Banca europeia vive dias de sobressalto
As intervenções anunciadas na semana passada não estão a ter o efeito desejado e especula-se que mais bancos europeus possam precisar de ajuda. Receios que justificam a falta de confiança no sistema financeiro europeu

Raquel Godinho e Paulo Moutinho

Fortis BNP Paribas assume controlo por 14,5 mil milhões
O BNP Paribas, o maior banco francês, chegou ontem a acordo para assumir o controlo do Fortis na Bélgica e Luxemburgo, por um valor de 14,5 mil milhões de euros, depois de o resgate governamental ter falhado. Esta operação segue-se, assim, à injecção de 11,2 mil milhões de euros, anunciada há uma semana atrás, pelos governos da Bélgica, Holanda e Luxemburgo.
O banco francês vai pagar 9 mil milhões de euros em acções e 5,5 milhões em dinheiro por 75% do Fortis Bank Belgium, todas as operações de seguros na Bélgica, e por 67% da unidade do Fortis no Luxemburgo.
O Estado belga passará a ser o maior accionista do BNP com 11,6% do capital. Já o Luxemburgo passará a deter 1,1%. o banco francês vai ganhar cerca de 3,3 milhões de clientes no retalho na Bélgica e no Luxemburgo e 1.458 sucursais, incluindo as da Polónia, Turquia e França. Com cerca de 586 mil milhões em depósitos, o BNP vai tornar-se a maior instituição nos 15 países que partilham o euro.
Dexia Governos belga e francês vão anunciar novas medidas
O Dexia, instituição financeira f ranco-belga que na semana passada foi alvo de uma injecção de 6,4 mil milhões de euros por parte dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo, também foi ontem protagonista dos receios dos investidores. As acções da companhia recuaram 20,28% na bolsa de Paris, pressionadas pelo sentimento negativo dos investidores, à espera de um anúncio de uma solução para o tirar da crise.
O primeiro-ministro belga, Yves Leterme, anunciou, após um encontro em Paris com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que "nos próximas horas ou dias vamos tomar medidas para reforçar o Dexia", frisando que não há que recear os "fundamentais do grupo" e que a instituição enfrenta "problemas temporários". Após os desenvolvimentos em torno do Fortis, ganhou força a expectativa de uma nova operação para garantir a estabilidade do Dexia.
Hypo Real Estate - Novo resgate de 50 mil milhões de euros
O plano de resgate elaborado na semana passada pelo governo alemão e um consórcio de bancos do país para garantir a actividade do Hypo Real Estate fracassou este fim-de-semana. A banca retirou o seu apoio ao plano de emergência no valor de 35 mil milhões de euros.
Assim, e depois de intensas negociações entre o ministério das Finanças alemão, o Bundesbank e os bancos privados, a segunda maior entidade de concessão de crédito hipotecário comercial foi alvo de um plano de resgate no valor de 50 mil milhões.
De acordo com as declarações da porta-voz do Governo alemão, o sector financeiro do país concordou em duplicar a anterior linha de crédito para a entidade, para 30 mil milhões de euros, enquanto a garantia federal se mantém inalterada (20 mil milhões de euros).
O governo e o banco central do país consideraram que esta instituição é demasiado grande para falir. Foi este o rastilho para o dia negro que se viveu ontem nas bolsas mundiais.
Unicredit Reconhece 'erros' após anunciar aumento de capital
O Unicredit, o maior banco italiano, distingue-se dos demais bancos por não ter sido alvo de auxílio governamental. Contudo, a instituição italiana enfrenta uma situação financeira delicada e depois de na passada quarta-feira ter anunciado o "spin-off" da sua unidade de imobiliário para fortalecer o seu capital, no Domingo avançou que vai proceder a um aumento de capital, tal como o mercado acreditava nos últimos dias.
O banco italiano afirmou que vai realizar um aumento de capital no valor de 6,6 mil milhões de euros para repor os seus rácios de capital, devido à turbulência do mercado, à deterioração das condições macroeconómicas e a falta de confiança sem precendentes entre as instituições financeiras.
O presidente-executivo do banco, Alessandra Profumo, disse que o banco subestimou a crise financeira global, reconhecendo "alguns erros" na avaliação do actual cenário dos mercados.
O sector financeiro europeu viveu ontem mais um dia "negro". O DJ STOXX Banks, que agrega as maiores instituições da Europa, afundou quase 9% e acentuou o mau desempenho em 2008 para uma perda na ordem dos 37%. Dos mais de 60 membros, apenas dois conseguem variações positivas, o britânico HSBC e o Valiant (da Suíça).
Todos os outros registam desvalorizações elevadas, entre eles dois dos três maiores bancos privados nacionais. BCP e BPI figuram no "top" negativo do índice, com quedas de mais de 60% desde o início deste ano.
O banco liderado por Fernando Ulrich é mesmo um dos piores, só superado pelo falido Glitnir, o HBOS (comprado pelo Lloyd's), Natixis, Anglo Irish e o Fortis. O BES, apesar da queda de 46%, consegue o melhor registo nacional.
Fonte    Jornal Negócios : Raquel Godinho
Publicador    Clipping
Data     7 Out 2008