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| Maquinais |
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Luiz-Manuel - Prosa Maquinais (prefácio) Maquinais (prefácio) Nem só um livro de poemas luminosos nos faz ver melhor; nem só um livro de poemas de amor nos pode comover; nem só um livro de poemas de intervenção nos transmite um juízo sobre os homens, a sociedade e o mundo em que vivemos; nem só um livro de um jovem poeta pode ser considerado uma revelação. Maquinais, de Luiz-Manuel, tacteando no escuro e nas trevas do amor e da memória, é um livro eminentemente lúcido que, apesar de se construir sobre as ruínas do corpo e sobre o pressentimento da velhice, suscita em nós uma grande ternura e que, recorrendo às artimanhas da ironia, sem qualquer espécie de miserabilismo, nos recorda a desgraça moral e social dos nossos dias. Desta obra lúcida, inteligente, mordaz, tantas vezes impiedosa e até ímpia, me parece, pois, poder dizer-se que constitui a verdadeira revelação em português de um novo poeta — embora já com dois livros escritos na nossa língua e um bilingue —, por paradoxo e circunstâncias da vida e do passado, sobejamente conhecido na Suíça pela poesia que, de há muito, tem escrito em francês. Encontramo-nos perante uma poesia que pensa, mas não daquela forma linear, dedutiva, quase fria de que normalmente se reveste o chamado conhecimento racional — não, aqui pensa-se quase se diria em círculos, muitas vezes num aparente terreno escorregadio, com o perigo do ensimesmamento sempre à espreita, até por uma marcada preferência por paisagens de águas represas, sejam elas pantanosas, subterrâneas ou geladas. Daí, julgo eu, uma primeira sensação de enleamento que pode afastar da leitura aqueles que não tiverem a prudência necessária para esperar pelas iluminações, pelos saltos bruscos em frente, pelo tipo de descoberta em que o poder da palavra à solta nos põe a razão a ofegar e nos recompensa em inteligência e beleza (como por exemplo, no primeiro poema, aquela “outra ratoeira / Do destino outra capa vermelha para o touro / Que julgas ser ainda”). De que trata este livro? À primeira vista, de uma coisa ao mesmo tempo tão trivial e tão séria como a solidão, a moral e a social, ambas evidentemente correlacionadas — basta atentar em “Subterrâneos”: “O mundo que te cerca / faz de ti um prisioneiro — faz / de ti uma prisão” —, mas alvo de fazeres poéticos bastante distintos. Em traços largos, quero com isto dizer que a voz do sujeito que se enovela dentro de si próprio em busca de uma infância “em tão mau / estado que mais parecia um pesadelo”, que, no seu “coração mal aparafusado” descobre “emoções — jovens de mais graníticas / De mais para a máquina cansada / Do meu corpo”, que examina, reexamina, provoca o mecanismo da memória que, afinal, por algo como uma imobilidade enregelada, acaba sempre por não desencadear — à excepção, talvez, das paisagens domésticas e, agora solares, evocadas sob o signo de José Gomes Ferreira —, essa voz é muito mais tacteante, muito mais hesitante, muito mais colada às subtilezas do pudor do que aquela, afirmativa, sarcástica, cruel, capaz de incisivamente falar dos “Predadores. Muito / cínicos. Vivem de nevoeiros / e de rapinas: inventam / as regras do jogo só depois / de terem despojado / os outros jogadores” ou do conservador que suplica “Assim foi / Assim é / Assim seja”. Mas, vendo melhor, a estas solidões, sobre as quais Luiz-Manuel constrói uma espécie de tratado sobre o mal imanente e o mal social sobrepõe-se (ou subjaz?) a tremenda solidão a que um Deus a dormir vota um “Universo já [...] farto de esperar”, onde “Em vão existem grades e prisões / Em vão há os que morrem ou padecem // [...] Em vão floresce a hóstia no sacrário.” Poderia, portanto, afirmar-se que o saldo deste livro se revela altamente negativo quanto ao capital de indulgência do homem em relação a si próprio, no seu presente crepuscular — “já se amodorra / A esperança — já nem rosnam os mastins” ou: “o que de mim ficou: / poeira muito fina” — , na sua tentativa de ressurreição da infância — “A minha infância é cinza no meu peito” —, na busca da partilha — “ Ninguém bebeu da água que em mim surdia” — ou na procura do amor — “já nunca mais aqui há-de embarcar / a ternura o desejo a emoção / ouve-se ao longe o comboio apitar / há frio há gelo muita solidão”. Como muito pessimista se mostraria o pensamento do autor sobre a humanidade a que pertence — “Suspeitamos da eternidade. Suspeitamos / das bruxas das fadas e ainda mais / das incertezas — dormimos sempre / com as janelas fechadas” — e da forma como foi por ela tratado — “mando-te lembranças / dos vampiros que me sugaram / o sangue absorto reles vampiros / humanos que me esquartejaram / que me comeram a carne / que me roeram os ossos”. E, no entanto, a poesia autêntica é sempre caleidoscópica, como, aliás, o nosso autor explicitamente reconhece num texto que para outro do seu livro remete: “Coração arde e suspira / Faz frio no labirinto / Ninguém sabe se é mentira / Ou se é verdade o que minto”. Com esta reminiscência pessoana do fingimento fica feito o aviso à navegação quanto ao perigo de uma rota em que precipitássemos a obra no desejo de ausência tão reiterado através de um vocabulário repleto de termos de privação: “Águas mortas sem passado / sem memória onde se afunde / a pedra que me atiraram / da janela sem caixilhos / sem vidros e sem cortinas / e sem rosto onde habitasse” ou “Já não há / dinheiro em caixa ninguém / me fia mais nada ninguém ninguém / ninguém ninguém. Ninguém. / (Nem sequer tu.)”