 Estava de sentinela no posto número um que é o da entrada para o Ambriz, por estarmos em cima do terraço de uma casa, chamávamos-lhe o «posto do terraço». Saí de vigia às quatro da madrugada, estava a embrulhar-me na capa impermeável para descansar, quando apareceu «o Fala Grossa» num jipe com dois colegas, a perguntar quem é que tinha acabado de sair de vigia. - O indivíduo que saiu de vigia venha cá abaixo falar comigo - disse «o Fala Grossa» . Eu fui. Era para ir com eles à caça. - Eu estou de serviço, não posso. – afirmei Recusei-me até o furriel se «virar de maneiras». Fui com eles, mas pelo caminho disse-lhe: - Veja que só estão dois homens no posto, se alguém se apercebe e se o nosso capitão sabe, «come você» e «como eu». - Vamos só até ao Capulo, mas se não queres ir, salta... - Olhe que eu salto... - Salta, que não fazes cá falta nenhuma!... - disse ele, todo chateado comigo. E eu saltei. Estávamos a mil metros do posto. Eles seguiram, eu com os cabelos em pé cheguei-me à borda do caminho e pensei ficar ali até se fazer de dia. Era uma escuridão que nem o caminho se via, mas depois pensei em ir andando e foi o que fiz. Antes de chegar ao posto, a cerca de 150 metros, chamei pelo 203 que tinha ficado de vigia. Chamei até ele me responder, e fui sempre andando e conversando para que não tivesse dúvidas. Depois contei o caso aos colegas, que já sabiam que «o Fala Grossa» era doido. Eu nunca gostei de ir à caça de noite, é muito perigoso. Antes de eu sair de serviço chegaram eles com uma pacaça no Jipe. Uma pacaça 11 de Setembro de 1961 Estava de sentinela no caminho das senzalas dos negros «Bailundos», junto a um aqueduto onde havia palmeiras secas no chão. Passado um bocado, apercebi-me de qualquer coisa a mexer, era uma cobra a deslizar numa palmeira seca. Como foi tão perto e de surpresa, arrepiei-me. Não fiz nada. Mais tarde contei à rapaziada. Andámos alguns dias a ver se a víamos até que um dia um colega que estava de sentinela viu-a e mandou-lhe uns tiros. Depois houve uma conferência para decidir quem é que a ia buscar. A um negro mais corajoso, o alferes prometeu dinheiro. Com uns paus e peles de árvores que eles faziam de corda, puxou-a para o caminho. Fomos medi-la: tinha quatro metros e oitenta centímetros. O alferes pagou a um negro para lhe tirar a pele e depois mandou-a para Luanda, por um camionista, para curtir. Quando lha trouxeram, não prestava, estava toda furada. Nesta fazenda do Tabi todos os dias às oito horas da manhã, a bandeira portuguesa era içada e arriada ao sol posto. De manhã, antes das oito horas, os «Bailundos» já estavam à nossa espera, pondo-se em sentido quando ouviam o toque e içávamos a bandeira. ![]() Fazenda do Tabi, formatura para o içar da bandeira. 21 de Novembro de 1961 Depois da nossa estadia no Ambriz todas as colunas militares ou civis que fossem para o norte, eram escoltadas por nós. Ia um pelotão buscá-las do Caxito até ao Ambriz e depois outro ia levá-las ao destino. No dia 21 fomos com uma coluna de carros civis que iam para o Zala levar géneros para a tropa. Como não havia carros militares que chegassem para fazer estes transportes, o exército mobilizava os civis. Os que não quisessem ir eram obrigados a alugar a camioneta, que seria conduzida por um militar. Nesta coluna iam os proprietários dos carros. Partimos de madrugada, o caminho já nós o conhecíamos, era muito mau, com muitos buracos, era preciso muita cautela. A uns 40 quilómetros do Ambriz partiu-se o semi-eixo de uma camioneta. A tropa para onde vai leva sempre um rádio de transmissões, para informar o comando do que se passa. Mais não podíamos fazer. Por ali mesmo tivemos de ficar, de olho bem aberto toda a noite, à espera de novo dia. A noite foi passada ao relento, numa