Epístolas ad hoc

Luís Filipe Gonçalves Cardona - Prosa

Epístolas ad hoc

Aos Homens de Boa Vontade
Caríssimos:

Era inevitável esta epístola em tão significativa quadra, à qual vos encontrais visceralmente ligados. Aliás, já vos tornasses num lugar comum, pois todas as instâncias vos evocam quando o Natal se aproxima. De tal modo assim é que as origens históricas da vossa denominação se perdem já - para muito boa gente, é claro - na poeira dos séculos. Se assim não fosse como se explicaria que, nesta quadra, se intensificassem os apelos ao consumo, as incursões pela hipocrisia ou as lágrimas de crocodilo pela miséria alheia?

Mas, que importa isso? Sejamos todos, uma vez por ano, Homens de boa vontade e assim, pelo menos, terei a certeza que aumentarei o número de destinatários desta epístola.

Longe vai o tempo em que os homens de boa vontade pertenciam a uma restrita elite ou eram filhos da simplicidade e da pureza de intenções. Não foi por acaso que o anjo anunciador da Natividade voou por montes e vales a congregar os humildes pastores e viajou até aos longínquos palácios de reis e sábios do Oriente, divulgando a Boa Nova, cantando a célebre Gloria in excelsis Deo et pax in terra horninibus bonae voluntatis muitos séculos antes de Vivaldi ter feito a sua majestosa composição musical.

Pois é, caríssimos. Sinto me feliz quando começo a ser ofuscado pelo brilho de tantas luzinhas e ouço os efusivos votos de boas festas trocados entre amigos, conhecidos e até inimigos. Entusiasmo-me com as orgias de generosidade que enchem os cofres dos templos do consumo e incham a gula dos consumidores. Ah! Que belas manifestações de boa vontade nos dais (nos damos ... ), nesta bendita quadra que, graças a Deus (?), se repete ano após ano, lembrando-nos o vosso importante papel nesta dramática farsa, que a insensibilidade vai representando até à exaustão, sabe-se lá se à espera de um novo Messias, que reponha os níveis da verdade e do amor ao próximo, tão necessários à construção duma nova consciência colectiva.

Desculpai-me. Não era esta a mensagem que vos queria transmitir. Não ligueis ao tom azedo das últimas frases.

Fazei-me o favor de um pequeno esforço. Não custa nada. É só uma vez por ano. Isto é como ser católico. Basta ir à missa ao domingo e comungar, pelo menos, urna vez por ano, para que se preserve o selo baptismal. O que é preciso é respeitar a tradição, mesmo que, para isso, se tenha de fazer o trajecto inverso das emoções, ou seja, em vez de partirdes do sentimento para o ritual, esperar que a atracção pelo ritual faça germinar o sentimento. Depois é só aguardar que o sentimento permaneça e frutifique. É evidente que nem todos vós irão conseguir aguentar a imagem que, de si próprios, fazem no decurso da quadra festiva. Cedo retomarão a carranca do dia-a-dia e mandarão às "urtigas" os votos de tolerância e paciência.

Mas isso só será depois da festa. Fiquemo-nos por ora no agora. Respiremos este ar festivo. Lembrêmo-nos das crianças e dos velhinhos (coitadinhos!), dos pobres e dos doentinhos (pobrezinhos!) e depois enchâmo-nos de santa unção e afivelemos no rosto um sorriso da mais plácida bonomia.

Depois... Bem, depois logo se verá. Para já aqui ficam os meus votos de que a "pax Domini sit semper vobiscum" que é como quem diz que a "paz do Senhor esteja sempre convosco".

21/12/90

Aos Alopécios (vulgarmente conhecidos por carecas)

Caríssimos:

Esclareço desde já que esta epístola não tem qualquer intuito pejorativo até porque "ninguém diga que desta água não beberei" e eu, se não estou já a bebê-la, estou, pelo menos, na fila de espera. Quer isto dizer que o ornamento piloso da minha área capital já vai tendo algumas clareiras de mau, agoiro, para cujo repovoamento têm sido vãs todas as tentativas.

É precisamente para responder um pouco a este tipo de preocupações, que - julgo eu - vos afligem, que hoje venho aqui reflectir convosco.
Começo por dizer que em tempos recuados - ou seja, quando eu ainda me não torturava com preocupações tão comezinhas (?) - estava em curso uma campanha de promoção dos vossos pares de então. Quem não se lembra da frase lapidar: "É dos carecas que elas gostam mais?" Filmes, canções e outras manifestações de índole artístico-popular exaltaram as cabeças lisas a tal ponto que havia quem defendesse que os calvos eram mais inteligentes porque a sua massa encefálica recebia mais directa e profundamente os raios solares com todas as propriedades salutares e energéticas que lhes são reconhecidas. Dizia-se também que quanto mais liberto de pêlos se encontrasse o couro cabeludo maior seria a oxigenação do cérebro o que suscitava o aparecimento de ideias mais arejadas e com um toque de modernismo que transmitia urna imagem de prestígio a quem pertencesse ao clube dos alopécicos.

