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| Vidas de Carvão |
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Paula Lemos - Prosa Vidas de Carvão - As Carvoeiras Do Pinhal Do Rei 6.6. A INDÚSTRIA DO CARVÃO A transformação de madeira em carvão perde-se nos tempos, pelo que é difícil, se não impossível, tentar descobrir a sua origem na região. Existem, no entanto, em diversas fontes relacionadas com esta região, referências a esta actividade que nos permitem seguir a sua pista durante algum tempo, confirmando que é uma actividade muito antiga.
Uma das primeiras referências localiza-se num texto escrito por volta de 1470, em que o povo da região se queixa ao rei, pelo facto de não lhes ser permitida a entrada para recolha de lenha em algumas propriedades particulares ignoradas pelos donos: "Item Senhor huum gramde mal se faz de pouco tempo a qua em vossos regnos per allguns prellados comemdadores e fydallgos que em seus bispados e terras comendas e lugares charnequas e matos fazem coutadas onde nunca forom defemdendo que em ellas pesoas allguumas nam arimquem torgaam e cepa pêra carvam nem pêra queimar Sem lhes pagarem de cada aluiam, certo trebuto... "62 Também no Regulamento de Pombal (1751) se faz referência a esta actividade: na sequência da permissão para retirar lenhas do Pinhal, salvaguarda "com tanto porem, que sendo a sepa para carvão, nunca as covas se farão senão fóra dos aseiros pelo prejuízo, que pôde resultar de alguns incêndios"63. Presume-se que a actividade em redor deste produto seria então grande, ou não teria constituído preocupação do próprio Marquês. Note-se, entretanto, que as preocupações mudaram. Do interesse em evitar o roubo de lenha passou-se ao interesse em evitar incêndios. Vemos ainda, na segunda carta topográfica que é feita do Pinhal, em 1841, pelos tenentes da Armada Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha, uma referência a "Carvoaria", como sendo um local situado um pouco a Sul do ribeiro de Moel. No mesmo ano os autores desta carta escrevem, no livro Memória sobre o Pinhal Nacional de Leiria: "Encontra-se êste útil arbusto (medronheiro) com freqüência em todo o Pinhal de Leiria; (...) e a cêpa é excelente para carvão, e para isso já foi aplicada durante alguns anos, ficando até o nome de Carvoaria a um sítio do pinhal onde ele se fazia"64. Desconhecemos, no entanto, os responsáveis por tal actividade. A partir de 1860 sabemos que é o próprio Estado, por intermédio da Administração das Matas, que assume o fabrico do carvão dentro da Mata. A sua intervenção surgiu devido à necessidade de manter o Pinhal limpo de matos, preocupação justificada, sobretudo, pelo receio dos incêndios. Isto mesmo verificamos no testemunho do Administrador Geral das Matas, José de Melo Gouveia, num Boletim do Ministério das Obras Públicas de 1860, que, reflectindo sobre algumas medidas a tomar para evitar os fogos florestais, sugere: "Enquanto a actividade social é insuficiente para ajudar a administração a pôr em situação regular esta parte da cultura das mattas, há só um meio de reparar o mal. É a empreza onerosa e directa de limpeza e desbaste, isto é, dispender somas consideráveis em remover anualmente do solo enormes volumes de lenhas..."65. No mesmo Boletim do Ministério das Obras Públicas de 1860 se diz: "Em limite de rasão e de Justiça sempre o Governo se mostrou disposto a favorecer emprezas que podem auxiliar a limpeza e desbastes das matas nacionais, e até promove directamente algumas indústrias que se casam com a índole d'esta Administração, e concorrem para aquele fim, taes como as antigas de pez e alcatrão, as de rezinas, que está experimentando, e as dos carvões que fundou n'este ano de 1859, com o duplo fim de limpeza e de polícia (...)"66. Segundo Joaquim Barosa, nesta actividade trabalharam muitos vidreiros, desempregados devido ao encerramento da Nacional Fábrica de Vidros, entre 1859 e 1860.67 Esta iniciativa surge confirmada noutro documento, onde se refere que o actual Ponto Novo (um dos pontos de vigia de fogos, existente precisamente a Sul do ribeiro de Moel) era igualmente conhecido, naquela altura (1887), por ponto de vigia da Carvoaria 68. Talvez fosse o antigo local de fornos de carvão ou o sítio indicado para vigiar essa actividade. 