escuridão total, na companhia da velha ração de combate e as amigas bolachas... Estava a ser tão longa que pensámos em assaltar uma das camionetas, mais propriamente a que levava grades de cerveja «Nocal». Com categoria no assalto «escapámos» três grades sem os civis se aperceberem, pois estavam a dormir nas cabinas. Duas bebemo-las durante a noite, a terceira ficou escondida à beira do caminho, com um sinal para o regresso. Tudo bateu certo. Esta viagem ficou com o nome de código: «Operação Nocal». De manhã lá chegou outra tropa com o semi-eixo e um mecânico. Dali para a frente tudo correu dentro da normalidade. 04 de Abril de 1962 Recebemos ordens para irmos guardar uma ponte chamada Freitas Morna, a 40 quilómetros do Ambriz. Os pelotões que eram destacados para qualquer lado, não comiam na companhia, recebiam o desarrancho e, ou arranjavam comida ou andavam a ração de combate. Éramos vinte e nove militares, dormíamos em tendas e tínhamos de arranjar comida pois a nossa companhia era desarranchada, recebíamos apenas 15$00 por dia. Na região do Ambriz há muita caça, comíamos mais ou menos bem, mas nesta zona percorre-se uma determinada área e nada se encontra. A caça tinha fugido, certamente por causa do tiroteio e nós também não podíamos ir muito longe, pois éramos poucos. O primeiro-sargento juntava o desarrancho de todos e mandava vir de Luanda os mantimentos necessários para a nossa alimentação. Um dia o furriel, «o Fala Grossa», foi à fazenda do Longe, que fica próximo do Ambriz e comprou uma ovelha por 200 angolares. Prendeu-a junto à minha tenda, eu estava a dormir, tinha estado toda a noite de sentinela à ponte. A ovelha não se calava, e eu, levantei-me e soltei-a, pensando que ela não fugia... Quando o cozinheiro a foi buscar para a matar, não a encontrou. Um colega que me tinha visto soltar o animal, acusou-me. Tive que os ouvir. Resolvemos ir procurá-la, levámos dois jipões, corremos as matas mais próximas mas não a encontrámos. Fomos para uma queimada, e eu de pé no jipão consegui avistá-Ia ao longe. Quando nos aproximámos um pouco mais, mandei-lhe um tiro mas errei-a e deixei de a ver. Continuámos à procura. Passado algum tempo ouvimos um tiro. Bem, só um tiro não há problemas - pensámos. Continuámos a busca, mas nunca mais a vimos. Desistimos, apitámos ao outro jipão e fomos embora. Ao chegarmos ao acampamento, já o cozinheiro estava a esfolar o animal. Quando lhe mandei o tiro e errei, talvez se tenha assustado e virado à esquerda numa picada que vai ter à ponte que estávamos a guardar. O sentinela como sabia o que se passava, viu-a e mandou-lhe... Por dois dias estávamos safos... Passada uma semana o furriel foi novamente ao Loge desta vez comprar um porco que o cozinheiro já preparou para o jantar. No dia seguinte, estava a malta toda contente por ser carne outra vez, quando, por volta do meio dia, o cozinheiro chamou o furriel para ir ver a carne. Estava azul e tinha um cheiro esquisito, fomos atirá-la ao rio. Foi nesta altura que nos apercebemos da enorme quantidade de crocodilos que existiam no rio. Tudo comiam... tudo queriam comer... Esta é uma zona com muitos cogumelos. Por serem tão grandes eu gostava de lhes andar aos pontapés. O furriel «o Fala Grossa» convenceu os soldados 204, 205 e o 215 para os cozinharem. Pois alguns, dizia, eram bons para comer e ele conhecia-os. A comida era pouca, logo foram apanhá-los e prepararam-nos. Passadas duas horas o 204, o 215 e o furriel começaram a sentir tonturas e dores no estômago, desejavam vomitar mas não conseguiam. Tínhamos dois jipões, um tinha ido para o Ambriz buscar comida, por isso pegaram no que restava e Ievaram-nos para a enfermaria militar do Ambriz. Como o 205 não se queixou, não tinha ido. Passada uma hora começou a sentir-se mal, a ficar roxo e já não havia nenhuma viatura. O alferes, comandante do pelotão, comunicou via rádio para o nosso comando no Ambriz e pouco tempo depois chegou uma escolta de jipe para o vir buscar e levar para a enfermaria. Fizemos lá um mês e fomos rendidos, voltámos novamente para o Ambriz. Os colegas continuavam ainda na enfermaria. 