Não sei se foi por tudo isso que começaram a aparecer em público nomes famosos que faziam gala nas suas cabeças integralmente lisas e luzidias. Estou a lembrar-me de nomes famosos no mundo do cinema tais corno o do realizador Eric Von Stroheim e o do actor Yul Brynner, entre outros.

Ora o somatório de toda esta exaltação que vos foi dedicada mais o acréscimo vertiginoso do número de calvos, provocada pelo "stress" da vida moderna e pela utilização indiscriminada de produtos para higiene (?) do cabelo, devia ir no sentido de aumentar o vosso prestígio e, por via disso, a assumpção do vosso estado sem quaisquer reservas ou complexos.

Afinal o que é que vemos? Uma evidente preocupação em dissimular a calvície, traída, pelos bizarros penteados daqueles de vós que ainda dispõem de orlas pilosas que tentam distribuir pela superfície descoberta ou pela utilização de postiços, não obstante a boa qualidade de sua confecção.

Daqui se conclui que afinal não é assim tão vasto o número daqueles de vós que aceitam com orgulho a sua alopécia apesar das vantagens atrás descritas. Como eu vos compreendo! Basta referir-vos as ansiosas preocupações com que todas as manhãs me perscruto, frente ao espelho, tentando medir a extensão das entradas e a largura das clareiras da minha cabeleira. Quem sabe se não foi por isso que, em tempos, fui atraído para tal preocupação e tenha recriado em verso aquela conhecida anedota do calvo sem resignação.


        Quando um homem chega à beira dos cinquenta
        Dá início a um processo de pesquisa
        Na procura rigorosa, crua e lenta
        Das mazelas que a idade realiza.

        Pois um dia alguém tão velho como eu
        Confessou-me o seu desgosto por ser calvo.
        Realmente o seu cabelo desapareceu
        Só ficando, atrás e ao lado, algum a salvo.

        Na intenção samaritana de o animar
        Disse a rir que visse a parte positiva
        Pois ganhava o tempo gasto a pentear.

        Ele olhou-me duma forma pensativa
        Respondendo que ora tinha de lavar
        Uma cara mais comprida e aflitiva.

        18/04/90

Aos Cinquentões

Caríssimos:

Começo por vos endereçar, num aceno de simpatia, a minha solidariedade. A solidariedade de quem navega no mesmo barco em busca do último porto.
É verdade que ao passar o cabo das tormentas dos cinquenta, o mar é calmo e o vento bonançoso? Ou a calmaria que se instala é o fim da aventura?...
Dupla pergunta para a qual a vida moderna tem apenas uma resposta: a do sistema que determina as nossas vidas.

Lembrais-vos dos vossos vinte anos? Que pensáveis então dos cinquentões do vosso tempo? Na pior das hipóteses que eles eram um pouco "botas de elástico" mas tinham a seu favor o capital de experiência, que, mesmo inconscientemente, vos suscitavam respeito e admiração.

E hoje, como sois avaliados pelo sistema? No mundo do trabalho já vos olham de esguelha e não tarda muito que vos cosam a etiqueta com que vos arquivam na prateleira, empurrados pela juventude ambiciosa, arrogante e impaciente que receia chegar tarde aos patamares que vós conquistasses em duros anos de empenhado esforço.

Nunca tanto como hoje se assiste ao regresso à competição selvagem, não pela sobrevivência, mas sim pelos privilégios, que se implantou nos hábitos e costumes da sociedade dita civilizada. Eis um desabafo que vos oiço com muita frequência.

Isto para não falar do vosso terror noutras áreas do vosso domínio, como as perdas do vigor sexual ou da afectuosidade ou da saúde. Por todo o lado se agiganta o espectro da perda de tudo aquilo que é (ou foi? ... ) o motor das vossas motivações.

E assim vos lamentais em auto-comiserações que mais não fazem do que exacerbar as ambições dos vossos jovens competidores, todos eles com vocação para "yuppies" embora só muito poucos tenham talento para o serem.

E no entanto o remédio é fácil e está ao vosso alcance. Para vós, cinquentões da minha geração, o zênite das vossas vidas chegou. Está nas vossas mãos tirar disso o melhor partido. Em vez de vos lamentardes, agi com todas as qualidades que desenvolvesses ao longo de meio século de vida dura. Dai corpo ao capital de experiência que acumulasses e mostrai que afinal, em vez de estardes prontos para serdes arrumados na prateleira, estais no auge das vossas capacidades. Se assim fizerdes a leviandade institucionalizada e os falsos conceitos de frescura intelectual e de juventude sexual esbarrarão contra a vossa determinação, que porá fim a esta febre doentia que abate a competência e a experiência em nome duma nova fauna de papagaios que medem o próprio mérito pelos decibéis dos seus gritos ou pelo colorido das plumagens com que se pavoneiam.
E, por favor, não tenhais medo de envelhecer porque como disse Saint Beuve "envelhecer é aborrecido, mas é a única maneira que se encontrou de viver muito tempo".

