A vida de um emigrante

Victor Maria - Prosa

A vida de um emigrante

Nota de Abertura

Amigo Leitor:

Venho pela primeira vez apresentar esta história que para alguns será simples descoberta e para outros a infadigável lembrança de tempos que foram duros, de mágoas ainda abertas, de esperanças e desconfianças. O mais discretamente possível falar do peso do fardo, e se possível for, torná-lo um pouco mais leve. Do meu avô, porque o avô é a PÁTRIA DA FAMILIA.

Da planície, porque na planície vive Marinha Grande.

Da Marinha Grande porque nela vivem os meus colegas operários, e porque permaneço ligado à sua legítima condição, porque condeno a perseguição de que têm sido alvo.

Da França porque lá conheci uma Vida diferente. Dos Emigrantes por saber que para eles não há fronteiras e que com eles a vida é mais doce.

V.M.
 
João Carreira / Hotel Du Jura
" NOTA: Devido à extensão do texto apenas aqui se reproduz uma parte."

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A emigração portuguesa em França começou de uma maneira massiva em 1957, sendo composta de homens de 18 a 20 anos, a partir de 1970 uma transformação teve lugar, começou a emigração familiar que provocou também transformações nas actividades profissionais dos emigrantes.

Sendo as obras públicas apeladas a 46%.

Obras Públicas................................................................ 46%

Indústria....................................................................... 24 %

Agricultura..................................................................... 14%

Limpezas......................................................................... 9%

Diversos.......................................................................... 7%

Em 1974 a França fechou as fronteiras à emigração, nós os emigrantes que até esta data tínhamos sido solicitados, sentimos o nosso lugar ameaçado e passamos a ser mal julgados pela população deste país.

Portanto, sem a nossa participação a França não teria em tão pouco tempo atingido o grau de desenvolvimento que atingiu. Antes habitávamos os bairros da lata, agora recebemos a medalha da gente a Mais.

Foi para nós muito difícil aceitar este desprezo, sofrendo já pela nossa condição de emigrantes e vendo o Governo deste país apoiar de um certo modo a opinião pública, considerando-nos responsáveis pela crise.

É verdade que hoje a França tem dificuldades em fornecer trabalho a todos os seus habitantes e que os lugares menos qualificados, anteriormente ocupados pelos emigrantes começam hoje a ser aceites e mesmo procurados pelos franceses.

Como a maior parte destes lugares estão já ocupados pelos emigrantes, uma certa camada social francesa considera que nós estamos em França para lhes roubar os lugares, para lhes comer o pão e não hesitam dizê-lo em cada ocasião muitas vezes proporcionam estas condições para nos insultar, chamando-nos suja raça.

A guerra em África necessitava de um máximo de combatentes, os jovens recusavam massivamente a guerra, saindo clandestinamente fugindo à tropa enterrando a farda e os armamentos na montanha, cento e sessenta mil jovens desapareceram deixando o sistema de António de Oliveira Salazar em dificuldade, somente a partir de 1966 é que o governo de Antônio Oliveira Salazar compreendeu a importância que representavam as remessas estrangeiras constituídas pela entrada massiva das economias enviadas pelos emigrantes.

A emigração poderia então salvar as pretensões do Governo, equilibrando a balança de pagamentos e permitindo ao Governo fascista continuar a suportar as despesas desta guerra suja.

Em 1973 as economias dos emigrantes para Portugal foram de 26,452 milhões de escudos, ou seja 47% do orçamento português, ou seja o equivalente das despesas ocasionadas pela guerra colonial.

Neste ano a repartição dos portugueses na Europa era constituída da seguinte maneira:

EM 1973

França........................ 900.000

Alemanha.................... 120.000

Luxemburgo................... 30.000

Espanha....................... 30.000

Inglaterra..................... 27.000

Suíça........................... 13.000

Bélgica......................... 12.000

Holanda......................... 7.000

Itália............................. 7.000

Suécia........................... 2.000

Restantes países.............. 8.000

Durante a sua campanha o General Humberto Delgado, estabeleceu como princípio objectivo, a abolição do fascismo e a aplicação da Democracia em Portugal.

Esta candidatura suscitou uma enorme mobilização das massas portuguesas quase em todo o país, e permitiu às forças progressistas de pôr em evidência os crimes do regime fascista, e de informar o povo. O Regime fascista fez tudo para impedir estas eleições, e a derrota de Humberto Delgado provocou um grande movimento de descontentamento popular.

O Regime fascista para sobreviver reforçou a repressão e a miséria, que já nesta altura era duramente sentida pelas classes mais baixas da população. Os agricultores do Norte, do Centro e das zonas fronteiriças não aceitaram de maneira fácil a miséria e a repressão que lhes causava um grande sofrimento. Ao mesmo tempo o impulso económico e rápido da França e de outros países europeus, provocou uma necessidade de mão- de- obra barata e obediente.

