Lições para a história do sistema financeiro
Lições para a história do sistema financeiro
Pré-abertura
Ivo Banaco
Esta semana as atenções deverão continuar a estar centradas na grave crise do sector financeiro dos Estados Unidos, relegando de alguma forma os indicadores macroeconómicos para segundo plano.
A convulsão a que se tem assistido nas últimas três semanas e as lições que se tirarão desta crise, iniciada no Verão de 2007, farão certamente parte de capítulos importantes dos próximos manuais de economia e finanças e da história do sistema financeiro norteamericano, em particular. Presentemente, à parte dos contornos particulares de que se reveste o despoletar desta turbulência financeira, a grande incógnita continua a ser o seu grau de repercussão na economia "real", intensificandose os receios de uma recessão na economia dos EUA.
Por um lado, a enorme queda da cotação das acções das principais instituições financeiras vem acentuar a actual desaceleração da actividade e as cada vez mais restritas condições de acesso ao crédito com que empresas e famílias têm que se deparar.
Uma forma de quebrar este ciclo passaria por um aumento dos níveis de confiança dos agentes, apenas parecendo possível com a recuperação dos indicadores do sector de habitação, onde reside a origem da crise. Assim, os dados relativos às vendas de habitação existente e de novas habitações do mês de Agosto (a serem divulgados dia 24 e dia 25, respectivamente) podem revestir-se de particular importância.
No entanto, estes indicadores, embora possam revelar alguma estabilização, não deverão apresentar ainda registos compatíveis com uma recuperação do mercado.
Isto, ao mesmo tempo que indicadores-chave, como a produção industrial, emprego, rendimento e consumo das famílias, começam a assumir trajectórias próximas de anteriores ciclos recessivos.
Não é, no entanto, de esperar que a prioridade da Reserva Federal seja a de cortar os juros de referência, considerando que, à partida, o actual nível de 2 por cento é compatível com o estímulo da actividade.
Ao mesmo tempo, a resposta à actual crise está a passar por medidas de outra natureza, envolvendo o Governo norteamericano. A proposta conjunta do secretário de Estado do Tesouro e do chairman da Reserva Federal - Henry Paulson e Ben Bernanke, respectivamente de criação de uma agência governamental com o intuito de transferir os activos ilíquidos (de fraca qualidade) das instituições financeiras e devolver a confiança ao mercado é a prioridade política e financeira central.
Esta intenção foi, para já, muito bem recebida pelas principais praças accionistas, que, na passada sexta-feira, recuperaram vigorosamente, depois de uma semana verdadeiramente negra onde, sem a intervenção das autoridades, se temeu o colapso do sistema financeiro norteamericano, fazendo recordar os contornos da Grande Depressão de 1929.
Na zona euro, o destaque vai para a divulgação dos importantes indicadores de confiança empresarial PMI indústria e serviços (dia 23) e o IFO da Alemanha, para o mês de Setembro. Espera-se a continuação da deterioração do sentimento que actualmente se vive.
Com efeito, os "animal spirits", que Keynes acreditava moverem os empresários a investir, deverão permanecer em baixa, dada a actual conjuntura internacional, contribuindo, em larga medida, para a desaceleração da actividade.
Eventualmente, aquilo que poderá contrabalançar esta trajectória negativa reside na depreciação do euro, que tende a impulsionar a recuperação do sector exportador, e da queda do preço do petróleo, que alivie os encargos das famílias. No entanto, mesmo estes elementos tendem a ser mais consequências do baixo crescimento do que factores que poderão sustentar a recuperação da actividade.
No caso da depreciação da moeda europeia face ao dólar, ela ocorreu mesmo tendo em conta o diferencial que o mercado está a descontar entre os juros de referência dos bancos centrais dos respectivos países.
Tal sinaliza que a expectativa de um abrandamento significativo da economia europeia é o cenário central para os agentes. A baixa do preço do petróleo tende também a reflectir mais os sinais do abrandamento das economias dos principais importadores que apenas a prazo poderá constituir um factor que impulsione um maior dinamismo da actividade e a estabilização da inflação. ES Research - Banco Espírito Santo
Fonte    Público : Ivo Banaco
Publicador    Clipping
Data     22 Set 2008