Aos Namorados

Caríssimos:

Sinto-me muito feliz, por vós existirdes. Existirdes como existis hoje. Sim, porque namorados sempre os houve, graças a Deus. Mas não corno hoje. Pois não é lindo ver-vos em todos os lado s dando largas às vossas efusões, sem a preocupação de escolherdes lugares esconsos ou cantos escuros? Estais-vos nas tintas para os olhares reprovadores dos mais conservadores ou para a chacota dos mais boçais. Unis as vossas bocas à frente de quem quer que seja porque nesses momentos ninguém mais existe além de vós. Só por isto mereceis a minha ternura e o meu respeito.

Quem dera que no meu tempo (ai como custa usar esta expressão!... tivesse havido a saudável loucura que nos desinibe e nos alarga o horizonte das experiências entre os sexos, numa idade em que tudo era tabu. Se eu vos contasse corno eram os namorados desse tempo quanta incompreensão e estranheza não passariam pelas vossas cabecinhas... Mas também sei que a vossa generosidade acabaria por admirar a coragem que então era precisa para iniciar uma relação heterossexual. Era preciso muito heroísmo para ultrapassar os inúmeros obstáculos que se erguiam à nossa frente.

Como nos sentíamos escandalosamente fascinados quando, clandestinamente, tínhamos acesso ao conhecimento de ousadias vindas de fora, que os nossos estreitos horizontes mentais tinham dificuldade em assimilar!

Como agora tudo é diferente! É certo que se perdeu o mistério dos labirintos que era preciso percorrer e que punha em permanente excitação os nossos sentidos e accionava todos os mecanismos das nossas imaginações. Agora é tudo feéricamente iluminado. E tudo mais verdadeiro. É tudo mais variado e mais rico. Creio, meus caríssimos, que agora possuis materiais melhores e em mais' quantidade para construirdes uma relação sólida e feliz. Por isso eu estou feliz por vós.

Mas como se isso não bastasse tendes agora, vós namorados portugueses, a promoção de um novo patrono que só há poucos anos se foi instalando no nosso dia a dia, juntando-se aos nossos populares São João e Santo António. Nada mais nada menos que São Valentim que teve efeméride no passado dia 14 do mês passado.

Importado dos países europeus, com destaque para a velha Albion, é mais um sinal visível da nossa adesão à Comunidade Europeia.
Lá se vai a nossa tradicional Quinta-feira da Espiga... Sabeis porventura o que é? Pois eu recordo-vos, ainda que a traços largos.

Esse era (ainda é? ... ) o dia em que rapazes e raparigas, em coloridos e ruidosos ranchos invadiam os bucólicos campos e searas deste país onde colhiam espigas, já grávidas dos grãos de trigo ou do centeio, juntavam-lhes as rubras papoilas e formavam pequenos ramos que trocavam entre si, jurando guardá-los até ao ano seguinte, com veladas ou abertas promessas de namoro, quantas vezes refreado pelas convenções, que normalmente redundavam em casamento.
Agora é tudo mais simples e mais pragmático. Vai-se à florista do lado e compram-se as flores com que se presenteia a outra parte...
Mas que digo eu? Mais simples? Isso é que era bom? Então e o marketing ficava a olhar, não? Nesta era de negócios nada se pode perder. Se não atentai nisto: quis eu no dia 14 de Fevereiro, depois das horas dos meus compromissos profissionais dar expressão material a um impulso afectuoso para com a minha mulher (talvez também contagiado, sem o saber, por S. Valentim) e fui em busca dum singelo mas significativo ramo de flores. Imaginai o meu espanto quando me confrontei com a impossibilidade de dar sequência a tal gesto. E que tanto em Leiria como na Marinha Grande não consegui penetrar em nenhum local de venda de flores porque todas elas transbordavam de jovens amantes de todas as idades tentando dar substância a impulsos da mesma natureza do meu.

Só então me ocorreu que São Valentim presidia a tão agradável quão rendosa manifestação de lirismo colectivo.

Pois bem caríssimos. Embora prefira que todos os dias sejam dias dos namorados (passe o lugar comum) daqui vos desafio a propor ao Parlamento Europeu que institucionalize o dia 14 de Fevereiro, como o Dia Mundial dos Namorados.
Podeis contar, desde já, com a minha assinatura.

Aos Críticos

Caríssimos:

Deixai que manifeste, desde já, a grande admiração que nutro por vós. Efectivamente a segurança com que discorreis sobre obra alheia deixa-me estupefacto e grávido de admirativa inveja.

Primeiro porque há muitos de vós para quem os profundos segredos das artes literária, teatral, cinematográfica, balética, musical, plástica e das manifestações audiovisuais são aquilo a que na gíria se chama "canja".