A miséria, a insegurança, a tortura e o desespero no nosso País, e por outro lado o pedido de mão-de-obra no estrangeiro, criaram uma enorme vaga de emigração quase totalmente clandestina.

As consequências foram dramáticas, para todos os que nesta situação se encontravam e que viveram neste período.

Outros factores aceleraram e reforçaram a falência económica da política de António Oliveira Salazar, começou a luta armada de os povos de Angola e Moçambique, em seguida de Guiné- Bissau.

Neste momento o sistema de António Oliveira Salazar opôs-se ferozmente à emigração clandestina, iniciando a repressão pela força, uma nova política internacional foi criada.

Espalhados por toda a parte do mundo os emigrantes vivem, sofrem o sentem como cada ser humano na sua razão específica.

O ser emigrante é deixar a sua terra, os seus amigos e familiares, todas as coisas e hábitos e uma parte de si, é abandonar por um tempo ilimitado ai sua cultura sem saber quando na verdade poderá reencontrá-la e em que condições a encontrará.

E sair cheio de esperança ou com os olhos razos de água à procura de uma vida melhor, de melhores condições de vida e com mais estabilidade.

E em todo o caso ter a certeza de ir entrar num mundo completamente diferente, replecto de hábitos diferentes, e aos quais será necessário adaptar-se custe o que custar.

Já no momento da partida nós perguntamos se será fácil compreender as línguas que teremos de falar e ouvir na viagem, à chegada e durante a nova vida.

E quando nos encontramos longe das nossas belas paisagens, do nosso povo, e do nosso timbre latino. É então que nos confrontamos com a separação, e o nosso coração se aperta, e na nossa memória começa a fixar-se a imagem dos seres mais queridos que deixámos.

Durante a viagem vamos descobrindo coisas maravilhosas, coisas que por falta de meios e de disponibilidade nem chegamos a compreender, nem a saber o que na verdade significam. Viajamos mas sem dar conta das paisagens viventes que atravessamos.

Encontramos pessoas que nos falam mas não as compreende-mos, se alguém se aproxima de nós, o nosso coração palpita, se o revisor nos pede o bilhete hesitamos, e acabamos por mostrar todos os documentos que temos, só assim acabamos por dar ao nosso interlocutor o documento que nos pede.

Quando não sabemos se na próxima estação será necessário mudar de comboio tentamos sempre encontrar um compatriota que siga na nossa direcção, a dois minimizamos a dúvida e a viagem tor- na- se muito mais fácil, a presença da nossa língua reconforta. O nosso coração sente-se aliviado.

Muitos de nós terminamos o nosso lindo sonho numa cadeira de rodas ou num cemitério espanhol, somos roubados, vítimas de acidentes, etc., os restantes convencidos da futura felicidade continuam, e o melhor que podemos avançamos ao encontro do nosso talismã (ou da nossa felicidade).

Uma vez chegados, a nossa principal dificuldade, é encontrar outras famílias portuguesas, assim a nossa adaptação é sentida com menor esforço e marcamos ao fim de cada dia um pouco de progresso.

O nosso comportamento social vai modificar-se, mas em relação à família tradicional francesa, muitas dúvidas nos preocupam, somos obrigados a viver a mesma cultura, sem a poder confundir com a nossa própria cultura, e ao mesmo tempo somos obrigados a avançar, a dar prontamente respostas adequadas, a resolver os problemas que deixámos ao partir. Uma chuva de problemas que se confrontam e aos quais já não sabemos responder, uma espécie de desorganização, se organiza no nosso espírito. O nosso filho que confiamos a sua avó, ou a sua tia, ou que ficou só, interno num colégio, nos deixa !inquietos, gostaríamos de o ter aqui bem juntinho a nós, mas que futuro lhe poderíamos oferecer aqui?

E como poderíamos se esta situação se deve prolongar?

O ser emigrante é tudo o que acabamos de ler, e mais ainda, é alguém que deixando o seu país, o ajuda ou mesmo tempo com bravura, coragem e esforço, enviando as suas economias e deixando aos restantes a possibilidade de se expandir, de melhor explorar a indústria, o comércio e o artesanato. E também participar na vida activa do país que escolheu pare emigrar, participando no desenvolvimento económico-social, enriquecendo assim o património cultural.

E, portanto, tanto no nosso País como no país onde trabalhamos somos muitas vezes mal reconhecidos, muitas falsas ideias complicam a nossa existência, e baixam a nossa dignidade.

Consagrei vários anos a tentar resolver problemas directa ou indirectamente ligados à emigração, debrucei-me mais particularmente cobre os últimos vinte anos, obtive da parte de emigrantes franceses testemunhos que conto mais adiante. Estes testemunhos constituem em si os verdadeiros episódios da emigração e da transformação que esta sofreu ultimamente.