29 de Julho de 1962 Fomos ao Toto buscar géneros necessários à nossa alimentação. Aqui, por ser uma zona operacional, já havia manutenção militar, não recebíamos o desarrancho. Como não conhecíamos ainda muito bem o caminho, em locais mais suspeitos, íamos a pé. Neste dia a nossa intuição não nos enganou. Por trás de umas senzalas, a uns 50 metros de nós, vieram várias rajadas de metralhadora de nove milímetros. Eu ia na frente, lado a lado com o 1º cabo 605. Deitei-me logo no trilho das rodas dos carros que ali eram um pouco fundos. Ele lançou-se para uma cova que estava próxima. A malta que vinha logo atrás, reagiu. Depois de tudo ter passado, o cabo 605 saiu da cova a escorrer sangue. Estava lá um garrafão de vidro verde, que lhe cortou a perna esquerda, próximo do quadril. Não fomos embora sem ir ver o resultado da «surpresa» que nos tinham feito. A verdade é que nós não tínhamos culpa de ali andarmos. As ordens... tínhamos de as cumprir, e tínhamos que nos defender. O caminho que liga o Bembe ao Toto são vinte e um quilómetros. No percurso há um cruzamento. Passados uns dias quando íamos novamente buscar géneros ao Toto, encontrámos no cruzamento um papel que dizia: - Deixem-nos sal que nós deixamos fruta. Levámos o papel ao capitão. No outro dia recebemos ordens para lá deixarmos sal, mas pouco, de modo a não abastecerem mais ninguém e para não mexermos na fruta, porque podia estar envenenada. Assim fizemos, deixámos O sal e um papel a dizer: - Não queremos fruta porque nós temos. Foi um bom remédio, nunca mais nos chatearam, mas de vez em quando deixávamos lá sal. Passado algum tempo de estarmos no Bembe, e sem sabermos como, chegou ao conhecimento do capitão a existência de um grupo de negros que se queria entregar, na mata do vale do Loge. O capitão quando «se lembrou», mandou dois pelotões a pé com dois negros para nos dizerem onde era. Partimos à noitinha para de manhã termos o acampamento cercado. Andámos, andámos, até que de repente, nos apercebemos que já estávamos a passar pela terceira vez no mesmo sítio. Os negros, que nos serviam de guias, foram «apertados» pelos comandantes de pelotão ao que responderam que se tinham enganado por ser de noite, mas que de manhã já sabiam o caminho a seguir. Esperámos até ser dia, mas os negros já ninguém os viu. Os oficiais desconfiaram e voltámos para trás. Não se sabia o que lá iríamos encontrar. Podíamos não estar preparados... ![]() Vila do Bembe 14 de Agosto de 1962 Comandava a nossa companhia de artilharia o capitão Pereira de Eça, um antigo chefe de posto. Alguns dias depois apareceu na nossa companhia um sargento despromovido a furriel, tinha sido castigado e transferido por ter virado uma viatura com militares. Este «senhor», para ver se «apanhava» algum louvor, ofereceu-se ao capitão para ir connosco, fazer um reconhecimento a uma mata. Fomos sem levantar problemas, mas não vimos ninguém. O furriel não ficou satisfeito, decidiu que devíamos subir um morro que não tinha mata nem capim. Nós entendemos que só podia ser gozo. Começámos a ficar para trás, ele sozinho não quis avançar. Depois de muita conversa, porque nós não víamos necessidade de ter que subir aquele morro, voltámos. Este «senhor» quando chegou ao Bembe foi contar ao capitão, o tal Pereira de Eça que estava acostumado a lidar com os negros. Próximo da noite recebemos ordens para o 4° Pelotão formar. O capitão à nossa frente falou, falou... e