. E alertados ficamos para o reconhecimento plenamente afirmativo da capacidade de criação, aqui e além enunciado a contragosto, “abrindo caminho como o bicho / Na madeira ou a broca no dente cariado”, “Sem mais horizontes / que esta loucura mansa de escrever”, mas reiterado com a maior insistência no estrito e indesmentível facto da escrita. A alegria da feitura transparece, desde logo, no gosto pela arquitectura: este livro não é uma mera colectânea de poemas, mas um todo articulado, com uma divisão em partes, uma disposição não inocente dos textos e não poucas remissões internas; é também uma exuberante demonstração da versatilidade de um autor capaz de construir poemas “seriais” (“O coração mal aparafusado”, a abrir o livro e a primeira parte, “Máquinas de sofrer”, “Paisagens extraídas da memória”, pouco depois do começo de “Máquinas da memória”, “Correspondência meio comercial”, no início de “Máquinas de maldizer” e “Angelografias” nas “Máquinas celestiais”), mas também capaz de poemas curtíssimos, lapidares, que nalguns casos até poderiam ser adoptados como “rifões” da sabedoria destes novos tempos (como “Tudo na mesma”, “Desarticulação”, da primeira parte, “Obliquidades”, da segunda, “Miragem”, “O jogo do poder”, “Desmentidos”, “Percentagens” ou “Súplica do conservador”, da terceira, a muito bela “Solução de continuidade”, da quarta, ou “Deus dormia”,da quinta); constitui ainda um variado repositório de géneros, desde a mera e aparentemente corrida descrição, passando pela simples narrativa até poemas eruditos rimados e quadras de inspiração que se diria repentista, e me aparecem, juntamente com o gosto pelo verso muito curto, como a mais forte ligação de Luiz-Manuel à tradição portuguesa. Por outro lado, e esta é uma razão da força e da originalidade de Maquinais, a matéria verbal é como que amassada sem qualquer respeito por hierarquias como sagrado e profano (disso constituem sobeja prova as “Máquinas celestiais”), elevado e corriqueiro (lembro, por exemplo, o título “Trocas e baldrocas” para um poema de amor bem pouco humorístico), poético e prosaico (com que a “Correspondência meio comercial” tão bem joga). Talvez radique nesta irreverência um dos encantos maiores do livro, e é uma ironia mansa, outras vezes feroz , a temperar um extremo desespero, um humor quase de anedota a adoçar de inteligência e lucidez o sofrimento, e, de um lado, um autoconhecimento compassivo a limar a dilaceração (“Esperei por ti eternamente / Esperar é provisório — cai-me bem”), ao passo que, do outro, a consciência da vanidade corrige a autocomplacência (“A galinha choca do meu coração / por aí anda ainda — mas perdeu / o norte, já não come nem bebe, / nem esgaravata no chão”). Porém, muito incompleta ficaria esta apresentação se nela não fosse referido um dos trabalhos mais interessantes e inovadores do livro, aquilo a que poderia chamar-se a “encarnação da imagem”. É o caso de poemas como o inicial e já mencionado “Coração mal aparafusado”, “Peles de coelho”, “Correspondência meio comercial”, “Carta do Sr. Protão”, “Ases do marketing”, “Espirituais aventuras no céu” e, obviamente, das “Angelografias”, nas quais o procedimento é levado às suas últimas consequências, ou seja, à criação de personagens concretas e como tal tratadas, com suas acções, paisagens próprias, aventuras e desgraças — tudo isso a partir de ideias abstractas, utilizadas, em primeira mão, como termos de comparação ou correlatos metafóricos. Como se, descarnadas da sua ligação ao concreto, através do pensamento figurado, as palavras-segundas se esquecessem do seu papel nas figuras de retórica e começassem a ganhar corpo, contornos, voz ...e mesmo o seu lote de maldade (de “O anjo cozinheiro”: “Quando houve / o levantamento de rancho / Deus foi-se a ele / e cortou-lhe as asas / com uma tesourinha muito velha / já meio ferrugenta”). Maquinais termina com a parte intitulada “A máquina de caminhar”, com uma bela epígrafe de um muito excelente e muito esquecido poeta, António Luís Moita, citação onde se lê que “Só com raízes no chão / tem asas livres o homem”. Em contraste com as outras partes, de aproximadamente dezena e meia de poemas, esta contém um único, que se chama “Caminhada” e nos parece uma homenagem à vida humana e à Grécia como origem e como destinação — mas Luiz-Manuel sabe que Creta às vezes se chama prosaicamente Marinha Grande e que, lá dizia o outro, “da minha aldeia vê-se o mundo inteiro” ... Joana Morais Varela
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