0 Estado autoriza, ainda, em 1865, a Companhia de Ferro e Carvão de Portugal a carbonizar lenha dentro do Pinhal de Leiria, com algumas condições, das quais se destacam fazê-lo apenas entre os meses de Outubro e Abril, e unicamente nos locais designados pela Administração, devendo limpar de mato toda a área indicada pelos Serviços. 0 documento inicia-se, aliás, com mais uma referência a que "a limpeza do solo florestal do pinhal de Leiria, por extracção e carbonisação dos arbustos e raízes, é uma operação, que, discretamente dirigida pela administração local, é vantajosa para a cultura e rendimento do pinhal"69. Também alguns particulares requeriam, ao tempo, a concessão de terrenos do Pinhal onde pudessem fazer a exploração e carbonização de arbustos e raízes, sujeitando-se, nestes casos, às mesmas condições que a Companhia de Ferro e Carvão de Portugal. Torna-se impossível datar com rigor, mas, numa análise empírica, verificámos que todos os informantes na aldeia do Pilado afirmam que os avós faziam carvão, havendo um que refere ainda que esta tradição remonta ao seu bisavô, acrescentando que "vem do tempo dos ingleses" (irmãos Stephens?). De facto, existe ainda um local na Mata que possui um poço a que chamam "o poço dos ingleses". Como estes informantes têm entre 74 e 78 anos, e definindo a idade média de 20 anos para a primeira gravidez, podemos remeter a actividade para os anos de 1867-71. Note-se ainda que ela nessa altura já estaria enraizada na povoação, o que supõe que esta actividade neste povoado é bastante mais antiga. Algumas das carvoeiras entrevistadas confirmam a existência de zonas do Pinhal que ainda têm o chão coberto de lascas de carvão, o que atesta a existência de antigas carvoarias. Estes documentos suscitam-nos alguns comentários. Assim, por um lado verifica-se que a necessidade de recorrer ao carvão é muito antiga (pelo menos anterior ao século XV) e que ele era produzido com regularidade pelas povoações adjacentes ao Pinhal. Deduzimos igualmente que nas matas particulares o acesso ao material lenhoso era muito mais condicionado, quando não proibido (apesar de, como vimos no exemplo citado, os seus donos nunca lá irem). Vimos também que a actividade se teve ter praticado de forma substancial no princípio do século XIX, dada a existência de uma vasta área conhecida por todos como Carvoaria, a ponto de constar num mapa oficial. A iniciativa que os Serviços Florestais tiveram em 1865 veio na sequência de esta já ser uma actividade bastante comum na região. Estranhamos, contudo, que o Estado, verificando que o Pinhal se apresentava constantemente atravancado com matos e lenhas secas, e que o mato que as populações de lá retiravam diariamente não era suficiente para se apresentar limpo e desobstruído, ("a actividade social é insuficiente para ajudar a administração a pôr em situação regular esta parte da cultura das mattas"), favoreça iniciativas industriais, por ter interesse em que lhe limpem gratuitamente o Pinhal e, simultaneamente, impeça com multas, sobretudo a partir do século XIX, centenas de habitantes das zonas limítrofes de recolherem lenha para as suas necessidades diárias. Entretanto, no final do século XIX, os Serviços Florestais deixaram de se dedicar a esta actividade mas ela continuou nalguns povoados adjacentes, onde possivelmente já existiria. Há notícia de carvoarias no lugar de Água Formosa e Carvide, perto de Vieira de Leiria, mas foi sobretudo no Pilado que esta actividade teve um grande desenvolvimento, chegando a existir cerca de 60 fornos em actividade por volta dos anos 20-30 do século XX."70 62 Texto citado por PINTO, Arala, sem sem contudo precisar a data do documento, o.c., vpl. I, p. 354
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