num determinado momento, o alferes, como comandante do pelotão, quis intervir, mas como não tinha ido connosco o capitão não o deixou falar. O Pereira de Eça começou a falar nos artigos na disciplina militar. Ficámos a saber o mesmo, até que chegou a um determinado artigo, que com voz grave afirmou: - ...dá direito a dez dias de prisão.. Aí ficámos no «ar», porque não uma ameaça tão grande. Em segredo combinámos entre todos, que o primeiro a ter oportunidade, na próxima saída para o mato, resolveria «o assunto». Houve quem não se conseguisse calar e contou a um dos nossos furrieis. Passados uns dias, fomos levar o primeiro-sargento ao Toto para ir de avião a Luanda, buscar o nosso pré. O tal furriel foi connosco, pensámos que ele voltava para trás, mas não voltou, foi com o sargento e não regressou. Ficámos todos com um grande «desgosto». Nesta região do Bembe a força do inimigo era baseada essencialmente no uso de minas de vários tipos: havia as de disparo à distância, as de trinco e as de disparo eléctrico. Este último sistema era o que nos causava maiores dificuldades quando nos deslocávamos. Passadas algumas semanas foi-nos entregue um sistema para adaptarmos num jipão, que deveria seguir sempre à nossa frente nas deslocações. Este sistema não resultou. A solução foi andarmos a pé com o detector de minas. 06 de Setembro de 1962 Fomos fazer um reconhecimento à Serra do Lucunga. Nessa missão tivemos o apoio de um P.V. 2 que ia largando bombas à frente, conforme as nossas indicações transmitidas via rádio. Ao segundo dia voltámos para o Bembe. Mais uma missão que correu bem. 26 de Maio de 1963 ![]() A caminho de Sanza Pombo Sanza Pombo, fica a 108 quilómetros de Cangola, era lá que havia um dentista militar. Fomos três para tirar dentes. A poucos quilómetros da povoação os carros ficaram atolados num fundão com lama... mais uma noite em claro. No outro dia quando chegámos à povoação, os civis receberam-nos muito bem. Ali o ambiente era muito calmo, pois a tropa era muito pouca. Perguntaram-nos de onde vínhamos e de que terra éramos em Portugal. Assim, tive conhecimento de uma família, já de mim um pouco afastada, que me tratou muito bem e me deu uma bela refeição. Mesmo com o dente arrancado nem tudo foi mau. Voltámos para Cangola e depois para o Bengo. 18 de Julho de 1963 Fomos transferidos para o Batalhão de Caçadores Número 3, em Carmona. 19 de Julho de 1963 A nossa companhia ficou a ser comandada pelo senhor Tenente Adjunto de Artilharia - Aurélio de Freitas Lopes que viria a ser o nosso comandante até chegarmos a Leiria. No BC3 aguardávamos ordens para regressar Luanda, à espera do dia de embarque para Portugal. Andávamos todos contentes. Quatro dias depois, veio o nosso alferes dizer-nos que ainda tínhamos de ir à Serra do Uíge. Tinha lá andado uma companhia de voluntários, que fugiu, deixando algumas armas e duas viaturas. A malta não se conformou de maneira nenhuma. Agora já no fim, ir para uma missão destas!... Disse-nos o alferes: - Os oficiais também vão contrariados, mas quem manda é o comandante de batalhão. Mas se Deus quiser corre tudo bem... 21 de Julho de 1963 Recebemos ordens para seguirmos em carros até próximo da serra. Connosco foram três negros para nos ensinar o caminho. Os carros voltaram para trás, seguimos a pé. De hora a hora parávamos dez minutos para descansar porque íamos «preparados» para três dias. Na primeira noite acampámos no sopé da serra. Fiquei num cruzamento Até que dado momento Se ouviu uma rajada Diz logo o nosso capitão aos comandantes de pelotão Quero a malta acordada No dia seguinte chegámos ao cimo por um carreiro bem «passeado». O sol não se via em tal mata, o 1º Pelotão ia à frente, nós o 4º, éramos os últimos. O primeiro-cabo Gaspar do 1º