A emigração portuguesa nasceu entre o século XVI e XVII, numa primeira fase os emigrantes portugueses foram os elementos vitais da colonização.

No fim do século XVII o Estado Português enviou urna primeira vaga de emigrantes para o Brasil, afim de manter e desenvolver esta colónia.

Em 1822 foi proclamada a independência do Brasil, e a abolição da escravatura, neste ano, os trabalhadores mais avantajados, os comerciantes e os colonos começaram a emigrar para Angola e Moçambique, Argentina, V. S. A., Canadá, etc.

Em 1957 o sistema emigratório português, sofreu grandes alterações, neste momento o fascismo de António de Oliveira Salazar, vivia a sua maior crise.

O General Humberto Delgado tinha decidido apresentar a candidatura à Presidência da República (nesta altura o Presidente ainda era eleito por sufrágio universal).

Nascimento

" NOTA: Devido à extensão do texto apenas aqui se reproduz uma parte."

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O meu nascimento teve lugar, como disse atrás há 325 anos quero dizer em 1650 o meu pai deixou cair um dos seus frutos, num lugar onde o solo tinha sido frescamente mexido, por animal fossador um ouriço talvez, um caçador ou um madeireiro pisou com o pé este fruto e enterrou-o profundamente.

- A Primavera chegou a chuva e o Sol incharam os tecidos deste fruto separando-o da sua cápsula e destruindo a sua casca, fazendo-o germinar aqui estou a prever algumas perguntas mas para que seja claro vou tentar responder o melhor possível.

Em primeiro lugar o que é o meu fruto? ou de uma maneira geral o que é o grão? pois a história do meu fruto é mais ou menos a mesma do que a de todos os grãos e sementes. O grão é o ovo da planta. Ela encontra-se em estado rudimentar sob o nome de óvulo, na flor, que é o órgão, o instrumento de que a Natureza se serve para reproduzir e perpectuar as espécies vegetais.

Vejamos bem: o grão não existe em todas as flores somente existe nas flores que contêm Gineceus que pelo facto contêm também ovários, as outras flores ditas estaminadas têm estame no lugar de Ginecens, os estames, situados ao centro da flor são formados de uma rede como uma pequena vara ou coluna que suporta um pequeno recipiente que por sua vez contém o pólen que se escapa na época de maturidade e é levado pelos ventos. Logo que o pólen cai sobre o ovário de uma flor com Ginecens, fecunda-a quer dizer que através de uma operação que todos os botânicos, com todas as lupas e microscópios nunca puderam penetrar nem sequer entrever este torna o óvulo apto a ser um grão, o qual será mais tarde e uma vez enterrado uma planta.

Quando o polén não tem mais caminho a percorrer; e apenas caído da sua cápsula, encontra-se em contacto com um ovário e fecunda-o incontinente é o que acontece com as flores completas que são ao mesmo tempo estaminadas e ginecens, que permanecem estéreis enquanto, que algum grão vivificante se não fixa sobre o ovário de uma flor feita para o receber.

O castanheiro pertence a uma categoria de vegetais que produz flores incompletas, umas só são estaminadas e as outras só têm ginecens, o que acontece é que umas recebem o polén das outras:

Muitas delas frutificam e são assim transformadas para que um fruto possa germinar devemos considerar um concurso de circunstâncias, que não depende unicamente do destino e que o destino realiza raramente.

O grão como já disse é o ovo da planta esta tem como o ovo necessidade de incubação mas como os seus pais se não podem encarregar desta tarefa, pertence ao Sol e à Terra que devem encarregar-se deste trabalho.

O Sol é quente e a Terra é húmida sob a influência destes dois agentes universais de onde provém toda a espécie de vida, seja ela animal ou vegetal, um maravilhoso trabalho que opera no seio e no interior do grão. O germe a vesícula embrionária que ele guarda em si e que constituem uma pequena massa celulosa que a pouco e pouco se anima.

As células subdividem-se desenvolvem-se e dão origem ao nascimento das duas partes essenciais das plantas; uma tenta sair da terra procurando o ar e a luz e a pequena e frágil haste provinda de duas primeiras folhas rudimentares a outra, ao contrária de toda a sua energia enfia-se, procura um caminho no solo é a radícula tal é a planta quando vem ao mundo ser tão frágil, fraca e delicada, que o mais pequeno choque a destruiria e a mínima compressão a faria perecer.

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Testemunho de Amâncio Rodrigues

Em 1969 à 1 hora da tarde foi a minha despedida de Portugal.

Foi no dia 12 de Outubro que a tão cruel necessidade e as más condições em que vivia me obrigaram a emigrar.