Pareceis possuir, em elevado grau, uma imaginação feérica e aparentais a sobredotação de um quociente intelectual que nós, pobres mortais como eu, estamos longe, sequer, de abarcar em toda a sua gigantesca dimensão.

Segundo, porque verifico que, quer os mais famosos e sofisticados de vós quer os mais anónimos aprendizes de feiticeiro da arte de criticar, dissertam sobre obra alheia como quem respira não obstante jamais terdes experimentado o acto criador que qualquer obra de arte implica.
Terceiro, porque apesar de nunca terdes escrito um livro ou pisado um palco ou dançado um simples "pas de deux" ou pintado uma tela ou esculpido nem que seja uma colher ou produzido qualquer outra obra de arte, falais delas como se as conhecêsseis por dentro e por fora, já para não focar a facilidade com que referis as motivações e os objectivos que presidiram ao acto criador do autor. Quantas vezes este abre a boca de espanto ao serem-lhe atribuídas intenções que nunca pousaram no seu espírito!

Em quarto e último lugar não podia deixar de salientar a segurança com que abordais a complexa estrutura psicológica do autor ou discorreis sobre o seu perfil humano como se outra coisa não fizésseis na vida que não fosse conviver com ele. Claro que este fenómeno é para mim o mais controverso já que sei que na maior parte dos casos fala-se do autor porque ele é importante respondendo-se assim ao sentido da oportunidade (ou do oportunismo? ... ) se ele vos é simpático ou obedecendo a um mal disfarçado sentimento de despeito se pelo contrário ele vos ignora.

Até aqui tudo bem. Cada um exerce o seu ofício da melhor forma que pode e sabe e não é pecado nenhum que se procure sacar o maior lucro possível quer material quer de realização pessoal.

Porém, onde começo a. sentir-me preocupado é quando pareceis subverter toda a sequência lógica da vossa função.

Quantas vezes minimizais o objecto da crítica em favor do seu sujeito?
Quantas obras que vos são endereçadas para serem criticadas transitam directamente para os caixotes do lixo da vossa ignorância e do vosso desprezo, única e exclusivamente porque os seus autores são anónimos e não têm a sorte de terem um padrinho influente?... Apenas investis a vossa atenção se o autor já é famoso, se é vosso amigo ou se é recomendado por pessoa de elevada influência. E é assim que, por vezes,: nos é servido gato por lebre só porque vós o decretasses.

Este é o panorama, que a minha observação tem vislumbrado, construído por aqueles de vós que se movimentam nas grandes áreas do métier.

Mas, se transitarmos para estas bandas onde o vosso estreito provincianísmo se exibe, então o panorama ainda é mais lamentável porque o "pretensionismo" dos aprendizes de jornalismo e dos auto-proclamados críticos de todas as artes fazem incidir os seus limitados atributos sobre a obra alheia cuja autoria se circunscreve no exíguo raio de acção onde se movimentam.

Aqui o marginal está condenado a ficar na sombra não obstante, de vez em quando e por distracção, ser apanhado por um fugaz raio luminoso.

Qualquer evento por mais banal que seja movimenta todas as boas vontades para ter brilho não só para o criador como também para quem o promove.

Quantas vezes, em certas actividades, são os próprios que movidos por um sentido de justiça e de humildade se auto-criticam por terem falhado ou não, terem feito tão bem como desejariam e vem o crítico que, é amigo, visita de casa ou precisa da influência do actor/autor, e lhe tece os mais elevados encómios numa atitude quantas vezes hipócrita mas sempre anti pedagógica porque rouba ao louvado o seu sentido de autocrítica.
Creio bem meus caros críticos que deveis começara pensar melhor na responsabilidade que tendes sobre a escolha dos fios com que teceis as vestes do Rei que cada vez anda mais nu.

Ao Poeta Rodrigues Lobo

Caríssimo:

Parecer-te-á absurdo que eu esteja a endereçar esta epístola a alguém que já há muito deixou de pertencer fisicamente ao número dos vivos.

Porém, como ficaste perpetuado na memória dos homens e até partilhas antologias literárias, sinto como se estivesses aqui a fazer parte do nosso dia a dia. Aliás, todos os dias - e mais que uma vez por dia - te olho aí no pedestal em que puseram a tua bronzeada representação escultórica. É pena que apenas te olhe, ainda que com frequência.

Gostava ora de te ver mais e melhor. E quem diz eu, diz os milhares de pessoas que diariamente passam ao teu lado sem te ver, preocupados como estão em cumprir horários e em encontrar um hipotético e exíguo lugar para arrumarem o veículo num espaço limitado e já saturado de tantas latas móveis.

Já viste em que se transformou esta terra tão pacata e tão bucólica que se espreguiçava aos pés do Castelo e se mirava nas límpidas águas do teu Lis?

Como isso já vai longe!...