Pelotão ia à frente com a metralhadora, quando de repente, caíu dentro de um buraco, que estava camuflado, bem no centro do carreiro que íamos a passar. Atirou a arma para a frente, abriu os braços e ficou suspenso. Nesse momento começou o tiroteio era eu que a transportava, e seguia no último lugar. Com a preocupação do fogo nunca mais soube da vasilha. Só depois do fogo ter parado, à força de bazuca, é que o Gaspar saiu do buraco. Verificámos tudo, da nossa parte estávamos todos bem. Sempre com cuidado, avançámos. Percorridas algumas centenas de metros, encontrámos um acampamento sem ninguém, apenas com algumas galinhas. Ficámos lá aquela noite, mas dobrámos o número de sentinelas. Toda a malta acampada Neste dia não houve nada Mas foi uma noite de agonia Pela noite fora Rajadas de metralhadora Acordavam quem dormia Pouco antes de escurecer, um furriel avisou um posto de vigia que ia fazer as suas necessidades. Num outro posto, de frente ao carreiro, que dava acesso ao acampamento, apareceu um negro, que trazia embrulhado um blusão, cerca de dois quilos de sal. Este indivíduo não sabia que nós estávamos ali. Quando estava a chegar perto do acampamento, a resposta da nossa parte só podia ser uma... Entretanto o furriel que estava a fazer as suas necessidades estava distraído quando se deu fogo, caiu para trás!... Quando apareceu todo sujo e contou o sucedido à malta, desatámos a rir. 22 de Julho de 1963 Sob as ordens dos comandantes de pelotão cada um de nós deu vinte tiros. Não víamos ninguém, mas assim o inimigo ficava a saber que nós estávamos lá. Depois começaram as dúvidas para sairmos dali. Ninguém sabia para que lado estávamos virados e na mata não se conseguia ver o sol. Havia apenas uma bússola. Os negros que foram connosco também não sabiam o caminho. Foi adiantada como solução voltarmos pelo carreiro, mas por aí teríamos «surpresas» e nós não estávamos interessados em mais confrontos. Queríamos era sair dali sem haver mais nada. Não nos interessava nem os carros, nem as armas. - Quem as cá deixou que as venha buscar - era este o lema.. Outro dia lá fiquei E outra noite passei Naquele triste buraco E logo ao amanhecer Sem o inimigo saber Partimos a corta mato Assim os comandantes de pelotão resolveram que deveríamos sair a corta mato até encontrarmos o rio Barunga, que tínhamos atravessado quando começámos a subir a serra... e bateu certo. Encontrado o rio, caminhámos junto a ele, umas vezes com água pelo joelho, outras quase pela cintura e dessa maneira chegámos à ponte que tínhamos passado dois dias antes. Saímos do rio e caminhámos em direcção ao regresso. Próximo da noite e tal como estava combinado, apareceram os carros do batalhão para nos levar novamente para Carmona. 25 de Agosto de 1963 À noite saiu o barco com destino a Portugal... Por tudo que há neste mundo Óh Niassa, não vás ao fundo Já acabou o sarilho A Portugal quero chegar Para saudades matar Da minha mulher e meu filho. Tudo tive que passar E mesmo no alto mar Sentia-me contente Só em me lembrar agora Que saio da tropa para fora Deixando-a para sempre 4 de Setembro de 1963 Chegámos no dia 4 de Setembro a Portugal. De madrugada, o barco ficou no mar até às oito horas. Depois foi-se chegando ao Tejo, até que atracou.
Desembarcámos às dez horas. Desfilámos e embarcámos no comboio para Leiria. No quartel formámos e ouvimos o Comandante Senhor António de Carvalho, o homem que nos viu partir e nos viu chegar; dizer: - Vão para vossas famílias e voltem daqui a vinte dias para fazerem o espólio. Não há castigos nem despesas para ninguém. A minha vida de soldado Depois de tudo acabado. Conto-a sempre que possa E antes de morrer De certo que ouço dizer Que Angola já não é nossa
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