Abandonando a minha esposa e os meus três filhos que com a vergonha de aceitar esta dura realidade e sem saber como responder às perguntas a que estavam sujeitos, ficaram fechados no quarto durante todo o dia.

Foi um dia mau por ter chovido muito, por me lembrar a cada instante com temerosos trovões, aquele tão frio desespero que silenciosa- mente sentia dentro de mim.

O lugar de encontro e com o passador e com os futuros colegas de fuga foi em Águeda num café restaurante.

A custo de muito esforço e completamente encharcado, pois fiz este trajecto em bicicleta, consegui chegar ao tão desejado e receado encontro.

Cerca das quatro horas da tarde fiquei espantado quando me apercebi da situação que reinava neste café, cada um a seu canto, em frente de um copo de vinho, com um pão e um chouriço na mesa, mas sobretudo com uma espécie de medo misturado em terror, pois já não seria a primeira vez que outros como nós teriam saído dali, mas em direcção de Lisboa acompanhados pelos agentes da P.I.D.E.

Desta vez, tudo se passaria sem problemas (?) pensava eu, é medida que os outros futuros companheiros chegavam.

Ao fim da tarde estávamos reunidos, éramos 37 no total.

Velhos, novos, fracos e fortes, sentíamos todos e todos da mesma maneira aquele desespero aquele vazio que parecia limar dentro do nosso corpo aqueles ais já tão agudos. E quando mais esperávamos mais o coração se apertava.

As 10 horas da noite recebemos ordem para sair.

Devíamos então tomar o caminho do Porto, onde chegámos durante a noite e esperamos até de manhã, aqui tirámos bilhetes até Bragança.

As 8 horas da manhã apanhamos o comboio que nos levou nesta direcção, mas mal começada a viagem demos conta que estávamos a ser seguidos pela P.I.D.E., enfiámo-nos num alidie mechivo e tentámos disfarçar ao máximo a nossa triste condição de fugitivos. Ao chegar ao tunel o comboio parou e dois agentes à paisana chamaram-nos para nos perguntar de onde vínhamos, onde íamos e o que íamos fazer.

Respondemos amigavelmente que íamos apanhar azeitona e que tencionávamos regressar no fim de executada a nossa tarefa.

Deixaram-nos continuar, mas antes de chegar a Bragança demos conta que os tais agentes telefonaram sem nos perder de vista. Continuámos todos e antes do comboio arrancar saltámos fora do comboio e prevenimos o nosso passador que nos esperava em Bragança, este mesmo tinha notado à chegada de diversas viaturas que como soubemos mais tarde estavam destinadas a conduzir-nos à esquadra para interrogatório.

Como ele tinha amigos na região conseguiram facilmente encontrar um palheiro para nos esconder, onde poderíamos passar a noite e o dia seguinte sempre escondidos para não dar nas vistas.

Por volta das 2 horas da manhã recebemos ordem para sair a pé através dos campos na direcção de Bragança que ficava mais ou menos a oito quilómetros e onde nos esperavam para nos indicar o rumo seguinte.

A viagem embora longa e fatigosa começou, quando chegámos perto de Bragança. Numa pequena aldeia, encontrava-se um sujeito escondido atrás de uma medas de palha, que nós próprios aproveitámos para descansar e comer um pouco para em seguida continuar a viagem mas na direcção de Espanha que ficava a uns 15 quilómetros.

Com medo da P.I.D.E. resolvemos não descansar, continuamos a andar e mesmo se alguns íam bastante cansados, conseguimos atravessar a fronteira antes do amanhecer.

Andámos um pouco em território espanhol e parámos junto do posto da polícia onde esperamos pela manhã.

Às 8 horas da manhã o posto da polícia abriu, deram-nos então um passe válido por 30 dias. Estávamos contentes, com menos medo da P.I.D.E. e certos de poder permanecer no território espanhol pelo menos trinta dias.

Começámos por ir comer a chisa num restante sem dúvida já habituado a pregar tais festejos. Neste restaurante encontramos o nosso passador que festejou connosco esta primeira vitória e nos felicitou por tão bem termos enganados os agentes da P.I.D.E., que nos tencionavam engaiolar.

Comemos e bebemos em abundância, aprendemos a melhor conhecer e compreender o grupo que afinal se empenhou das mesmas alegrias e tristezas.

De maneira geral estávamos mais contentes, já estávamos demasiado longe da P.I.D.E.

E dos seus reformadores e era ainda muito cedo para pensar seriamente nas famílias.

Chegaram então diversos táxis que nos conduziram à fronteira francesa onde nos dirigimos à Duane que nos fez um outro passe que nos garantia o direito de ficar em França durante 30 dias.

Foi assim a minha chegada em França no dia 17 de Outubro