Já Leonor não pode, descalça, formosa e não segura ir à fonte pela verdura. As Leonores de hoje andam bem calçadas e seguras pisando o asfalto e as fontes que procuram não são as da água cristalina mas sim as de outros fluídos que o teu pudor nem sequer deixaria imaginar.

Mas dizia eu que muitos te olham e poucos te vêem. Caso contrário não serias tão mal tratado, tão ignorado. Ignorado, digo bem. Basta olhar para a peanha que suporta a tua estátua. Quem quiser decifrar a legenda com o teu nome e a data do teu nascimento, terá, por certo, muita dificuldade em te identificar pois que, há muito, muito tempo, várias letras, em bronze cunhadas, desapareceram sem deixar rasto. Provavelmente surripiadas pelos mesmos que, em nocturnas diversões, se entretêm a aliviar os automóveis dos nomes das respectivas marcas e de outros acessórios de possível remoção e fácil venda.

Mas o que mais me dói é ver-te sepultado sob aquele caótico mar de veículos, anarquicamente enfileirados, enchendo a tua praça de poluições quase impossíveis de suportar.

Como deves sofrer!... Aí empoleirado, olhando para o teu Castelo como quem se recusa a assistir ao degradante espectáculo que a tua delicada e bucólica sensibilidade jamais poderia aceitar, pareces sufocar um grito de revolta e indignação.

Pois é meu caro. Os tempos mudaram muito desde que te foste. As tuas éclogas e cantigas servem hoje apenas para recordar aquilo que os ecologistas do meu tempo não se cansam de pregar. Quantas vezes no deserto!...
"O Bem tarda e foge, O Mal chega e dura". Estes dois versos de uma das tuas cantigas definem bem, ainda hoje com muito ênfase, aquilo que no teu tempo já era preocupação dos poetas. A tortuosa natureza humana segue o seu curso acidentado, galgando frequentes vezes as margens da ética e da estética sem curar saber de quem sofre. Mas, ainda, o pior de tudo é a hipocrisia que corrói as mais puras intenções. Esperar o bem de quem nos suplica um voto de confiança é o mesmo que passar um cheque em branco a qualquer vigarista que nos seduz com falinhas doces.

Por isso eu penso que tinhas toneladas de razão quando dizias:

"Sois árvore verde
que promete muito;
quando vem o fruto
nas flores se perde".

Quase sou tentado a dizer que, já no teu tempo, as promessas eleitorais eram o ópio das multidões.

14/2/90

Aos Defensores da pureza da Língua Portuguesa

Caríssimos:

Onde estáveis vós no passado dia 4 de Junho quando os representantes eleitos pelo povo, reunidos no seu areópago, decidiram votar a favor do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa?

Onde vos escondesses depois, sabendo que tal votação deliberou que, a partir do dia 1 de Janeiro de 1994, passaremos a ter entre outras coisas, os fatos mais curtos e os atos mais soltos? Já vos destes conta da grande confusão que vai haver? Sem aquele "c" antes do "t" ninguém se vai entender..

Como é possível que em toda a minha vida, me tenham fiscalizado a ortografia, em nome da pureza da Língua, obrigando-me a produzir milhares de ditados e outras tantas composições literárias e agora que julgava que tinha conseguido aproximar-me. da perfeição - seguindo atentamente a escrita dos maiores vultos da literatura nacional - eis-me condenado a concluir que, afinal foi tudo trabalho baldado?

Então corno é? Porque razão vos calais, vós que omnipotentemente decidíeis, outrora, que os erros de ortografia eram erros de palmatória e determinavam o "chumbo" ou a "raposa", atrasando, desse modo a progressão na vida escolar de muito cidadão respeitável deste país?

Então agora deixais-me aqui sozinho e abandonado, qual abencerragem que, de repente, se vê desarmado na luta contra os arautos de uma mudança sem sentido? Ora essa! Eu não posso aceitar isso. Seria o mesmo que dizer ao teísta, de uma forma brusca e repentina, que afinal Deus não existe.

Será isto mais um sinal dos tempos? Ou seja: também aqui aqueles que, comodamente se estiveram nas tintas para o aperfeiçoamento da escrita, irão agora beneficiar desta elasticidade ortográfica para dissimularem a sua ignorância em tal matéria? Estaremos também, nesta área, a abrir o caminho à mediocridade? Se tal acontecer, o vosso silêncio será entendido como uma perigosa e miserável conivência com aqueles que investem contra o bom senso e o bom gosto.

Deixai que, a talhe de foice, vos conte esta pequena anedota passada entre o autor destas linhas e uma jovem pupila sua, recentemente licenciada que, ao elaborar um relatório de natureza profissional, utilizou o aberrante vocábulo "exolar" em vez de isolar. Chamada à atenção para aquele insólito termo, apressou-se a dizer. "Ai desculpe. Afinal é com um z".

Pois eu já decidi: para mim o "óptimo" há-de ser sempre com o p" no sítio. Os meus comentários serão sempre feitos sobre os "factos". Dos fatos que eu usar falem os alfaiates ou os senhores do pronto a vestir.

Dos meus actos há-de sempre constar o "c" porque felizmente ainda ato e desato os muitos nós que a vida nos dá.

Procurarei escrever com subtileza, porque a sutileza não leva a lado nenhum. E chamarei a corrupção com todas as letras, incluindo o "p", que está lá muito bem para lhe dar todo o peso que o conceito contém.
Também os meus heróis hão-de continuar a ter o acentozinho. Aos heróis não se deve subtrair nem um acento,, por mais pequeno que seja. Basta terem sido heróis, pois, para o serem, tiveram de ir desta para melhor (nem todos é claro ... ).

Para mim é também ponto assente que todas as palavras esdrúxulas levarão acento ( é lá possível esquecer essa regra de ouro dos meus tempos de juventude! ... ) ainda mais se tais palavras forem homógrafas.

Hei-de utilizar sempre o hífen. Que o homem não separe aquilo que o tempo sempre uniu. Já basta a facilidade com que, hoje, as pessoas se divorciam por dá cá aquela palha. Para que havemos de promover o divórcio das palavras unidas pelo hífen, se elas não se queixam de tão longo casamento?

Acordai ò defensores (?) da pureza da Língua Pátria! Contra-atacai com o que de mais vernáculo nos distingue! Regressai às origens procurando e dignificando palavras tão nossas, que quase deixámos morrer, por as não utilizarmos, em beneficio dos neologismos importados!

Somos um povo de galhobanos (estranhos) costumes, mas ainda estamos a tempo de evitar que nos tornem ainda mais labruscos (incultos). Deixêmo-nos de ser tão lerdos (acanhados) perante os que nos vem de fora. Não permitamos que nos xinguem (trocem) ou nos pamparreiem (enganem), Não deixemos que o quebranto (abatimento) nos invada.

Caríssimos: Há para aí tantos bigorrilhas (intrujões) jagodes (imbecis) e incheridos (convencidos), para não falar na grande legião de ínscios (ignorantes), que se torna cada vez mais difícil fazer uma destrinça (análise) que permita separar o trigo do joio. No entanto aqui vos exorto a estar atentos à grande inópia (falta) de desluzimento (vergonha) que levou à aprovação deste Acordo. Só assim a nossa luta não será machorra (estéril).

25/10/91

Aos Fumadores

Caríssimos:

Começo por vos dizer que já fui sócio do vosso clube. E comecei cedo, acreditem. Tinha apenas oito anos quando iniciei os primeiros passos na senda do tabagismo. Nesse tempo o único medo que me acossava era o de ser denunciado pelo cheiro da combustão cigarral junto dos responsáveis pela minha educação. Sabe Deus as técnicas que utilizava para afastar os indícios da transgressão! É que se o não conseguisse lá vinha a punição, pesada e dolorosa.
Mas não vou aqui fazer-vos a história do meu trajecto de fumador nem tão pouco dos inúmeros episódios que, nessa qualidade, esmaltaram a minha juventude. Apenas vos direi que já passaram doze anos desde que rasguei o meu cartão de sócio do vosso clube. Até hoje nunca caí em transgressão apesar de nos primeiros meses de abstinência, a tentação me ter rondado de muito perto, sendo necessários prodígios de força de vontade para lhe resistir.
Mas a propósito de quê vos escolhi hoje para alvo da minha epístola? - perguntareis vós. Pois bem. É que, pela primeira vez, tive consciência de que existe o dia do fumador, assim como há o dia do ambiente, do teatro, da música, da mulher, da criança e os dias das ligas contra isto e contra aquilo... eu sei lá que mais. Mas, não obstante a inflação dos "dias de ...... é sempre uma honra ter um dia especial, mesmo que seja o do fumador, uma raça que se pretende em vias de extinção.

Pois no dia que vos foi destinado descobri que nutro por vós um sentimento de trágica admiração. A mesma admiração que me suscitam os trapezistas, os alpinistas, os aventureiros em geral e todos aqueles que arriscam diariamente a vida e para quem o perigo é a sua profissão,
Mais do que corajosos, vós sois temerários, pois só temerários conseguem transportar consigo, usando-os comodamente, os instrumentos da sua auto destruição com o mesmo à-vontade com que bebem um simples copo de água.
Sim, porque eu creio que tendes plena consciência dos efeitos nefastos que o fumar tem na vossa saúde.

Deixai que recorde aqui uma pessoa que me foi muito querida que, sempre que levava aos lábios um cigarro dizia com um sorriso de trágico humor: "Cá vou pregar mais um prego nas tábuas do meu caixão", ou então: "Vamos lá subtrair mais um dia ao pé de meia da minha vida". (E assim se foi do meu convívio mais precocemente do que ele, provavelmente, suporia).
Realmente as responsabilidades imputadas ao tabaco bastariam para o banir integralmente dos hábitos da humanidade. Ele é, já, o principal candidato a inimigo público número um, tanto para vós, que o usais voluntariamente, como para nós, a quem impondes o vosso hálito, poluído de substâncias venenosas.
E vós, fumadoras, desculpar que vos diga que no meu tempo se contavam pelos dedos as representantes do vosso sexo que fumavam. Hoje, a vossa emancipação não encontrou melhor forma de se afirmar. Lembrais-me os povos subdesenvolvidos que, quando entram em contacto com os povos mais abastados, só imitam o que eles têm de mais nocivo por ser o mais fácil de assimilar, julgando que assim atingem, mais rapidamente, os estatutos de modernismo e da sofisticação.
Por favor, não me interpreteis mal. Não sou um ex-pecador que se encarniça contra os pecados dos outros por já não ter a coragem de também os praticar, mas apenas um cidadão preocupado com a vossa longevidade. É que, quando vos vejo de cigarro nos queixos, vem-me sempre à lembrança a imagem de uma caveira sobre duas tíbias cruzadas com a seguinte legenda: FUMAR EMAGRECE. SE QUEREIS CHEGAR RAPIDAMENTE A ESTE ESTADO, CONTINUAI FUMANDO.

30/11/90

Aos Amigos do alheio

Caríssimos:

Longe vai o tempo das histórias de polícias e ladrões que preenchiam o imaginário das nossas infantis brincadeiras, influenciadas 'pelas bandas desenhadas de então ou pelos filmes que, gulosamente, conseguíamos consumir, sabe: Deus à custa de quantas tentativas para juntar os tão ansiados vinte e cinco tostões que nos dariam direito a um assento nas bancadas da "geral" do cinema da cidade.

Nesse, tempo o ladrão era sempre o mau da fita e passava todo o tempo do filme a furtar-se à perspicácia e à persistência do polícia ou do detective que, gradualmente, ia descobrindo a pista que lhe daria o direito de capturar o marginal. Quantas vezes esse marginal da lei, apesar de ser o mau da fita, concitava a nossa admiração pelo arrojo e até pela nobreza com que assumia o seu papel. Ainda era o tempo em que. o bem, em luta contra o mal e a rnarginalidade, levava, quase sempre, a melhor.

Eram assim os vossos mais lídimos representantes de então. Desde o ladrãozeco de meia tigela até ao ladrão de alto gabarito, havia uma espécie de código deontológico que lhes transmitia uma certa poesia, mesmo quando usavam métodos menos ortodoxos. Estavam tão bem caracterizados que ninguém tinha dúvidas quanto à sua verdadeira natureza.

Como os tempos mudaram desde então! ... Hoje, vós, nada tendes a ver com os amigos do alheio do meu tempo. A selva instalou-se e não há deontologia que vos valha. A transparência desapareceu e a desconfiança alastra. Mesmo quando julgamos conhecer-vos a todos, eis que somos surpreendidos por descobertas cada vez mais desconcertantes. Sois tão sofisticados que ficamos atarantados, sem sabermos onde acaba a sedução e onde começa a amizade pelo alheio. Hoje viveis rodeados das modernas técnicas de marketing que vos forjam a mais sedutora imagem corri a qual abris todas as portas que a nossa desconfiança trancou. E quando nos damos conta da vossa avassaladora amizade por aquilo que é nosso, quantas vezes não é, já, demasiado tarde. A engrenagem tomou conta de nós e lá vamos na onda.
Mas a verdade é que vós, amigos do alheio, revestis hoje, tantas e tão variadas formas que nós, cidadãos comuns, nos encontramos indefesos perante a vossa lógica. Lógica que assenta no primado da lei do mais forte. E o mais tenebroso é que não há polícia que vos neutralize. Os vossos tentáculos são inúmeros e poderosos e entram, com a maior sem cerimonia, no interior das nossas bolsas. Os vossos bandos de outrora não passavam de meras associações recreativas de bairro, em comparação com a vossa realidade de hoje.
É o caso, por exemplo, da EDP que, sem qualquer aviso prévio, nos factura consumos que não consumimos ou nos obriga a pagar o efeito de avarias de material que os anos tornaram obsoleto e que já pagamos vezes sem conta. Isto para não falar dos aumentos arbitrários das tarifas de consumo. E o que dizer das Seguradoras? Mal um cidadão se precata e eis que recebe uma carta informando que o prémio do seu seguro - que a lei diz ser obrigatório - aumentou mais uns pontos percentuais porque a Seguradora registou prejuízos muito acentuados. Como se a culpa nos coubesse a nós, que pagamos pontualmente os nossos prémios e nos vemos aflitos para receber as indemnizações a que temos direito, quando temos o azar de qualquer sinistro. Mas há organizações que tentam usar estratagemas que julgam subtis mas que não passam de grosserias formas de enganar o incauto cidadão. Veja-se o que os CTT inventaram recentemente: o famigerado Correio Azul. Serviço que veio pôr em causa toda a máquina da distribuição, para além de querer justificar o aumento da franquia, sem dar nada de novo em troca. Não teria sido mais honesto aumentar os preços e manter o mesmo serviço? É que assim paga-se mais caro por pior serviço. E ficamos todos azuis de raiva.
E os exemplos podiam multiplicar-se sem grande esforço de imaginação. Hoje, como sempre, continua a ser verdade que o que custa é saber viver, mas esse saber viver é, cada vez mais, construir o bem estar de uns sobre a desgraça de outros.

10/5/91

Aos Casais modernos

Caríssimos:

Desde muito novo que comecei a familiarizar-me com um aforismo que, no tempo da minha avó, era frequentemente citado, principalmente quando havia por perto, candidatas femininas ao matrimónio, Talvez por isso tenha considerado sempre esse aforismo como de inspiração tendencialmente matriarcal. É que os tempos da minha primeira infância - época em que mais amiudadamente ouvia citar o referido axioma - foram vividos numa comunidade familiar em que o único representante do sexo masculino - em tamanho reduzido, como é evidente - era eu.

Mas agora reparo que ainda não enunciei o motivo desta epístola, o que vos impede de acompanhantes a sequência do meu pensamento. Pois o aforismo é o seguinte: O casamento e a mortalha no céu se talham.
Devo dizer-vos que a pequena comunidade familiar em que me inseria constava de três viúvas e três jovens mulheres, duas das quais em idade casadoira, e eu próprio. Por aqui já é fácil de entender a introdução desta epístola.
Admito, sem nenhuma dificuldade, que o vosso modernismo ache a mensagem desta máxima completamente desactualizada. No entanto penso que tal opinião é mais aparente do que real, como mais adiante podereis verificar. Confesso-vos que sempre relacionei este aforismo com a fatalidade feminina, por razões óbvias. A morte e o casamento viveram sempre juntos na saga feminina. O casamento era-lhe talhado no berço ou determinado pela vontade e interesses dos mais velhos consoante fosse mulher de fina estirpe ou de plebeia condição. Só comparável a esta imposição apenas o determinismo da morte, ou seja, o destino que traçava o dia, a hora e as circunstâncias em que cada um "arrumava as botas". Felizmente que, lenta mas seguramente, nos vamos libertando de um e de outro. Hoje a mulher já tem liberdade de escolha e a esperança média de vida não cessa de aumentar.
Claro que o casamento se caracteriza, hoje, pela fragilidade dos laços, bastando - em cada vez mais situações - uma ligeira borrasca para que os votos de amor eterno e as promessas solenes de fidelidade perpétua se desvaneçam no emaranhado das relações humanas cada vez mais complexas.
Não é por acaso que o número de divórcios cresce em progressão geométrica sem que, por isso, os casamentos deixem de alimentar a curva ascendente das estatísticas, o que leva a concluir que a média etária dos matrimónios vem baixando vertiginosamente.

Em face do exposto estais já a perguntar-vos onde é que eu pretendo chegar, pois tudo o que ficou dito veio em abono do vosso modernismo, porquanto, hoje mais do que nunca, nem o casamento nem a morte se talham no céu mas sim cá na terra e com os pezinhos bem assentes no chão. Nesta terra que teimamos em tomar num inferno em vez de a voltar a transformar no paraíso que já foi. Aliás não sei se os maus tratos que a mulher sofreu ao longo dos séculos não foram o castigo de ter sido ela a mais directa responsável pela nossa expulsão do Paraíso. Mas deixemos isso que eu não estou aqui para julgar ninguém. Os homens têm demasiadas culpas no cartório para se darem ao luxo de atirar pedras às mulheres. Até porque numa mulher não se bate nem com uma flor, dizem...

Ora bem. A febre de revivalismo que, em muitos aspectos do comportamento humano, tem vindo a invadir praticamente todo o mundo, também contagiou e afectou a actual fragilidade do matrimónio, numa esforçada tentativa de repor a solidez e a constância dos bons velhos tempos, tentando contribuir para travar a dissolução dos costumes.
Para tanto está em marcha todo um plano logístico que permitirá implantar o ritual solene que consubstanciará as sagradas e irrevogáveis promessas que vós, casais modernos, assumireis perante Deus e perante os homens. E este movimento é tão imparável que nos Estados Unidos (onde é que havia de ser? ... ) começaram a surgir as primeiras agências matrimónio - funerárias que se encarregam não só de todos os preparativos para a cerimónia do casamento como, em simultâneo e à distância, do funeral dos noivos desde que estes jurem, inequivocamente, amor eterno e abstenção absoluta de facadas no matrimónio. Assim se promove a consistência do casamento e se desencoraja o aparecimento de candidatos à Sida. Olhai se a moda pega neste cantinho à beira mar plantado?

14/12/90